quarta-feira

Indecisa entre modernismo e frivolidade


Portrait of a Young Woman, 1935
Meredith Frampton (1894-1984)

Frampton said that he made this painting as 'a relaxation from commissions, and to celebrate an assembly of objects... beautiful in their own right'. The sitter was Margaret Austin-Jones, then aged twenty three. Her dress was made up from a Vogue pattern by Frampton's mother. The vase, made in mahogany, was designed by Frampton himself.

O primeiro nome com que o artista assina é feminino. Ok. Quanto ao retrato, está pendurado na parede de um museu que goza de toda a credibilidade e a senhora elegante há-de ser Antepassada de Outrem - com maiúsculas porque, nobre ou não, aparenta pertencer a uma elite. Está virada à esquerda (a mulher, a elite não sei), o que é de louvar, apesar desse lado da face dela se tornar obscurecido. (Ah, de onde virá a luz?) Tem um porte invejável mas ninguém diz que tocava violoncelo ou que escrevia. Talvez se ficasse pela leitura de revistas da moda. (Faz alguma diferença?)

Tudo isto adensa-me a dúvida.

Let's get cynical

Um/a utilizador/a do Google.pt veio parar ao meu blogue à procura de 'mensagens de natal de engate'. Boa sorte.

segunda-feira

Natalidade, uma miragem

De ano para ano, a minha ideia de alugar crianças-figurantes para a ceia de Natal - onde o familiar mais novo à mesa já conta 26 anos - vem ganhando consistência. Podia ser um bebé e dois ou três mais velhos, que corram pela casa, riam e façam barulho. E que gostem de ouvir histórias da carochinha em inglês, caladinhos.

... not a creature was stirring, not even a mouse...

Bright Eyes, The Night Before Christmas

Uma forma profunda da memória (ficções)

É muito difícil escolher um livro (qual, qual?) para alguém que faz dos livros e da literatura a sua ocupação primordial. Um dedicado profissional das letras, a que não falta insight do meio editorial. Assim, decido jogar pelo seguro e "oferecer" ao Bibliotecário de Babel, José Mário Silva, qualquer coisa que lhe seja familiar. Trata-se de uma colecção de textos fantásticos de vários autores que - vê-se logo pelo título - Jorge Luís Borges foi convidado a organizar e a prefaciar (em 1977, data do meu nascimento, que lindo), e a única vez que aceitou fazê-lo, segundo consta. (A selecção e o prólogo dos Contos de Kafka, não conta...?)

Só conheço este volume d'A Biblioteca de Babel, em português, editado este ano pela Presença. Li Papini na minha semana de férias de Verão, aproveitando os dias de praia que o vento da Costa Vicentina teimava em arruinar - e não o esqueci. Suponho que é por isso que lhe chamam "literatura".

(...)Li Papini e esqueci-o. Sem suspeitar, comportei-me do modo mais sagaz; o esquecimento pode muito bem ser uma forma profunda da memória. Seja como for, quero relatar uma experiência pessoal. Agora, ao reler estas páginas tão remotas, descubro nelas, atónito e reconhecido, histórias que julguei inventar e que reelaborei à minha maneira, em outros pontos do espaço e do tempo.(...)Os contos deste livro provêm de uma época em que o homem se reclinava na sua melancolia e nos seus ocasos, mas a melancolia e os ocasos não desapareceram, embora hoje em dia a arte os cubra com diferentes roupagens.

JLB, da introdução.

sábado

Boas festas



Cuidadinho na estrada.

Mensagem de Natal

Liberdade, sonhos e presentes. Para o ano há mais.

quarta-feira

Paris Match



«Carla... Tu e o Sarko?», pergunta Valeria Bruni-Tedeschi à irmã.

Foto do filme 5x2, François Ozon, 2004.

terça-feira

Fracturantes (copywriting)

Antes Gay que Opus Dei.

Fosga-se, violência gratuita



O Samuel Úria está a publicar uma série de "Cartoons que nunca seriam publicados" no Ainda Não Está Escuro.

Máfia Russa (II), ópera de Lisboa

«(...)São todos estes dados importantes para se perceber quão megalómano e gravoso é o disparate de que o acto I está agora exposto na Ajuda. O Hermitage alugou e o Estado Português, através da ministra da Cultura, pagou do orçamento público e do mecenato que para aí canalizou, 1,5 milhões de euros! Isto quando, para além de serem outras as evidentes prioridades das políticas culturais públicas, das políticas para as artes e para os museus, não existem laços, “know-how” ou fundos privados possíveis que fundamentem a viabilidade e interesse de um pólo local do Hermitage.
Quando se parte para tão extravagante projecto no desconhecimento de que a outra parte é um dos mais agressivos actores deste novo “capitalismo global” dos museus, o desastre anuncia-se.(...)»

Augusto M. Seabra, em artecapital.net (com bold meu)

domingo

Crónicas da noite passada (.gif)


Julian Opie, Sara Dancing, sparkly top
clicar nas pernas para ver a animação

Happy Yuppy

Que 2008 nos traga um bom emprego do tempo.
com dedicatória(s)

quinta-feira

Património cultural europeu da humanidade



Não, não pretendo aqui celebrar a assinatura do Tratado de Lisboa, sobre o qual - para quê fingir? - não tenho opinião formada (desculpem lá).

Trata-se de um pequeno episódio que me deixou indignada. (Volta e meia indigno-me, e não é assim tão raro.) Aconteceu num voo da TAP, Londres-Lisboa, há um pouco menos de um mês. Tinha estado a descansar os olhos (vá, dormitava) e quando os abri vi que passava nas televisões minúsculas um filme que imediatamente reconheci: Jour de Fête (Há Festa na Aldeia, 1949). «Que boa ideia!», pensei, e apressei-me a chamar a hospedeira para lhe pedir uns auriculares. Qual não é o meu espanto quando ela me responde: «Não temos.» Como não?! Como é que era suposto ver-se o filme, sem O SOM? Ela explicou, com a maior das naturalidades: «É mudo, não tem diálogos.» E sorriu. Eu não estava a acreditar no que ouvia e ora olhava para ela de boca aberta, ora olhava para as imagens (também de boca aberta), sem saber como fazer valer o meu ponto de vista. Teve tanto azar que segundos depois aparecem legendas no ecrã. «Com que então não há diálogos?! Já para não falar da música!», exclamei, com toda a razão. Ela ficou um bocado atrapalhada e foi buscar um comissário. (É sempre conveniente ter um homem a bordo para lidar com passageiros que reivindicam coisas estranhas.) Ele lamentou a situação, quase solidário com o meu constrangimento, e disse que nunca davam auriculares em voos de curta duração. (Se calhar os assentos do avião nem tinham entradas/saídas de som. Não interessa, a questão é outra.) Eles não tinham culpa, mas eu continuei a refilar: «É um filme do Jacques Tati... Não é nenhum blockbuster, haja respeito!» Lamentaram de novo e disseram-me para preencher o livro de reclamações quando aterrássemos. Desisti, até que agora ressurgiu a vontade de exercitar o meu direito à indignação.

Ao cuidado dos "programadores" da TAP. Pff...

quarta-feira

Pub da idade da pedra

Era um mundo maravilhoso...




... nem os médicos tossiam...




... ski aquático e uns bafinhos...




... do tempo em que valia tudo...



... incluindo pôr desenhos animados a fumar.

terça-feira

Onde está a Maddie?



Last time I heard, na série L-Word (um mau programa de televisão, forçado, ridículo, entediante até).

Showbiz

LinkedIn é um site que serve para construir uma rede de contactos profissionais. Só há pouco tempo ouvi falar desta "comunidade", mas já existe há alguns anos (desde 2003?). É diferente, por exemplo, do MySpace, muito utilizado por bandas que disponibilizam on-line, cada vez mais, músicas e informação sobre concertos, ou do Facebook (rede social) ou ainda daquilo que sempre me pareceu uma idiotice chapada, orientada para adolescentes e para o engate, o Hi5.

Em Novembro de 2007 o LinkedIn contava com cerca de 15 milhões de utilizadores (não é muito). Registei-me por curiosidade. Dá para aldrabar tanto como em qualquer outro sítio da net, mas isso já se sabe. Não se pergunta a idade, a cor dos olhos nem a canção preferida. O essencial são as habilitações "literárias" (uma expressão que sempre me confundiu), instituição de ensino que se frequentou (superior, espera-se), local de formação, experiência profissional passada, ocupação actual e nacionalidade. Dá para pôr uma foto tipo passe. A partir daí o sistema percorre a nossa lista de contactos de email e diz-nos quem também está registado no site. As ligações vão-se fazendo basicamente como nas outras redes, e as pessoas podem fazer "recomendações". O que mais se encontra são CEO's (ou para lá caminham) e consultores de toda a espécie. Supostamente quem torna o LinkedIn um negócio rentável - porque ao fim e ao cabo o que todos queremos e precisamos de fazer é algum dinheirinho - são os head-hunters, porque um utilizador "normal" inscreve-se e é muito provável que rapidamente se esqueça de lá voltar. (Para quem leva aquilo a sério, se a situação profissional se mantiver, não há actualizações a fazer.)

Tudo isto para dizer que vasculhando "legitimamente" listas de contactos alheias, encontrei várias pessoas com quem já me relacionei num âmbito profissional. Uma delas, que sempre considerei divertida e inteligente (das características mais importantes que se podem desejar em colegas de trabalho, para que a rotina seja suportável), apesar de se mover num meio específico com um registo que em geral não aprecio, escreveu o seguinte sumário da sua actividade (o bold é meu):

«(...)We started with 11 000 readers and, in less than a year we climbed to 22 000. After that, I've been asked to coordinate a new magazine for the publisher. Still in pre-production.

I've specialized in newsroom coordination, newspaper and radio conception of new products. After three year learning the "new media" online news tricks, I am now coming back to radio+internet experience, with the only national news radio magazine being broadcasted on syndication.

Concepts, ideas, coordination and a bit of "tabloid" taste, good for the selling process, is my business, apart, of course, news reporting.»

Jeitinho não lhe falta.

segunda-feira

Encore Viggô (rencontre)



De passagem pela livraria da Cinemateca, onde fui assegurar lugar para a sessão de hoje às 22h (Festival Temps D'Images), encontrei nos escaparates Viggo em dose tripla. A primeira foto, em que ele está de fato, é só para compor o ramalhete.

Das três publicações francesas, acabei por comprar a Les Inrocks porque tem uma entrevista conjunta de Mortensen e Cronenberg. (Precipitei-me; descubro agora que o texto está todo on-line...) Dizem algumas coisas interessantes, implicam e brincam um com o outro. Mas o vídeo de 2 minutos, um teaser que encontrei no site da revista, tem mais animação. Está aqui.

domingo

Se este mundo fosse feito para ser doce / eu seria doce fosse eu quem fosse*



Esta fotografia também foi tirada por mim - eu, que raramente fotografo o que quer que seja (pois se nem tenho máquina). É mais um fruto da minha obsessão com a Tate Modern na semana de férias que passei recentemente em Londres. Desta vez, já esgotados todos os ângulos possíveis e imaginários do meu objecto de admiração, decidi registar o reflexo nocturno do edifício no Tamisa. Não estou à espera que ninguém me felicite pela minha sensibilidade estético-artística. É só uma desculpa para voltar a (d)escrever qualquer coisa do que vi.

1) Nesse dia, estava um homem em frente ao museu, que soava tresloucado em cima de um banquinho, berrando aos ouvidos de quem passava: All women... Go back to the kitchen!!! Intercalava estas palavras de ordem com um discurso de que não percebi patavina, porque não me aproximei muito (medo de apanhar com algum perdigoto). Não consegui concluir se era uma performance ou se a criatura estava a tentar expiar algum trauma. De qualquer das formas, achei divertido.

2) E a intervenção de Doris Salcedo ("Shibboleth"), que partiu ao meio o chão da Tate? Literalmente brutal: uma racha nas fundações de betão, a espaços relativamente profunda (também não vale a pena empolar expectativas, interessa mais o carácter simbólico do que espectacular), que vai de uma ponta à outra do Turbine Hall. Como toda a gente, fiquei fascinada com o insólito da instalação. (Até tirei fotografias, mas vou-vos poupar a essas.)

Explica o desdobrável: (...)A shibboleth, according to the Oxford English Dictionary, is 'a word used as a test for detecting people from another district or country by their pronunciation; a word or sound very difficult to foreigners to pronounce correctly.' It is, therefore, a way of separating one people from another. The word refers back to an incident in the Bible. The Book of Judges describes how the Ephraimites, attempting to flee across the river Jordan, were stopped by their enemies, the Gileadites. As their dialect did not include a 'sh' sound, those who could not say the word 'shibboleth' were captured and executed. A shibboleth is a token of power: the power to judge, refuse and kill. What might it mean, however, to refer to such violence in a museum of modern art?(...)

A isto não sei responder. Que o façam críticos, curadores e historiadores de arte. Mas sei que como portuguesa - se há coisa que não falta na nossa língua são 'sh's - a mim não me apanhavam os Gileaditas...

3) Anseio pela hora de rever o filme de Cronenberg, sobretudo a cena memorável de Nikolai, tal como veio ao mundo, bare-handed, a lutar ("viggorosamente") pela sua sobrevivência nos banhos públicos, e em desvantagem numérica contra o inimigo. Concepção e execução extraordinárias da dupla realizador-actor numa coreografia de força, sangue e instinto - embora gostasse de deixar claro que não considero de todo gratuita a violência do filme: está ali o que deve estar, e nem uma garganta degolada a mais (apesar de eu me ter contorcido na cadeira e fechado os olhos várias vezes). A implacabilidade de Viggo Mortensen, aliás, Nikolai, ideal entre ideais para sonhos eróticos, com tatuagens e sem compromissos, numa noite de Inverno.

*Excerto de uma letra dos Quinteto Tati (em "Valsa Quase Antidepressiva"), ao cuidado do Daniel.

sexta-feira

Moral aggrievement*


Nov/2007 (clicar sobre a imagem para aumentar)

Tirei esta fotografia no terraço da(do?) Tate Modern, de onde se vê na City a cúpula de St. Paul's, a Millennium Bridge e a entrada do museu, que assinala a exposição retrospectiva da obra de Louise Bourgeois com uma das suas esculturas de grandes dimensões, até 20 de Janeiro de 2008. Aliás, foi com esta mesma instalação, no átrio interior (um pé-direito que só visto) da antiga fábrica de electricidade, que a galeria inaugurou as suas instalações na margem sul de Londres, no ano 2000. (Esta semana foi entretanto divulgado que será aqui construída uma extensão em vidro concebida pelos arquitectos Herzog & de Meuron, e a concluir até à abertura dos Jogos Olímpicos de 2012, para a qual o erário público inglês irá contribuir com 50 milhões de libras, num orçamento total de 215. Bem bom; quem pode, pode e deve.)

O mais perturbador neste trabalho de Louise Bourgeois - neste em particular mas afinal são-no todos! - é o nome que ela dá à aranha gigante: Maman. Dedico esta imagem à Anna, personagem de Naomi Watts no último grande (muito grande) filme realizado por David Cronenberg, Eastern Promises (2007).

*Fui buscar o título do post ali, ao blogue do Pedro Mexia.

quinta-feira

Máfia Russa

Não estou preocupada, nem sequer incomodada. Apenas um pouco intrigada. De há umas semanas para cá recebo irregularmente toques no telemóvel de um número não identificado, umas vezes a "horas normais", outras vezes anormais (5 da manhã), sendo que nunca dou por estes últimos a não ser no dia seguinte, quando consulto o registo de chamadas perdidas. Toca uma, duas, três vezes no máximo, e depois desliga-se, mesmo quando atendo. Não há respiração ofegante do outro lado, não há risadinhas, nada. Simplesmente a ligação nunca chega a estabelecer-se. Tudo bem. Mantenho o mesmo número desde que comprei o meu primeiro telemóvel, há oito ou nove anos, já o utilizei em trabalho, já perdi a conta às pessoas que o têm, portanto tudo é possível. Entretanto, há uns dias atrás, instalei um telefone fixo em casa, livre de assinatura mensal, com algumas chamadas gratuitas, enfim, resultado das maravilhas que a competitividade no mercado das telecomunicações produz. Ligam-me para casa a minha mãe e o meu pai, e outras entidades por engano (hoje de manhã foi do GOE, juro!). Até que há bocado comecei a receber os toquezinhos também no fixo. "Estou?" - e desligam, num gesto que pressinto automático. Falta de assunto?