sábado

Sarcasmo hardcore

- O que é que achas da misoginia?
- Está calada e despe-te.


Sarah Charlesworth
Figures, 1983 (da série Objects of Desire)

Aleatoriedade precisa

Os critérios para ordenar alfabeticamente os links que tenho andado a colar na coluna aqui ao lado são do próprio Blogger (user friendly). Os critérios poderiam ser meus, mas optei por não estar a perder tempo com tarefas que dispenso, tais como conferir se não me enganei no abecedário ou decidir se os títulos que começam com artigo definido "A" devem vir antes ou depois disto ou aquilo... já viram a chatice que seria? Assim está muito bem. Calhou, por exemplo, que E Deus Criou a Mulher fosse seguido de Esse Cavalheiro. Encantada.

quinta-feira

Commedia dell' arte



Tem graça (digo eu). Hoje quando estava na Cinemateca a ver La Magnani, a força da natureza, a actriz que Bénard da Costa adjectiva de "inadjectivável" no filme de Jean Renoir (The Golden Coach/Le Carrose d'Or/La Carozza d'Oro/A Comédia e a Vida, 1952), logo ao início quando ainda corria o genérico e só se ouvia a música de Vivaldi, pensei que ao aviso sonoro "por favor, desligue o seu telemóvel", devia acrescentar-se "é proibido conversar, comer ou levar sacos de plástico para dentro da sala". Pensei isto porque, como de costume, infelizmente, uma ou duas filas atrás de mim, alguém mal ocupou um lugar já estava a fazer barulho sob uma das três formas que acabo de enunciar. Entretanto o filme propriamente dito começava, mas ainda tive tempo de reflectir sobre o seguinte: o que pode o Pedro Mexia fazer para eliminar este incómodo? A acção decorria no ecrã, portanto tive de concluir brevemente, respondendo à pergunta que eu própria me tinha colocado: nada. O Pedro Mexia não pode fazer nada, porque não foi nomeado Educador para os Espectadores-Que-Não-Têm-Noção da Cinemateca. Não há nada a fazer. Concentra-te no filme, Sara, e abstrai-te do resto.

Gostei muito é quase tudo o que tenho para dizer. Quase, porque antes de me ir deitar ainda quero referir uma das cenas do filme, já que hoje é Dia Mundial do Teatro, não é assim?

Anna Magnani interpreta a actriz principal de uma trupe de commedia dell' arte que no século XVIII parte da Europa para o Perú, para o "novo mundo" - há alguém que a certa altura lança a interrogação «então que tal lhe parece o novo mundo?» e o outro alguém questionado responde, «ficará óptimo, assim que esteja finalizado» - e quando a companhia chega à terra que lhes parece ficar no fim do mundo, têm eles próprios de reconstruir um teatro em ruínas, contraindo dívidas que esperam poder saldar com as receitas de bilheteira. Mas, mas. Quem cobra as entradas é um agente oportunista explorador. Depois da primeira apresentação, com sala cheia de povo e alguns ilustres e grandes aplausos, Camilla (Magnani) e os outros actores espantam-se com a miséria que encontram na caixa. O patife explica: «É que aos Nobres fica mal pedir dinheiro; o Povo é pobre, não se lhe pode cobrar nada; só dá para vender bilhetes à Burguesia, como eu e pessoas do meu círculo. Ora, eu não vou exigir dinheiro aos meus amigos, era o que mais faltava!» Uma cultura lixada.

Colecção Grandes Cabeças


Milton Glaser, 1968 * MoMA

cf. »»» one of Dylan's first 'electric' pieces, Subterranean Homesick Blues was also notable for its innovative film clip »»»

(...)
Ah get born, keep warm
Short pants, romance, learn to dance
Get dressed, get blessed
Try to be a success
Please her, please him, buy gifts
Don't steal, don't lift
Twenty years of schoolin'
And they put you on the day shift
Look out kid
They keep it all hid
Better jump down a manhole
Light yourself a candle
Don't wear sandals
Try to avoid the scandals
Don't wanna be a bum
You better chew gum
The pump don't work
'Cause the vandals took the handles.

Cartucho disparado, cartuxo reciclado

(...)
m diz:
terei o cuidado de estar atento e dar o meu veridito quanto a essa situação
veredito... é assim não é?

Sara diz:
veredicto
quer dizer, com a nova ortografia...

m diz:
foda-se, a lingua portuguesa é impossivel
eu proporia que depois de Portugal completar o acordo ortografico com o Brasil, o Brasil e Portugal abrissem negociações para fazer um acordo ortográfico comigo

Sara diz:
ehehehe

m diz:
isto dava um bom post

Sara diz:
dava sim senhor

m diz:
infelizmente foi gasto aqui
cartucho disparado, cartuxo gasto

Sara diz:
foi muito bem gasto!

m diz:
exacto, exacto
não queria desmerecer o espaço, peço desculpa pela indesculpavel indelicadeza
(...)

segunda-feira

O estado da arte nas neurociências


Bending Trees, José Miguel Pêgo © 2007
Fonte: ICVS, Escola de Ciências da Saúde, Universidade do Minho

Bellissima

Para celebrar a notícia de que Pedro Mexia é o novo subdirector da Cinemateca Portuguesa, acho que amanhã passo por lá.

«ANNA MAGNANI, sob a direcção de Visconti, num filme singular na obra cinematográfica do realizador. BELLISSIMA é também uma reflexão sobre a fábrica de sonhos e ilusões que é a profissão do cinema. O pano de fundo do filme é a “busca de talentos” para a realização de um filme, que será PRIMA COMUNIONE de Alessandro Blasetti, e conta a história dos sacrifícios e das artimanhas de uma mulher para que a sua filha seja escolhida.» (Sala Dr. Félix Ribeiro, 19h)

domingo

ABC

Fazer uma lista das minhas preferências (ver coluna à direita) leva algum tempo. Por ordem alfabética, a seguir virá a letra D.

Dedo Mau


vidro duplo, 2006 © Dedo Mau

Porque um blogue gosta de publicitar o trabalho de ilustração dos amigos (na internet, Viseu fica mais perto). On-line é recente.
Por outro lado, existem os artistas de photoshop disasters.

Sobre o disparate da semana

«(...)Preocupante, também, é a ausência de uma legislação que regule o uso de piercings nos mamilos em função do tamanho da copa - divergências estéticas no conselho de ministros terão impedido um acordo nesta matéria; vazio legal igualmente no que concerne à comercialização de piercings magnéticos (vulgo: ímanes) que venham a permitir, na estreiteza das filas do supermercado, um reconhecimento entre camaradas de clandestinidade.(...)» Bruno Sena Martins, em Avatares de um Desejo

Inacreditável. Que chatos! Deixem lá os miúdos obliterarem-se à vontade. E os adultos também. Qualquer dia não é permitido pintar o cabelo ou as unhas, ou até andar de saltos altos...

Rien, rien, rien

Não estou à espera de bebé (grande novidade). Não obstante a não-circunstância, que podia ter efeitos compreensivelmente sugestivos, nestes últimos dias vi muitas grávidas: na rua (pois, eu sei, é comum), no cinema (a historinha adolescente de Diablo Cody, Juno, é um filme bem simpático e o Bleeker, tão fôfo, também me deixou pelo beicinho), na blogosfera (Ana de Amsterdam, que tanto gosto de ler, nenhuma grávida é patética, a não ser que... já tenha idade para ser avó, que não me parece ser o caso). Mas a primeira mulher graciosamente barriguda que me apareceu à frente, logo na segunda-feira, foi Magdalena Kožená, em palco (na Gulbenkiã). Meio-soprano, completamente grávida. Custa-me perceber como se consegue cantar assim e não entrar em trabalho de parto. E se cantou. Do programa fazia parte uma lengalenga infantil deliciosa, Nous voulons une petite soeur, escrita pelo francês Francis Poulenc, que relata os caprichos (e o aumento) da prole de Madame Eustache.

Madame Eustache a dix-sept filles,
Ce n'est pas trop, mais c'est assez.
La jolie petite famille,
Vous avez dû, dû, dû la voir passer.
Le vingt décembre on les appelle:
Que voulez-vous, mesdemoiselles, pour votre Noël?

Voulez-vous une boîte à poudre?
Voulez-vous de petits mouchoirs?
Un petit nécessaire à coudre?
Un perroquet sur son perchoir?
Voulez-vous un petit ménage?
Un stylo qui tache les doigts?
Un pompier qui plonge et quinage?
Une vase à fleurs presque chinois?
Mais les dix-sept enfants en choeur
Ont répondu: Non, non, non, non, non.
Ce n'est pas ça que nous voulons,
Nous voulons une petite soeur
Ronde et joufflue comme un ballon
Avec un petit nez farceur,
Avec les cheveux blonds,
Avec la bouche en coeur,
Nous voulons une petite soeur.

L'hiver suivant, elles sont dix-huit,
Ce n'est pas trop, mais c'est assez.
Noël approche et les petites
Sont bien emba, ba, ba,
Sont vraiment embarrassées.
Madame Eustache les appelle:
Décidez-vous, mesdemoiselles, pour votre Noël.
Voulez-vous un mouton qui frise?
Voulez-vous un réveill-matin?
Un coffret d'alcool dentifrice?
Trois petits coussins de satin?
Voulez-vous une panoplie
De danseuse de l'Opéra?
Un petit fauteuil qui se plie
Et que l'on porte sous son bras?
Mais les dix-huit enfants en choeur
Ont répondu: Non, non, non, non, non.
Ce n'est pas ça que nous voulons,
Nous voulons une petite soeur
Ronde et joufflue comme un ballon
Avec un petit nez farceur,
Avec les cheveux blonds,
Avec la bouche en coeur,
Nous voulons une petite soeur.

Elles sont dix-neuf l'année suivante,
Ce n'est pas trop, mais c'est assez.
Quand revient l'époque émouvante,
Noël va de nou, nou,
Noël va de nouveau passer.
Madame Eustache les appelle:
Décidez-vous, mesdemoiselles, pour votre Noël.
Voulez-vous des jeux excentriques
Avec des piles et des moteurs?
Voulez-vous un ours électrique?
Un hippopotame à vapeur?
Pour coller des cartes postales,
Voulez-vous un superbe album?
Une automobile à pédales?
Une bague en aluminium?
Mais les dix-neuf enfants en choeur
Ont répondu: Non, non, non, non, non.
Ce n'est pas ça que nous voulons.
Nous voulons deux petites jumelles,
Deux soeurs exactement pareilles,
Deux soeurs avec des cheveux blonds!
Leur mère a dit: C'est bien,
Mais il n'y a pas moyen.
Cette année vous n'aurez rien, rien, rien.

quarta-feira

Diversidade linguística



Adorei o link, Mig Mag, adorei. Ken leeee... tolibu dibu douchoo. Obrigada por este momento de alteridade.

sábado

Let off steam

Protestos com accent:

(...)Britons have historically been less keen than, say, the French, to air their grievances in public (all those strangers, and anyway it might rain). But the appetite for demonstrations is growing—and the profile of the protesters is changing. Once they were mostly industrial workers, peaceniks or extremists; these days they are as likely to be policemen or junior doctors. Groups who used to pursue their goals inside politics now do so outside it as well; once-marginal techniques are becoming orthodox.

The widening of the protest franchise is mostly seen as healthy. In fact, it suggests a dangerous view of politics.(...)

The basic deal of parliamentary democracy is, or used to be, that on polling day voters make an overall choice among the packages on offer. They can turf out the government at the next election, but until then they have to live with compromise, frequent disappointment and occasional coercion.

That old model seems to be increasingly unsatisfactory to voters accustomed to bespoke treatment in other aspects of their lives. People are right and entitled, of course, to make their views known to their elected representatives; but swelling numbers seem to expect the same sort of service from Westminster as they get from Starbucks—to choose their policies in the same way as they choose the toppings on a cappuccino (a sprinkling of low taxation, please, with a referendum on the side). They demand a kind of personal satisfaction that government, with its conflicting priorities, can't deliver.(...)

But in a way, by advertising its respect for dissent, the demonstrations redounded to the government's credit. An understanding of the utility of protest may have influenced Gordon Brown's decision to lift the Blair-era restrictions on protests in Parliament Square. The same calculation may be at work in the government's new enthusiasm for politics by internet, which some fear may lead to a crass majoritarianism. So far, although there are lots of e-petitions on Number 10's website, they have mostly just allowed the disgruntled to let off steam.(...)

To the barricades, darling
The Economist, March 8th-14th 2008, p.42

Super-organism

(...)To us [eles, investigadores de redes sociais], it is a very, very fundamental observation that things happening in a social space beyond your vision — events that occur or choices that are made by people you don't know — can cascade in a conscious or subconscious way through a network and affect you.(...)

It is one thing to observe the spread of phenomena through the network; it is another to take the next step and begin to identify a mechanism of spread.(...)

We are interested not in biological contagion, but in social contagion.(...)

Incidentally, some of these things also touch on very old philosophical and social science concerns, as I mentioned earlier, because they raise questions about free will. If my behaviors and my thoughts are determined not just by my own volition, but are determined by the behaviors and thoughts of other people to whom I am connected, and are even determined by the behaviors and thoughts of other people who I do not know and who are beyond my social horizon but who are connected to people to whom I am connected, it speaks to the issue of free will. Are my thinking and my behavior truly free, or are they constrained because I am part of a social network? To the extent that I am part of this human super-organism, does that reduce my individuality? And does this give us more or less insight into human behavior?(...)

Social networks are like the eye (via Arts & Letters Daily), por falar em 'manifs' e outros vírus.

My own little efeméride

Segunda-feira, Março 08, 2004

Publicas ou não publicas?
Este blogue precisa urgentemente de ajuda especializada em póstingue, sétingues e templeite.

posted by s ª r a # 5:53 AM


(foi o início em http://desassossegada.blogspot.com - actualmente ocupado por outra criatura qualquer; naquela altura eu andava com pouco para fazer, daí a hora obscena de publicação, que é verdadeira)

Robbialac

Enclausurada, a curar uma gripe (estou tão mal...), deu-me para as artes decorativas. Apreciem a nova conjugação cromática do blogue. Entretanto, se chegar alguma mensagem a dizer que esta cor de fundo provoca agonia (vem isto a propósito de um email que recebi esta semana...), regresso às paredes brancas.

quarta-feira

Errar é humano


Autch! Don't try this at home.

Só hoje de manhã me apercebi, ao cruzar-me com um anúncio publicitário, que no post anterior referi C&A quando queria dizer H&M. É que vai uma grande diferença de uma marca à outra, o que até é óbvio pelos respectivos sites. Deixo aqui o meu mais sincero pedido de desculpas ao mundo empresarial (mercado livre, sociedade competitiva, etc.) e às jovens proletárias.

Do que eu gosto mesmo é de torrar dinheiro na Sisley.

sábado

Direito à indignação (em directo)



Bairro sitiado. Fiquei de sair de casa para comprar bilhetes para The National (Aula Magna, 11 de Maio, antes que esgote?), mas receio pela minha integridade. Há bocado saí inadvertidamente para tomar um café e assustei-me: o Príncipe Real está okupado pelo PCP. Diz que hoje vai haver uma marcha.

Velhos caquéticos trazidos em camionetas e jovens proletárias nascidas no final dos anos 80 do século XX, vestidas com roupa do C&A (nada contra, boas pechinchas com qualidade suficiente para durar uma estação, é a força do neoliberalismo), aglomeravam-se ao pé do quiosque e afinavam as vozes («a luta continua, fascismo nunca mais!», valha-nos deus) ao som de Zeca Afonso (coitado, nem está cá para se defender), em repeat nos altifantes. Um jardim habitualmente tão tranquilo ao fim-de-semana... Não podem ir fazer ruído para outro lado?

E se no seu ardor revolucionário me tomassem por porca capitalista? Meti as mãos nos bolsos, não fosse alguém reparar que não as tenho calejadas. Ou pior, e se alguém me tomasse por aderente à turba? Pus os óculos escuros (felizmente não são de marca) e afastei-me devagar, em pânico. Tranquei-me a sete chaves, com as janelas de vidro duplo fechadas. Cá estamos.

(Nota: o adorável senhor da fotografia não é o Pacheco Pereira)

I think this place is full of spies
I think they're onto me
Didn't anybody, didn't anybody tell you
Didn't anybody tell you how to gracefully disappear in a room


I know you put in the hours to keep me in sunglasses, I know
And so and now I'm sorry I missed you
I had a secret meeting in the basement of my brain
It went the dull and wicked ordinary way



The National, Secret meeting

sexta-feira

maradona, o Superlativo

(...)Embora fique em casa amanhã, provavelmente vou ter que trabalhar Sábado e Domingo. A única vantagem disto é que, quando estou doente, fico com uma voz sexy. A minha voz costuma ser esganiçada, como um vagão de comboio a escorrergar pelos carris com os freios accionados. Agora não: estou com um tom grave, ponderado, chego a falar sozinho para me ouvir.(... posted 28 Fev)

está muito mal. ssimo.

Correio dos leitores

Re: Por favor, isto é assédio. Não quero ser sua amiga e não quero trocar correspondência. Deslargue-me e deixe o meu blogue em paz. Obrigada.

(para C.)