Revista de moda (II)

The New Yorker, Nov.2008

Com Róisín Murphy "casaco de antílope" ganha um novo sentido.
Quem vê caras não vê chapéus.
Fotos © Miguel Gaspar
posted by sara at 14:43
E a publicidade, já agora. A Gucci foi muito feliz com a contratação de James Franco para vender perfume. Ele é francamente bonito, sem dar nas vistas; tem graça, sem precisar de se armar em engraçadinho (ver, a título de exemplo, o Screen test para o New York Times ou a entrevista no programa do Letterman para atestar o sorriso irresistível, vagamente vampiresco, eu virava-lhe a face e diria: toma o meu pescoço, James, é todo teu); e com certeza cheira bem. Qualquer mulher no seu perfeito juízo se tornaria voluntariamente "slave to love" por ele - como diz a música de Brian Ferry, aqui numa excelente versão electro de Róisín Murphy (fantástica em concerto esta semana no Coliseu), que devia ser obrigatória nas pistas de dança.
Por enquanto não tenho mais nada a acrescentar em defesa da causa, a não ser uma referência agradecida ao Miguel Marujo pela nomeação casta do meu blogue no E Deus Criou a Mulher. (E que bela foto me calhou da Laetitia, numa variante do vestidinho preto: com umas calças de ganga e uma camisa branca, nunca me comprometo!... A Gucci aprovaria.)
posted by sara at 15:53
Molhar os pés em Dog's Bay, na costa oeste da Irlanda. Fotografia com sol, areia fina e o alto patrocínio da Camper.
posted by sara at 23:41

Harry Jones Thaddeus, The Wounded Poacher (1881)
Demorei-me em frente deste quadro na National Gallery (lá fora chovia, chovia). Vejo aqui muita coisa, mas, à luz dos tempos que correm, as lebres mortas no chão afiguram-se-me como instituições bancárias falidas (que se deixaram apanhar), o caçador moribundo ferido é o sistema financeiro, e a mulher parece-se com o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson, sem querer insinuar que o senhor é efeminado.
posted by sara at 19:45

Afixado num pub de Dublin, o SIN É (expressão em irlandês que significa "That's it"). Meio litro de cerveja a preço de saldo, em Outubro de 2008.
posted by sara at 19:05
«Não querer dizer, não saber o que queremos dizer, não poder acreditar no que queremos dizer, e no entanto dizer, ou quase, eis o que importa não perder de vista, no calor da escrita.»
Samuel Beckett, em Molloy
posted by sara at 00:32
Em Tame the Kant (fresquinho na blogosfera):
Respondam-me a isto, por favor: afinal, quem é o "Outro"? Que espécie de Deus ou sorte de fantasma é ele, de quem me contam asiaticamente tragédias, tragédias que não percebo de todo, como se eu o Lázaro de um coma infinito qualquer, ressuscitasse para um mundo pós-qualquer-coisa, sei lá bem quê, com novos ídolos? ("Merda, faltei a essa aula. Não vi essa parte do filme. Não, não vi as notícias. Caramba, não estava cá. E tirar isto a limpo?") É todo um outro esquema conceptual. Ando antropologicamente analfabeto por causa dele: privadamente humilhado, ontologicamente amputado, outrologicamente excluído. Ando outro por causa disto, nem me sinto completamente eu. "Haverá outros como eu?"
Enfim, parece que não. Ouço-os falar a todos e abano a cabeça que sim, mas receio bem o contrário, porque ele, o "Outro", de que todos falam, é para mim, como dizia o outro (mas não ele-mesmo, mais ou menos por estas palavras:) "toda uma civilização". Não sei quem é; realmente, nunca o vi; consta que o devia conhecer. E tenho direito a conhecê-lo, fogo! Mas por um azar cósmico do caraças, chego sempre atrasado à conversa; até mesmo na televisão se fala dele; inventaram-se verbos e substantivos para falar dele! Mas eu o Lázaro in medias res, ele é como para mim (e ignorem-me a rima) em chinês. Que diabo é o "Outro", diabos?!
A pior parte é que, pelo que tiro vagamente das conversas, devia ter pena dele. E isso redobra a angústia. Dó de mim: também quero sentir pena dele; não me roubem o direito à pena; contem-me a tragédia inteira dele; tudinho; tim-tim por tim-tim. Piedade, ó quem sabe a resposta, esclareçam quem é; é-me urgente ligar os pontos, realizar o nexo mental, clarificar este sentimento, viver a catarse, gozar o consolo: o da identificação, porra, não mo tirem! Não vivo sem isso! Ó "Outro" quem quer que sejas pobrezinho, é o mínimo que te devo.
Por amor de Kant! Quem é o "Outro"?
Ainda no outro dia me colocava a mesma questão. Quer dizer, não é que me coloque este género de questões logo pela manhã, quando vou na linha azul. Aí é costume interrogar-me comezinhamente sobre o que é que o "outro" (com minúscula), mesmo à minha frente, estará a ouvir no leitor de mp3. Tenho sempre imensa curiosidade em sabê-lo. Formulo hipóteses a partir de coisa nenhuma, até que o passageiro perscrutado desapareça na estação seguinte. Ou disperso antes disso, quando sou interrompida por uma travagem brusca, mais do que frequente, o que provoca a deslocação de corpos em massa, geralmente uns para cima do "outro" (com minúscula). E é então que regresso à questão que me ocupa há tanto tempo (há quanto tempo, meu deus, demasiado): como é possível não saber conduzir um comboio? Não pode haver muitas dúvidas sobre qual o percurso a seguir, GPS só se for para passar o tempo, debaixo da terra não há semáforos a cada esquina nem lombas nem passadeiras (por enquanto, pois sabe-se lá o que nos trará o futuro), nunca surge uma árvore em curva inesperada (e se há peão, não devia haver, vida madrasta), a papinha está toda feita pelos carris. É só acelerar, desacelerar, acelerar, desacelerar, e enfim travar. SUAVEMENTE, raios partam o condutor do metro, esse "outro" (com minúscula) inepto. Está com pressa? Não sei porquê, já se vê que picou o ponto. Não compreendo, nem aqui sentada, nem aos solavancos. Segunda-feira teremos com certeza uma nova e recorrente oportunidade para pensar nisso.
Dizíamos, perguntávamos, quem é o "Outro"? (com maiúscula), vamos lá. Não pode ser aquele que vai na linha azul, com fónes nos ouvidos, como eu. Ou pode? Sim? Não? Afinal onde está ele?
Achei que devia começar por aí, fazendo directamente a pergunta. Era uma mini-entrevista, inofensiva, de resto, até tinha sido eu a sugerir que a fizéssemos, dadas as circunstâncias. Mas por email, portanto nem corria o risco de levar na cara com um sorriso introdutório academicó-condescendente. De qualquer forma, precavi-me. Antes de enviar o questionário, fui ter com o Outro (maiúscula de respeitinho, sem aspas), que percebe destas coisas, pedir-lhe que me ajudasse a perguntar. Acha que é palerma perguntar-lhe quem é o "Outro"?, perguntei. Ele respondeu que não, mas que melhor seria perguntar quem é o "Outro", vírgula, hoje.
posted by sara at 20:11
A terceira dimensão, a passagem do tempo, o movimento.
posted by sara at 20:09

Portrait of Lucian Freud on Orange Couch, Francis Bacon
1965, Oil on canvas
Private collection
If you compare him to Lucian Freud, say, it's obvious that Freud is the more technically accomplished painter. He can read what he sees, and render it. Bacon couldn't do that. If you look at the feet in his paintings, they're bloody awful. He can't do boots. [Laughs] But it's so bloody powerful. His work always veers into the imagination. There's always this raw, dark power, this visceral energy that is compelling. The paint is alive.(...)
I was obsessed with him as a young painter. I was into punk and I was into Bacon. He was out there on his own. You had the Surrealists, the Impressionists, the Pointillists and all the other ists, and you had Bacon. I gave up painting at 15 because of him. I was just doing bad Bacons. I saw his work and I stopped wanting to be a painter. I stepped aside into sculpture. I've gone back lately, though. For the last two years I've been in the shed slapping paint on canvas. Big and small paintings. Skulls, crows, tryptichs. Dark blue. Baconesque. He's a supreme colourist. Beautiful colours. He seduces you with colour.
I have five Bacons now. They'll end up in the Manor [Hirst's country estate in Toddington]. I have one on the wall by the TV. I watch it more than I watch the TV. You can't not look at it. It demands your attention, pulls you in. It's just unbelievable to me that I own them.(...)
posted by sara at 00:27


Damien Hirst ao lado de Anatomy of an Angel, na Sotheby's
«Quando, em 1494, o banco Medici faliu em Florença, os artistas e pintores a que a família generosamente encomendava trabalhos entraram em pânico. Acabara o mecenato. O banco Medici falira, devido à depressão económica e à agressão francesa. Tudo mudou. Enquanto bancos vão à falência, enterrando um modelo de negócio, nunca a arte conheceu dias tão rentáveis. Parece um paradoxo. O Lehman Brothers não conseguiu atrair dinheiro fresco e, ao mesmo tempo, em Londres, a Sotheby's continuava o seu leilão de 223 novas obras do artista Damien Hirst, tendo até agora atingido um valor de vendas de 126 milhões de euros. Isto é, quando falta liquidez para salvar um banco, há dinheiro a mais para comprar obras de arte que ainda não foram testadas pela sensatez do tempo. Um banco vale, hoje, menos do que as obras experimentais de Hirst. Isto é, uma obra cujo valor é garantido pela subjectividade é hoje considerada um investimento mais seguro do que um banco de investimento. Para além do leilão modificar radicalmente as regras de negócio das obras de arte, ele perpetua duas lógicas: a que começou nos anos 60, em que a arte começou a ser considerada um investimento, e, nas palavras de Andy Warhol, que "fazer dinheiro é arte e trabalhar é arte e bons negócios são a melhor arte". Donde quase se poderia dizer que a subjectividade da arte venceu a subjectividade dos produtos financeiros derivados. Os artistas derrotaram aqueles que foram os seus mecenas? Será esta a nova forma de negócio que aí vem?»
Fernando Sobral, A arte e a finança, hoje, no Jornal de Negócios
posted by sara at 11:55
«Being needed: the next best thing to being wanted.»
(definição ouvida numa série da tv)
posted by sara at 11:47

ao fundo dois pescadores
Nem o mau tempo nos demoveu de ir ao ponto mais a sul de Portugal Continental.
posted by sara at 17:34
Santa Ágata, Oficina Maneirista Algarvia, finais do séc. XVI
Encontrei este quadro quando circulava no Museu Municipal (lá fora chovia). Estava pendurado no corredor menos iluminado entre as salas do Convento, e não resisti a fotografá-lo (peço imensa desculpa, suponho que não seja permitido). Deixou-me tão impressionada que continuo a pensar nele, uma semana depois. Uma mulher com uma bandeja nas mãos, onde repousam as suas maminhas, digo, seios (respeito pela Santa) cortados.
Como não conhecia a história desta mártir, fui procurar: Ágata foi vítima das perseguições do Imperador Décio(?) aos cristãos, por volta do ano 250. No entanto o que precipitou a tortura dela terá sido o despeito (não sei se estou a ser muito feliz com esta palavra) de um cônsul romano quando ela se recusou a casar com ele. Consta que era muito bonita, vinda de uma família nobre da Catânia (Sicília), e com uma fervorosa devoção a Cristo. Tentaram corrompê-la enfiando-a num bordel, mas ela não cedeu. Então mandaram-na para os calabouços onde lhe fizeram esta atrocidade (entre outras). Depois de ter tido uma visão de São Pedro as suas feridas sararam. Claro que a história não acaba aqui, embora não seja difícil de imaginar o resto: mais torturas, mais milagres, torturas, milagres. Canonização.
O relato desta amputação pode ser verdadeiro ou pode ser inventado. É indiferente. Será sempre produto da mente humana. E esse é o maior horror.
posted by sara at 17:14

Feeling Material VII (série), Antony Gormley, 2003
posted by sara at 22:23
O MigMag ontem dizia-me que somos (d)a Geração "Onde é que estavas no 11 de Setembro".
posted by sara at 11:50
Antes que algum dos escassos visitantes deste blogue me acuse de arrogância, seria importante dizer que, para além de não me rever na embirração militante que Clara Ferreira Alves tem com Cavaco Silva (apesar da figura deste me ser antipática desde sempre, do que eu gosto é de uma boa tirada), o que me incomoda verdadeiramente em Sarah Palin (lá porque partilhamos o primeiro nome e as iniciais...) não são as "origens humildes" (não acredito em determinismos de berço) nem o penteado ou o sofá-urso no gabinete de trabalho (dois pequeninos sintomas do provincianismo que vai naquela cabeça), mas a possibilidade real de que uma pessoa como ela, que representa para mim o que os Estados Unidos têm de mais assustador, possa um dia vir a ser Presidente (worst case scenario) da maior potência mundial. É o ultra-conservadorismo, o nacionalismo, o anti-europeísmo, a paranóia securitária, a apetência bélica, o "vamos-pegar-em-armas-e-barricarmo-nos-porque-está-tudo-contra-nós"ismo... E, sobretudo, porque me parece que ela é uma força da natureza, capaz de levar tudo à frente. Ao pé dela Bush é um menino.
posted by sara at 19:17

Alasca, Agosto de 2008
Podemos tirar a rapariga de Wasilla, mas não podemos tirar Wasilla da rapariga, dir-se-ia com crueldade.
posted by sara at 12:12
© Renata Sancho
Uma fotografia por dia, disse ela. Bom fim-de-semana.
posted by sara at 13:18

Coração de farolim despedaçado. Apanhei-o na Praça da Alegria, pelas 08h40 da manhã, com o meu Nokia 2 megapixel (e a devida vénia ao Irmão Lúcia).
posted by sara at 22:24
Quando esta segunda-feira li o que o Ivan escreveu, quis dizer qualquer coisa. Hesitei durante dois dias, evitei pensar no assunto. É delicado. Morreu uma pessoa. Não a conhecia, nem sequer de vista, nunca trocámos emails, não sei quem era. Mas tinha um blogue de que eu gostava e respeitava-o. Quando construí uma lista de links, ele esteve lá desde o início. Há uns tempos retirei-o porque pensei que tivesse sido abandonado.
Agora sabemos que O Céu sobre Lisboa não voltará a ser actualizado. O último post (de Fevereiro) está publicado de forma que parece uma despedida, porque foi isolado do resto. Mostra um vídeo que o autor do blogue, Pedro Ornelas, gravou de um concerto na ZDB. Eu estava lá a assistir (se calhar ao lado dele). É uma banda especial, também para mim, os NORMAN.
posted by sara at 21:45


Hoje acompanhei uma amiga que está a coordenar um workshop de cinema para um grupo de adolescentes do Casal da Boba, na Amadora. Nunca lá tinha ido (como estou certa que a maior parte de vós também não). Ao almoço (cachupa), ela já me tinha dito que o vira várias vezes por ali, no bairro onde os miúdos vivem e andam a filmar (na rua, nas suas próprias casas). Mas não imaginava que logo a seguir, quando fôssemos tomar café, me cruzaria com ele. Estávamos de saída quando o Ventura entrou. Sim, continua elegante como no filme do Pedro Costa.
posted by sara at 21:14

Adoro este filme, The Grifters (Stephen Frears, 1990). Em Portugal deram-lhe o título de "Anatomia do Golpe". Consumi-o inúmeras vezes porque houve uma altura que parecia estar em loop na programação do canal Hollywood. No meu zapping ia lá parar constantemente, e dali já não saía. O bónus chama-se John Cusack (giro), faz de filho dela. A propósito: não podíamos estar mais em desacordo com parte deste post do Mexia. Não sei que opinião tem a minha mãe sobre o Cusack (quite irrelevant for that matter), mas eu sempre gostei muito dele.
E agora a palavra à nossa amiga Wiki:
For the role of Lilly, Frears originally considered Cher but she became too expensive after the success of Moonstruck. Frears first contacted Anjelica Huston about playing Lilly in 1989 while she was filming Crimes and Misdemeanors, but after reading the script, she was unsure. Before she could make a decision, Frears called her and said that they were going in a different direction in the casting. Melanie Griffith was approached to play Lilly because he was interested in making a film "about how shocking it would be to have a mother who looked like your sister," but the actress was pregnant at the time and could not do it. A few months later, Frears contacted Huston again to see if she was still interested. He was reluctant to cast her because she looked like, "a lady" and decided to cheapen her look with a bleached blond wig and wearing "vulgar clothes".
Cher? Melanie Griffith? Those bimbos? Pliize. Anjelica rules.
posted by sara at 21:57


Em cima, Anjelica Huston (faz parte do pequeno olimpo de actrizes que existe na minha cabeça), algures entre o final dos anos 60 e início dos 70, modeling. Em baixo, Alexandra Maria Lara, 2007, a desempenhar o papel da paixão extra-conjugal de Ian Curtis (a belga Annick Honoré), no filme Control (sem comentários). Completamente por acaso.
posted by sara at 21:36
«Il n'y a pas de solution parce qu'il n'y a pas de problème»
(Marcel Duchamp)
posted by sara at 17:29

Em plena adolescência, houve uma série de verões em que, normalmente em Setembro, os meus pais me "obrigavam" a ir passar uma semana com a minha Avó Lídia na Curia. (Filha única e neta única por um lado, nunca tive grande hipótese de não ser uma menina mimada.) Ela, uma Senhora "do antigamente", gostava de ficar no Palace Hotel, monumental, como se pode ver pelo postal, que no início dos anos 90 permanecia com aspecto igual, mas sem o glamour intrínseco de outros tempos. Chegávamos de comboio e o táxi levava-nos pela avenida larga, um túnel lindíssimo de árvores, tal como o recordo, até ao hotel. Para além disso, havia o parque "romântico" com o lago e os barquinhos, alguns restaurantes, as águas termais (decadentes, que a minha Avó nem sequer frequentava) e umas lojecas pirosas de souvenirs. Convenhamos que não eram umas férias de sonho para uma miúda com as hormonas aos saltos.
Os quartos que ocupávamos tinham passagens entre divisões. Descíamos o elevador de ferro e tomávamos o pequeno-almoço. Depois ela sentava-se à sombra junto à piscina olímpica (pelo menos era assim que eu a dimensionava), enquanto a neta queimava horas de tédio a mergulhar e a fantasiar com noites numa discoteca inexistente nas proximidades. (O episódio mais excitante de que me lembro foi quando um grupo de rapazes, uma equipa de qualquer coisa, ficou instalado durante uns dias no Hotel. Levaram um tijolo para a piscina e puseram a tocar INXS. Foram repreendidos e não voltou a acontecer. O único contacto que mantive com eles foi estritamente visual, mas sempre deu para me entreter.) Às vezes vinha alguém da família visitar-nos e partíamos de carro, de passeio até ao Buçaco, por exemplo. De regresso, jantávamos no salão à hora certa, encontrávamos as outras senhoras (com sorte, traziam também netos, era o que me ia safando), trocavam-se impressões sobre males do corpo e banalidades afins de mesa para mesa, havia a sala de televisão ("de convívio"), e depois jogava-se às cartas (ela não; ficava apenas a observar, embevecida). Dessa parte eu até gostava (sobretudo se fosse King ou Sueca), era o momento em que algumas velhotas revelavam um sentido de humor extraordinário. Nunca recolhíamos aos quartos sem antes eu conseguir escapulir-me para fumar um cigarro às escondidas ("Avó, vou só ali dar uma volta no jardim"), uma espécie de ponto de honra da minha condição adolescente. A partir de certa altura, fui dispensada do "frete". A minha Avó também deixou de ir. E foi assim que a Curia entrou para o meu arquivo.
Leio hoje no Fugas do Público que o Curia Palace Hotel, a celebrar o seu 82º aniversário, foi renovado. Agora "ainda mais exclusivo", tem "banho japonês (sentô) e piscina de jactos com som subaquático", seja lá o que isso for. Para mim, vai ser sempre o Hotel da minha Avó, de quem tenho imensas saudades.
posted by sara at 13:52
The structure of the calendar system known as the Thirteen Moon calendar/Dreamspell is basically as follows: It proposes that we use a calendar of Thirteen different Moons of 28 days – presented as the feminine cycle – to which a "day out of time" on July 25 is added to account for the 365 days of a solar year (13 x 28 +1 = 365 days). (...)
How Mayan is then this system? Except for the signs and symbols used in the tzolkin count (260-day count) it is not Mayan at all. To begin with the ancient Maya followed a moon cycle alternating between 29 and 30 days, as did many other peoples, creating a mean of 29.5 days. This is consistent with the female cycle. Yet, many women have, partly because of the perturbations of their cycles due to the artificial lights and artificial hormones present everywhere in the modern world, come to believe that a "normal" period is 28 days. This idea is really a construct of patriarchal medicine that for ages has been frightened by what it has perceived as a magical link between the woman and the full moon cycle of about 29.5 days. Still today many women, as well as also many men, have special feelings linked to their hormones on days of full moon. The Thirteen Moon calendar thus ignores the female natural cycle and seeks to replace it with a mathematical construct of 28 days, that does not correspond to any natural cycle.(...)
Maya, 25 de Julho
posted by sara at 19:51
"There have been rumours of him mounting females, but nobody has ever witnessed penetration by George," he said. "Right now, we don't even know if George is fertile."
Devassa da vida privada num jornal de referência britânico. Como diria a Batukada, que situação...
posted by sara at 12:43

(Construção da Sede, Lisboa, anos 60)
Parabéns!
posted by sara at 12:10
Não posso ter 'minis' no frigorífico. Com este calor, em duas semanas dei cabo de um six-pack. Que excesso.
posted by sara at 22:17
(...)Era formada em História de Arte, educada pelo selecto Colégio de Odivelas, lia livros, sabia descascar e comer pêssegos, não usava talher nos espargos e, no entanto, exprimia-se destarte. O coronel já desistira de lhe explicar que não ficava bem dizer «não me fodam» às mulheres dos outros oficiais, a meio de um jogo de canasta, sobretudo quando estava a perder. O facto é que, sem saber como nem porquê, fora essa particularidade vernácula que o fizera interessar-se por ela, no baile de debutantes do Casino do Estoril.(...)
Mário de Carvalho, Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina (Caminho, 2004)
posted by sara at 23:13
Bom em todas as línguas
Ser, o no ser: esa es la cuestión
Si es más noble para el alma soportar,
las flechas y pedradas de la áspera Fortuna
o armarse contra un mar de adversidades
y darles fin en el encuentro.
Morir: dormir, nada más.
Y si durmiedo terminaran
las angustias y los mil ataques naturales
de la herencia de la carne...
sería una conclusion seriamente deseable
Morir, dormir: Dormir, talvez soñar.
Sí, ese es el estorbo; pues qué podriamos
soñar en nuestro sueño eterno
es una consideración que frena el juicio
y da tan larga vida a la desgracia.
Pues, ¿Quién soportaría los azotes e injurias de este mundo
el desmán del tirano, la afrenta del soberbio...
las penas del amor menospreciado,
la tardanza de la ley, la arrogancia del cargo,
los insultos que sufre la paciencia...
pudiendo cerrar cuentas uno mismo con un simple puñal?
¿Quién lleva esas cargas, gimiendo y sudando
bajo el peso de esta vida...
sino el por el temor al más allá...
...la tierra inexplorada
de cuyas fronteras ningún viajero vuelve...
...detiene los sentidos y nos hace soportar
los males que tenemos,
antes de huir hacia outros que ignoramos?
La consciencia nos vuelve unos cobardes,
el color natural de nuestro ánimo,
se mustia con el pálido matiz del pensamiento
y empesas de peso y entidad por tal motivo
se desvían de su curso y ya no son acción.
Interpretado por Kenneth Branagh
Traducido por Ángel Luis Pujante
Subtitulado por Antonio M. Alcázar
Transcrito por mim
posted by sara at 20:07
Como se não bastasse, agora foi Rafael Nadal que arrecadou a taça em Wimbledon (com a sua 'dobradinha' particular, depois de ter conquistado Roland Garros). Mas há mais: «o homossexual mais bonito da Europa», eleito anteontem na Hungria em lugar semi-secreto, segundo apurou o jornal Público, também é espanhol. Nuestros hermanos estão imparáveis.
posted by sara at 12:16
Campeões europeus de futebol e campeões mundiais no assassínio de filmes, por dobragem.
posted by sara at 13:45
Detesto correr e não há sutiã "desportivo" que me faça mudar de ideias. Já para não falar dos meus pobres pulmões.
posted by sara at 13:29

Henry Fonda de bigode, como Wyatt Earp
- Have you ever been in love, Mac?
- No. I've been a bartender all my life.
My Darling Clementine (John Ford, 1946)
posted by sara at 12:06
A propósito de um vídeo no Youtube de um concerto dos Magnetic Fields em Cambridge, há quatro anos (com o Stephin Merritt muito mais magro do que actualmente, como eu o compreendo...), encontrei o seguinte comentário:
The crowd laughter bugs me. I mean, sure, these songs are witty and clever, but it just kind of cheapens the songs when they laugh after every goddamn line. Part of the coolness about the Fields is that they handle serious issues with a self-deprecating attitude. But, the issues are still clearly serious. Here, the audience just makes it all seem like a joke, which is kind of sad.
Senti exactamente o mesmo esta quinta-feira, na Aula Magna, e na maior parte dos espectáculos, incluindo cinema, a que assisto hoje em dia. As pessoas já não sabem sorrir.
Adenda: Ah! Também tenho culpas no cartório. Mas pelo menos, vá lá, a minha memória não é curta...
posted by sara at 18:20

O filme Hiroshima Meu Amor vai ser projectado em película (cópia da Cinemateca Portuguesa) no Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação Gulbenkian, na próxima sexta-feira, 4 de Julho, às 22h. Bilhetes a 3 €uros.
posted by sara at 18:26
Gostava de dar uso a isto, mas continuo sem saber como.
Trabalho é trabalho, conhaque é conhaque?
Não necessariamente.
posted by sara at 18:00
Em Fevereiro de 2004, o Pedro Lomba, que começou por escrever n'A Coluna Infame, anunciou que ia acabar com o blogue (uni)pessoal que mantinha, Flor de Obsessão, e que os arquivos iriam desta para melhor. Vai daí o Ivan Nunes (quando ainda o era) decidiu fazer serviço público, transcrevendo uma selecção de posts do Lomba, para assim salvar, da limpeza implacável que se avizinhava, alguns dos seus melhores textos na internet. Entretanto,
O Pedro Lomba pediu-me que parasse de transcrever posts dele: tem medo que isto comece a «expô-lo ao ridículo». Hesitei, mas não lhe faço a vontade.
Primeiro, por causa de uma referência bibliográfica: sugiro-lhe que pegue num livro que ele leu devotamente, O Anjo Pornográfico, de Ruy Castro, e consulte a pág. 272. Lá está, dez linhas a contar do fim, inequivocamente Nelson Rodrigues:
«Só os imbecis têm medo do ridículo. Considero um soturno pobre-diabo o sujeito que não consegue ser ridículo de vez em quando.»
Segundo, encontrei hoje uma leitora que espontaneamente me agradeceu a selecção de posts do Lomba que tenho vindo a publicar. Podia pensar-se que entre o desejo do autor e o desejo de uma leitora eu devesse preferir o primeiro; mas é o contrário. A leitora gosta genuinamente do Flor de Obsessão; o Pedro Lomba, nem tanto. O Lomba chega a manifestar intenções assassinas: diz que pretende apagar, erradicar, extinguir para sempre o seu próprio blog. A leitora dá-nos o amor da leitura diária. Teremos o direito de hesitar entre uma pessoa que ama e outra que planeia um assassínio? Não temos.(...)
A leitora era eu.
(para o Pedro Lomba)
posted by sara at 17:41
Arriscar, perder. Arriscar, perder. Arriscar, perder. Arriscar, perder. Arriscar, perder. Arriscar, perder. Arriscar, perder. Arriscar, perder. Arriscar, perder. Arriscar, perder. Arriscar, perder. Arriscar, perder. Arriscar... e perder.
Às tantas dá vontade de uma pessoa não ir mais a jogo.
posted by sara at 18:21
Silver Jews, Open Field, Lookout Mountain, Lookout Sea, 2008
para o Tiago Guillul. Cantar de manhã... com David Berman
posted by sara at 22:56
Lower men wallow in pity as swine do in mud, their pity for others being the same as their pity for themselves. Thus spake Nietzsche... more
Mrs. Thatcher viewed Ferdinand Mount as "an idle and effete youth." But she came to admire his powers as a wordsmith. Right she was... more
Much of the best literature of the 19th century can't be grasped without knowing the position of women and women writers: their views of the world and their literary preferences... more
Arts & Letters Daily, 19 de Junho
posted by sara at 22:37
Os irlandeses votaram NÃO a Lisboa por insegurança. Tontos. Sabem que não estás em Dublin para ficar. Por isso temiam o teu reencontro com a cidade, o sol, a Bica, os amigos e tudo o resto. Hoje, que te têm de volta, já querem celebrar. Amanhã haverá festa (para que esta noite ainda possas descansar da viagem). Vão chamar-lhe Bloomsday, mas é só para disfarçar. Não se lhes pode levar a mal. Foram belos estes dias.
para o Carlos
posted by sara at 23:28
No meu caso, o estado de graça durou apenas três meses. No entanto, agora que dou por encerrada a minha semana de excessos férias, gostava novamente de ser ex-fumadora.
Reiniciar o sistema. É que uma pessoa habitua-se.
posted by sara at 22:57
Depois de 300 sms do MEO a assediar-me para ver a selecção portuguesa em HD num canal especial, cá estamos, em casa, pela primeira vez desde que o Europeu de Futebol começou (tenho um "sítio do costume" onde vou assistir aos jogos). Os nervos são idênticos, mas a diferença na imagem é de facto assinalável. Só não se vêem os pêlos das pernas de Cristiano Ronaldo, porque:
i) ele não está a jogar;
ii) mesmo que estivesse, provavelmente tem-nas depiladas (argh, major male turn-off).
posted by sara at 20:39

Hoje de manhã
até minhas campainhas
estão escondidas
para evitarem mostrar
o cabelo em desalinho.
Ono no Komachi (834?-?)
... ou sou eu que tenho uma imaginação muito fértil, em flores? Deve ser do calor da tradução.
posted by sara at 12:35
No 10 de Junho havia mais celebridades da altíssima cultura por metro quadrado do que livros em saldo. Até Santo António Lobo Antunes se encontrava a dar autógrafos. Uma fartura.
* trim-trim uns dias antes
Eu: Onde é que estás?
A Outra Pessoa (AOP): Na feira popular.
Eu: Onde???
AOP: Ai não, quer dizer, estou na feira do livro.
posted by sara at 11:58
JOGO. Dentro de mim acena uma bandeirinha movida a imperiais.
posted by sara at 11:33
Feist, My Moon My Man
(Conferir aqui, aqui e aqui.)
Minha linda, minha querida, Leslie Feist, de disposição pop e um lalalá cheio de leveza e graça. Quarta-feira espero vê-la num bom concerto (de preferência com coreografia), sem bebedeiras, sem timidezes, sem birras, sem epifanias. Quero simplesmente divertir-me, que esta semana não está para trabalhos.
posted by sara at 17:55
Honra-me Miss Pearls ao colocar o meu blogue "no terraço", em lugar de destaque. (A espreguiçadeira é para mim!) E bem que preciso de me estender ao sol; estou tão branquinha.
posted by sara at 15:52
В большом здании судебных учреждений во время перерыва заседания по делу Мельвинских члены и прокурор сошлись в кабинете Ивана Егоровича Шебек, и зашел разговор о знаменитом красовском деле. Федор Васильевич разгорячился, доказывая неподсудность, Иван Егорович стоял на своем, Петр же Иванович, не вступив сначала в спор, не принимал в нем участия и просматривал только что поданные «Ведомости».
— Господа! — сказал он, — Иван Ильич-то умер.
— Неужели?
— Вот, читайте, — сказал он Федору Васильевичу, подавая ему свежий, пахучий еще номер.
В черном ободке было напечатано: «Прасковья Федоровна Головина с душевным прискорбием извещает родных и знакомых о кончине возлюбленного супруга своего, члена Судебной палаты, Ивана Ильича Головина, последовавшей 4-го февраля сего 1882 года. Вынос тела в пятницу, в час пополудни».
Иван Ильич был сотоварищ собравшихся господ, и все любили его. Он болел ужи несколько недель; говорили, что болезнь его неизлечима. Место оставалось за ним, но было соображение о том, что в случае его смерти Алексеев может быть назначен на его место, на место же Алексеева — или Винников, или Штабель. Так что, услыхав о смерти Ивана Ильича, первая мысль каждого из господ, собравшихся в кабинете, была и том, какое значение может иметь эта смерть на перемещения или повышения самих членов или их знакомых.
«Теперь, наверно, получу место Штабеля или Винникова, — подумал Федор Васильевич. — Мне это и давно обещано, а это повышение составляет для меня восемьсот рублей прибавки, кроме канцелярии».
«Надо будет попросить теперь о переводе шурина из Калуги, — подумал Петр Иванович. — Жена будет очень рада. Теперь уж нельзя будет говорить, что я никогда ничего не сделал для ее родных».
— Я так и думал, что ему не подняться, — вслух сказал Петр Иванович. — Жалко.
— Да что у него, собственно, было?
— Доктора не могли определить. То есть определяли, но различно. Когда я видел его последний раз, мне казалось, что он поправится.
— А я так и не был у него с самых праздников. Все собирался.
— Что, у него было состояние?
— Кажется, что-то очень небольшое у жены. Но что-то ничтожное.
— Да, надо будет поехать. Ужасно далеко жили они.
— То есть от вас далеко. От вас всё далеко.
— Вот, не может мне простить, что я живу за рекой, — улыбаясь на Шебека, сказал Петр Иванович. И заговорили о дальности городских расстояний, и пошли в заседание.
Кроме вызванных этой смертью в каждом соображении о перемещениях и возможных изменениях по службе, могущих последовать от этой смерти, самый факт смерти близкого знакомого вызвал во всех, узнавших про нее, как всегда, чувство радости о том, что умер он, а не я.
«Каково, умер; а я вот нет», — подумал или почувствовал каждый. Близкие же знакомые, так называемые друзья Ивана Ильича, при этом подумали невольно и о том, что теперь им надобно исполнить очень скучные обязанности приличия и поехать на панихиду и к вдове с визитом соболезнования.
Ближе всех были Федор Васильевич и Петр Иванович.
Петр Иванович был товарищем по училищу правоведения и считал себя обязанным Иваном Ильичом.
Передав за обедом жене известие о смерти Ивана Ильича и соображения о возможности перевода шурина в их округ, Петр Иванович, не ложась отдыхать, надел фрак и поехал к Ивану Ильичу.
У подъезда квартиры Ивана Ильича стояла карета и два извозчика. Внизу, в передней у вешалки прислонена была к стене глазетовая крышка гроба с кисточками и начищенным порошком галуном. Две дамы в черном снимали шубки. Одна, сестра Ивана Ильича, знакомая, другая — незнакомая дама. Товарищ Петра Ивановича, Шварц, сходил сверху и, с верхней ступени увидав, входившего, остановился и подмигнул ему, как бы говоря: «Глупо распорядился Иван Ильич: то ли дело мы с вами».
Лицо Шварца с английскими бакенбардами и вся худая фигура во фраке имела, как всегда, изящную торжественность, и эта торжественность, всегда противоречащая характеру игривости Шварца, здесь имела особенную соль. Так подумал Петр Иванович.
Петр Иванович пропустил вперед себя дам и медленно пошел за ними на лестницу. Шварц не стал сходить, а остановился наверху. Петр Иванович понял зачем: он, очевидно хотел сговориться, где повинтить нынче. Дамы прошли на лестницу к вдове, а Шварц, с серьезно сложенными, крепкими губами и игривым взглядом, движением бровей Показал Петру Ивановичу направо, в комнату мертвеца.
Петр Иванович вошел, как всегда это бывает, с недоумением о том, что ему там надо будет делать. Одно он знал, что креститься в этих случаях никогда не мешает. Насчет того, что нужно ли при этом и кланяться, он не совсем был уверен и потому выбрал среднее: войдя в комнату, он стал креститься и немножко как будто кланяться. Насколько ему позволяли движения рук и головы, он вместе с тем оглядывал комнату. Два молодые человека, один гимназист, кажется, племянники, крестясь, выходили из комнаты. Старушка стояла неподвижно. И дама с странно поднятыми бровями что-то ей говорила шепотом. Дьячок в сюртуке, бодрый, решительный, читал что-то громко с выражением, исключающим всякое противоречие; буфетный мужик Герасим, пройдя перед Петром Ивановичем легкими шагами, что-то посыпал по полу. Увидав это, Петр Иванович тотчас же почувствовал легкий запах разлагающегося трупа. В последнее свое посещение Ивана Ильича Петр Иванович видел этого мужика в кабине-, те; он исполнял должность сиделки, и Иван Ильич особенно любил его. Петр Иванович все крестился и слегка кланялся по серединному направлению между гробом, дьячком и образами на столе в углу. Потом, когда это движение крещения рукою показалось ему уже слишком продолжительно, он приостановился и стал разглядывать мертвеца.
Мертвец лежал, как всегда лежат мертвецы, особенно тяжело, по-мертвецки, утонувши окоченевшими членами в подстилке гроба, с навсегда согнувшеюся головой на подушке, и выставлял, как всегда выставляют мертвецы, свой желтый восковой лоб с взлизами на ввалившихся висках и торчащий нос, как бы надавивший на верхнюю губу. Он очень переменился, еще похудел с тех пор, как Петр Иванович не видал его, но, как у всех мертвецов, лицо его было красивее, главное — значительнее, чем оно было у живого. На лице было выражение того, что то, что нужно было сделать, сделано, и сделано правильно. Кроме того, в этом выражении был еще упрек или напоминание живым. Напоминание это показалось Петру Ивановичу неуместным или, по крайней мере, до него не касающимся. Что-то ему стало неприятно, и потому Петр Иванович еще раз поспешно перекрестился и, как ему показалось, слишком поспешно, несообразно с приличиями, повернулся и пошел к двери. Шварц ждал его в проходной комнате, расставив Широко ноги и играя обеими руками за спиной своим цилиндром. Один взгляд на игривую, чистоплотную и элегантную фигуру Шварца освежил Петра Ивановича. Петр Иванович понял, что он, Шварц, стоит выше этого и не поддается удручающим впечатлениям. Один вид его говорил: инцидент панихиды Ивана Ильича никак не может служить достаточным поводом для признания порядка заседания нарушенным, то есть что ничто не может помешать нынче же вечером щелкануть, распечатывая ее, колодой карт, в то время как лакей будет расставлять четыре необожженные свечи; вообще нет основания предполагать, чтобы инцидент этот мог помешать нам провести приятно и сегодняшний вечер. Он и сказал это шепотом проходившему Петру Ивановичу, предлагая соединиться на партию у Федора Васильевича. Но, видно, Петру Ивановичу была не судьба винтить нынче вечером. Прасковья Федоровна, невысокая, жирная женщина, несмотря на все старания устроить противное, все-таки расширявшаяся от плеч книзу, вся в черном, с покрытой кружевом головой и с такими же странно поднятыми бровями, как и та дама, стоявшая против гроба, вышла из своих покоев с другими дамами и, проводив их в дверь мертвеца, сказала:
— Сейчас будет панихида; пройдите.
Шварц, неопределенно поклонившись, остановился, очевидно, не принимая и не отклоняя этого предложения. Прасковья Федоровна, узнав Петра Ивановича, вздохнула, подошла к нему вплоть, взяла его за руку и сказала:
— Я знаю, что вы были истинным другом Ивана Ильича... — и посмотрела на него, ожидая от него соответствующие этим словам действия.
Петр Иванович знал, что как там надо было креститься, так здесь надо было пожать руку, вздохнуть и сказать: «Поверьте!». И он так и сделал. И, сделав это, почувствовал, что результат получился желаемый: что он тронут и она тронута.
— Пойдемте, пока там не началось; мне надо поговорить с вами, — сказала вдова. — Дайте мне руку.
Петр Иванович подал руку, и они направились во внутренние комнаты, мимо Шварца, который печально подмигнул Петру Ивановичу: «Вот те и винт! Уж не взыщите, другого партнера возьмем. Нешто впятером, когда отделаетесь», — сказал его игривый взгляд.
Петр Иванович вздохнул еще глубже и печальнее, и Прасковья Федоровна благодарно пожала ему руку. Войдя в ее обитую розовым кретоном гостиную с пасмурной лампой, они сели у стола: она на диван, а Петр Иванович на расстроившийся пружинами и неправильно подававшийся под его сиденьем низенький пуф. Прасковья Федоровна хотела предупредить его, чтобы он сел на другой стул, но нашла это предупреждение не соответствующим своему положению и раздумала. Садясь на этот пуф, Петр Иванович вспомнил, как Иван Ильич устраивал эту гостиную и советовался с ним об этом самом розовом с зелеными листьями кретоне. Садясь на диван и проходя мимо стола (вообще вся гостиная была полна вещиц и мебели), вдова зацепилась черным кружевом черной мантилий за резьбу стола. Петр Иванович приподнялся, чтобы отцепить, и освобожденный под ним пуф стал волноваться и подталкивать его. Вдова сама стала отцеплять свое кружево, и Петр Иванович опять сел, придавив бунтовавшийся под ним пуф. Но вдова не все отцепила, и Петр Иванович опять поднялся, и опять пуф забунтовал и даже щелкнул. Когда все это кончилось, она вынула чистый батистовый платок и стала плакать. Петра же Ивановича охладил эпизод с кружевом и борьба с пуфом, и он сидел насупившись. Неловкое это положение перервал Соколов, буфетчик Ивана Ильича, с докладом о том, что место на кладбище то, которое назначила Прасковья Федоровна, будет стоить двести рублей. Она перестала плакать и, с видом жертвы взглянув на Петра Ивановича, сказала по-французски, что ей очень тяжело. Петр Иванович сделал молчаливый знак, выражавший несомненную уверенность в том, что это не может быть иначе.
— Курите, пожалуйста, — сказала она великодушным и вместе убитым голосом и занялась с Соколовым вопросом о цене места. Петр Иванович, закуривая, слышал, что она очень обстоятельно расспросила о разных ценах земли и определила ту, которую следует взять. Кроме того, окончив о месте, она распорядилась и о певчих. Соколов ушел.
— Я все сама делаю, — сказала она Петру Ивановичу, отодвигая к одной стороне альбомы, лежавшие на столе; и, заметив, что пепел угрожал столу, не мешкая подвинула Петру Ивановичу пепельницу и проговорила: — Я нахожу притворством уверять, что я не могу от горя заниматься практическими делами. Меня, напротив, если может что не утешить... а развлечь, то это — заботы о нем же. — Она опять достала платок, как бы собираясь плакать, и вдруг, как бы пересиливая себя, встряхнулась и стала говорить спокойно:
— Однако у меня дело есть к вам.
Петр Иванович поклонился, не давая расходиться пружинам пуфа, тотчас же зашевелившимся под ним.
— В последние дни он ужасно страдал.
— Очень страдал? — спросил Петр Иванович.
— Ах, ужасно! Последние не минуты, а часы он не переставая кричал. Трое суток сряду он, не переводя голосу, кричал. Это было невыносимо. Я не могу понять, как я вынесла это; за тремя дверьми слышно было. Ах! что я вынесла!
— И неужели он был в памяти? — спросил Петр Иванович.
— Да, — прошептала она, — до последней минуты. Он простился с Нами за четверть часа до смерти и еще просил увести Володю.
Мысль о страдании человека, которого он знал так близко, сначала веселым мальчиком, школьником, потом взрослым партнером, несмотря на неприятное сознание притворства своего и этой женщины, вдруг ужаснула Петра Ивановича. Он увидал опять этот лоб, нажимавший на губу нос, и ему стало страшно за себя.
«Трое суток ужасных страданий и смерть. Ведь это сейчас, всякую минуту может наступить и для меня», — подумал он, и ему стало на мгновение страшно. Но тотчас же, он сам не знал как, ему на помощь пришла обычная мысль, что это случилось с Иваном Ильичом, а не с ним и что с ним этого случиться не должно и не может; что, думая так, он поддается мрачному настроению, чего не следует делать, как это, очевидно было по лицу Шварца. И, сделав это рассуждение, Петр Иванович успокоился и с интересом стал расспрашивать подробности о кончине Ивана Ильича, как будто смерть была такое приключение, которое свойственно только Ивану Ильичу, но совсем не свойственно ему.
После разных разговоров о подробностях действительно, ужасных физических страданий, перенесенных Иваном Ильичам (подробности эти узнавал Петр Иванович только по тому, как мучения Ивана Ильича действовали на нервы Прасковьи Федоровны), вдова, очевидно, нашла нужным перейти к делу.
— Ах, Петр Иванович, как тяжело, как ужасно тяжело, как ужасно тяжело, — и она опять заплакала.
Петр Иванович вздыхал, и ждал, когда она высморкается. Когда она высморкалась, он сказал:
— Поверьте... — и опять она разговорилась и высказала то, что было, очевидно, ее главным делом к нему; дело это состояло в вопросах о том, как бы по случаю смерти мужа достать денег от казны. Она сделала вид, что спрашивает у Петра Ивановича совета о пенсионе: но он видел, что она уже знает до мельчайших подробностей и то, чего он не знал: все то, что можно вытянуть от казны по случаю этой смерти; но что ей хотелось узнать, нельзя ли как-нибудь вытянуть еще побольше денег. Петр Иванович постарался выдумать такое средство, но, подумав несколько и из приличия побранив наше правительство за его скаредность, сказал, что, кажется, больше нельзя. Тогда она вздохнула и, очевидно, стала придумывать средство избавиться от своего посетителя. Он понял это, затушил папироску, встал, пожал руку и пошел в переднюю.
В столовой с часами, которым Иван Ильич так рад был, что купил в брикабраке 1, Петр Иванович встретил священника и еще несколько знакомых, приехавших на панихиду, и увидал знакомую ему красивую барышню, дочь Ивана Ильича. Она была вся в черном. Талия ее, очень тонкая, казалась еще тоньше. Она имела мрачный, решительный, почти гневный вид. Она поклонилась Петру Ивановичу, как будто он был в чем-то виноват. За дочерью стоял с таким же обиженным видом знакомый Петру Ивановичу богатый молодой человек, судебный следователь, ее жених, как он слышал. Он уныло поклонился им и хотел пройти в комнату мертвеца, когда из-под лестницы показалась фигурка гимназистика-сына, ужасно похожего на Ивана Ильича. Это был маленький Иван Ильич, каким Петр Иванович помнил его в Правоведении. Глаза у него были и заплаканные и такие, какие бывают у нечистых мальчиков в тринадцать — четырнадцать лет. Мальчик, увидав Петра Ивановича, стал сурово и стыдливо морщиться. Петр Иванович кивнул ему головой и вошел в комнату мертвеца. Началась панихида — свечи, стоны, ладан, слезы, всхлипыванья. Петр Иванович стоял нахмурившись, глядя на ноги перед собой. Он не взглянул ни разу на мертвеца и до конца не поддался расслабляющим влияниям и один из первых вышел. В передней никого побыло. Герасим, буфетный мужик, выскочил из комнаты покойника, перешвырял своими сильными руками все шубы, чтобы найти шубу Петра Ивановича, и подал ее.
— Что, брат Герасим? — сказал Петр Иванович, чтобы сказать что-нибудь. — Жалко?
— Божья воля. Все там же будем, — сказал Герасим, оскаливая свои белые, сплошные мужицкие зубы, и, как человек в разгаре усиленной работы, живо отворил дверь, кликнул кучера, подсадил Петра Ивановича и прыгнул назад к крыльцу, как будто придумывая, что бы ему еще сделать.
Петру Ивановичу особенно приятно было дохнуть чистым воздухом после запаха ладана, трупа и карболовой кислоты.
— Куда прикажете? — спросил кучер.
— Не поздно. Заеду еще к Федору Васильевичу.
И Петр Иванович поехал. И действительно, застал их при конце первого роббера, так что ему удобно было вступить пятым.
(Não percebi nada, mas os restantes capítulos encontram-se aqui. Obrigada pelo link, Luís.)
posted by sara at 22:26
(...)Pediram-me um pequeno prefácio. No pequeno prefácio, eu tentava explicar o que era A Morte de Ivan Ilich. Se era um livro sobre a morte, se não era um livro sobre a morte. Foi uma discussão que houve durante muito tempo. O livro é tão complexo e rico. Falava lá, pela rama, no Lukács, que negava que fosse um livro sobre a morte, etc., por aí fora. Contracapa do livro: «Este livro aborda o tema da morte.» Dá vontade de não escrever mais para aquilo, não é? Quer dizer, não têm o direito de fazer isto ao Tolstoi. Primeiro, os livros não abordam nada, porque não são corsários. E, segundo, não é de facto um livro sobre a morte.(...)
António Lobo Antunes em entrevista à LER, Maio 2008
posted by sara at 22:18
For whatever we lose(like a you or a me)
it's always ourselves we find in the sea.
E.E. Cummings
posted by sara at 23:03
"Ain't No Mountain High Enough", por Marvin Gaye e Tammi Terrell, é a música que eu gostava que me dedicassem.
Entre muitos outros singles de sucesso, foi uma das primeiras canções que Nickolas Ashford e Valerie Simpson escreveram para a Motown, depois de entrarem para a editora na segunda metade da década de 60. (Sim, estamos a falar da dupla que nos anos 80 ofereceu ao mundo "Solid", uma coisa dificilmente classificável, que se colava ao ouvido. O teledisco, esse então, é inenarrável.)
The duo [Ashford and Simpson] continues to write and score today. They are given credit for their writing talents on the Amy Winehouse 2007 CD "Back to Black" for the single Tears Dry On Their Own. The track is based on Marvin Gaye and Tammi Terrell's 1967 Motown classic hit Ain't No Mountain High Enough. (Wikipedia)
posted by sara at 16:34
They cost as much as football players but are likely to be a far wiser investment. In the week that saw two record-breaking sales of paintings by Lucian Freud and Francis Bacon, a new collector has been revealed. Roman Abramovich, the Russian tycoon and owner of Chelsea football club, is the mystery buyer of the two paintings, according to reliable sources.
While Abramovich is better known for studying the sometimes patchy form of the players he buys, experts say that the $120m (£61.4m) buying spree suggests that he has found a new enthusiasm. His inspiration is likely to be his model girlfriend Daria "Dasha" Zhukova, who has recently spoken of her desire to open a contemporary art gallery in Moscow.(...)
Abramovich, worth an estimated £11.7 billion in The Sunday Times Rich List this year, announced his split from Irina, his second wife, last year.
He is now in a relationship with Zhukova, the 25-year-old daughter of a former cinema projectionist who then made his fortune as an oil trader.
Zhukova has launched her own fashion label while studying homeopathy in London. Despite her reputation as a socialite, she is said to prefer a quiet night at home and is an art enthusiast.
One of her projects, to transform a 1920s bus garage in Moscow into a gallery for contemporary art and culture, is expected to be launched next month. Amy Winehouse is reported to have been offered about £1m to sing at the event.
Asked about the purchases, a spokesman for Abramovich said: "We do not comment on personal matters."
Notícia de hoje no Times Online
posted by sara at 14:03
Diz-me um amigo blogger (com tendência casamenteira) que se tivesse os meus olhos verdes (a verdade é que pouca gente neles repara) os mesmos seriam referidos post-sim, post-não. Ora, uma única vez parece-me suficiente. (E é só para te fazer a vontade...)
posted by sara at 16:54
Por esta altura em 2007 os sapatos eram de verniz vermelho, também da Camper. Este ano apenas variei no modelo e na cor, azul petróleo. São os únicos saltos (de borracha) em cima dos quais me aguento com dignidade sobre a calçada portuguesa em geral, e sobre a do meu bairro em particular.
Era A Mancha Humana, de Roth (excelente), e Balzac (aborreci-me e abandonei o livro a meio). Este ano ando metida com Tolstoi, alternando com Ela e Outras Mulheres, de Rubem Fonseca (ótimo). Vamos tomar um drinquinho (p.75) para celebrar o acordo ortográfico? Estou brincando... eu nem aprovo.
posted by sara at 16:37
Já manifestei junto de autoridades competentes alguma estranheza quanto à tradução para inglês que ando a ler do colosso Guerra e Paz (está para durar, que eu leio devagar e ainda tenho mais três volumes e um epílogo pela frente). Diz que é assim e que deverá estar muito bem. Não duvido que Tolstoi tivesse sentido de humor linguístico, mas gostava de saber até que ponto esta tradução do século XXI, de um texto que se reporta ao início do século XIX, potencia essa graça. (Só aprendendo russo, suponho, hipótese que não descarto porque foi um língua que sempre me fascinou.) Escrevendo como se fala, desde o capitão que não diz os erres ('Wotten luck?') até ao oficial que exclama 'What the...' (sem que o 'fuck' chegue a ver o branco da folha), passando por:
'Bonaparte...' Dolokhov began, only to be interrupted by the Frenchman.
'Don't you say Bonaparte. He is the Emperor! His name is sacred!' came the angry shout.
'Damn and sod your Emperor!' And Dolokhov cursed like a soldier in his vilest Russian, before shouldering his gun and walking away.
'Come on, Ivan Lukich,' he said to his captain, 'let's go.'
'Bit of good froggy French there,' said the soldiers down the line.
'Come on, Sidorov, your turn!' Sidorov winked at them, turned to face the French and began to gabble strange words as fast as he could.
'Kari mala tafa safi muter kaska!' he rattled out, trying to embellish his message with the most expressive intonation he could manage.
The Russian soldiers burst into a great roar of happy, hearty laughter, and the French line took it up so spontaneously that you would have thought the only thing to do now was to unload the guns, blow up the ammunition and get back home as soon as possible. But the muskets remained loaded, the marksmen's slits in buildings and earthworks stared out as ominously as ever, and the big guns stood ready ranged againt each other.
Final do Capítulo 15, Parte II, Volume I.
posted by sara at 15:32
Um agradecimento (atrasado) à Sofia, do Controversa Maresia, por ter mantido o meu blogue na categoria "praia vigiada" durante cerca de duas semanas. Um luxo, poder mergulhar-se aqui em segurança enquanto não abre a época balnear.
posted by sara at 15:21

Gustave Courbet, La Vague, 1869
Não é um soixante-huitard (do séc. XIX), mas foi um communard.
posted by sara at 23:04
Com o 40º aniversário do Maio de 68 em destaque, um dos artigos da Artforum deste mês versa sobre uma publicação que surgiu em 69 (coincidência inocente), em Amesterdão, no rasto deixado pelo clamor de libertação, a todos os níveis, dos jovens parisienses. Chamava-se SUCK. Alguns orgasmos depois, em 1971, conta o artigo que surge a FHAR - Front Homosexuel d’Action Révolutionnaire. Chegados aqui, o que tem graça é um dos slogans (em inglês) deste movimento, fiel ao espírito marxista, em consonância com a «revolução das palavras» (como lhe chama Pedro Mexia na crónica de ontem).
Então é assim: Workers of the World, Fondle Yourselves!*
*Trabalhadores de todo o mundo, acariciem-se!
posted by sara at 20:21
Quando se é mulher às vezes não se consegue ser outra coisa.
posted by sara at 19:50