quinta-feira

sms

Alguém do Brasil veio parar ao meu blogue à procura do número de telefone de Joaquin Phoenix. Lamento, caro/a visitante, mas só tenho na agenda telefónica os números que realmente me interessam. E neste momento está completa.

segunda-feira

O Oscar não sabe o que perde(u)


Ryan Gosling, em HALF NELSON

What's the story behind the title?
A "half nelson" is a wrestling move, and we were making a movie about a lot of characters that were wrestling with different parts of themselves and the problems in their world. So we thought it was an appropriate metaphor. It's also a Miles Davis tune that we thought we'd throw in.(...)

Actor principal e banda sonora (Broken Social Scene) muito recomendáveis. Não são só os Arcade Fire que dão prestígio ao Canadá.

quinta-feira

Ab Fab

Não assisti a nada em directo nem em indirecto, mas no rescaldo do rescaldo os apontamentos da Triciclo Feliz sobre o tapete vermelho (e o resto) são obrigatórios.

O meu YAY vai para Cate Blanchett:

domingo

Fronteira

O verdadeiro provinciano é o falso cosmopolita.

Bermaniana

Hoje passei algumas horas a ouvir Joanna Newsom (que querida, tão erudita, aqui com a harpa e as suas roupinhas folk, num concerto a meias com o namorado.) Não me apetece ouvir mais, e a vizinha agradece. Regresso a Silver Jews, à música em que fiquei ontem, antes de sair para jantar:

We're gonna live in Nashville and I'll make a career
Out of writing sad songs and getting paid by the tear

Marry me and leave Kentucky
Come to Tennessee
'Cause you're the only ten I see
You're the only ten I see

Separadas à nascença?



No YouTube comenta-se que têm vozes parecidas. Pior ainda, diz-se que Joanna Newsom é autista e "semi-retarded". Permitam-me discordar. Child-like, she's just too good to be true.

Estado de Graça

L'Amore (que vi esta quarta-feira na Cinemateca), de Rossellini, divide-se em duas histórias, ambas protagonizadas por Anna Magnani. Começa com a mise-en-scène (não toco piano, mas falo francês) do monólogo escrito por Jean Cocteau, La Voix Humaine - livro que não estou a encontrar na estante. Se o tiver emprestado a alguém que esteja desse lado, pede-se o favor de... É uma tragédia. (O texto teatral, não o facto de eu desconhecer o paradeiro do meu livro.) O discurso pelo telefone da mulher desesperada mete dó. Foi abandonada pelo amante, que a trocou por outra. Ele está do outro lado da linha, mas apenas se subentende o que diz. Ela agarra-se ao fio do aparelho, como se a vida dependesse disso. É angustiante. Um grande desempenho de Anna Magnani. Porém o meu constrangimento falava mais alto. Já estava com pressa de chegar à segunda história, que foi o que me levou naquele dia à Barata Salgueiro.

Em Il Miracolo, Nannina é a maluquinha da aldeia que quando está a guardar as cabras na montanha julga ter uma aparição de São José (interpretado por Federico Fellini, magnífico!). Como é óbvio, "São José" não é São José. É uma criatura de carne e osso, que apareceu por ali, e que silenciosamente se deixa ficar a ouvir o delírio de Nannina. Vai-lhe tirando as medidas, enquanto ela fala, e passa-lhe a garrafa de vinho para as mãos. Ela, ingénua, vai dando uns goles. Com os vapores etílicos, começa a ficar tonta e encalorada. O delírio aumenta. Está no Paraíso e às tantas não vê mais nada, desmaia com o êxtase. Fica completamente à mercê do homem. Na cena seguinte, "São José" desapareceu. De volta à aldeia, Nannina relata o milagre. Pois sim, dirão os outros habitantes. Meses depois, descobre-se que está grávida. Nannina acredita piamente que foi abençoada com uma concepção imaculada, que Deus a encheu de Graça. É a chacota da aldeia. Nannina foge. Alienada, acaba por dar à luz numa capela, no alto da montanha, sem ninguém por perto. Feliz.

Um filme extraordinário (realizado por Rossellini, com uma história produto da imaginação de Fellini). Mas o que para mim foi mais extraordinário foi a personagem não me ter inspirado piedade. Até senti uma pontinha de inveja. A sua crença é tão profunda, tão libertadora. Ela acredita, é quanto baste. L'Amore.

"O que importa é a fé dos homens. Nada mais conta. O resto é a superficialidade dos homens."

quarta-feira

Mulher-objecto

"Útero com dimensões conservadas, 83x30x42 mm, de contornos regulares e ecoestrutura homogénea do miométrio.(...)"

in estudo ecotomográfico ginecológico

terça-feira

Das vantagens de chegar cedo ao local de trabalho

Manhã iluminada. Encontrar Ys, de Joanna Newsom, em cima duma mesa. Pô-lo a tocar e ouvi-lo pela primeira vez na íntegra, em silêncio quase, quase absoluto, passe a estranheza. Depois começou toda a gente a entrar em cena. Hoje não é dia feriado.

sábado

How the hell does Stevie Wonder see things?



Em escuta, o primeiro álbum (2004) da banda que mais gostei de conhecer em 2006. Sobretudo graças ao concerto-sauna na ZDB, no verão passado. "Lo-fi charm", "electro-ironic soul music", "wearing their influences on their sleeve" (The Beach Boys, Prince, Ween, 60's girl groups, Dr. Dre, Devo, Stevie Wonder, Madlib). "Like a mellow, hip-hop-lovin' version of LCD Soundsystem", etc. Ao vivo, aqui.

quinta-feira

Especial pós Dia(s) dos Namorados

Um dia no jardim
fiquei muito espantado:
encontrei uma miúda
com olhos por todo o lado.

Era de facto encantadora
(e também assustadora!);
e, porque tinha boca para falar,
pusemo-nos a conversar.

Falámos sobre flores
e das suas aulas de poesia,
e dos problemas que teria
se tivesse miopia.

É óptimo namorar
alguém que tanto nos olha,
mas se desata a chorar
apanhamos uma molha.

"A Rapariga com Muitos Olhos", do livro de Tim Burton, A Morte Melancólica do Rapaz Ostra & Outras Estórias, em reedição recente pela Antígona.

Uma entrevista é uma entrevista

Era uma vez a MINGUANTE, revista on-line de micronarrativas.

domingo

Da responsabilidade


Nana (Anna Karina)

(...)

Yvette: É triste, mas não sou responsável por nada.
Nana: Eu acho que somos sempre responsáveis por tudo o que fazemos - e livres... Levanto a mão, sou responsável. Viro a cabeça para a direita, sou responsável. Sou infeliz, sou responsável. Fumo um cigarro, sou responsável. Fecho os olhos, sou responsável. Esqueço-me que sou responsável, mas sou-o na mesma. Era o que eu dizia há pouco. Querer evadir-se é uma treta. Afinal, tudo é belo. Basta ter interesse pelas coisas e achá-las bonitas. No fundo, as coisas são o que são e mais nada. Um rosto é um rosto. Pratos são pratos. Os homens são os homens. E a vida é a vida.

(...)

Vivre sa Vie (JLG, 1962)

Disclaimer

(Sábado à noite, festa, copos, conversa casual em grupo.)

- Sara, tenho ido ao teu site. Mas fico sempre deprimida.
- Então por que é que continuas a ir?

Eva, isto também "não é uma crítica". És sempre bem-vinda.

sábado

sexta-feira

Sim, sim, sim

Batu, de facto não perguntei, mas no fundo no fundo no fundo esperava que respondessem. Tu, o Luís e o Ricardo. (O Casanova fez-me sentir cota: "No referendo de 1998 não participei porque ainda não era maior.")

quarta-feira

Ambrósio, apetece-me Schopenhauer

(...)ANTES DE TUDO, devemos considerar a essência de toda a controvérsia, o que nela se passa de facto.
O nosso oponente afirmou uma tese (ou nós próprios, pouco importa). Para a refutarmos, existem dois modos e dois caminhos.

1. Os modos: (...)podemos demonstrar, ou que esta tese não está de acordo com a natureza das coisas, isto é, com a verdade objectiva absoluta; ou que ela é inconsistente com outras alegações ou concessões do nosso oponente, isto é, com a verdade subjectiva relativa. Este último modo produz apenas uma convicção relativa, e não importa em nada para a verdade objectiva da questão.
2. Os caminhos: 1) a refutação directa, ou 2) indirecta. A directa ataca a tese pelos seus fundamentos; a indirecta, pelas suas consequências. A refutação directa demonstra que a tese não é verdadeira; a indirecta, que ela não pode ser verdadeira.(...)

ESTRATAGEMA 1
A EXTENSÃO. Ampliar a afirmação do oponente para além dos seus limites naturais, interpretá-la da maneira mais geral possível, tomá-la no sentido mais lato possível e exagerá-la; e, por outro lado, reduzir a nossa ao sentido mais restrito, aos limites mais estreitos que forem possíveis: pois quanto mais geral se tornar uma afirmação, mais ela estará sujeita aos ataques.(...)

ESTRATAGEMA 2
Utilizar a Homonímia para estender a alegação àquilo que pouco ou nada tem de comum com o objecto do debate, senão o mesmo termo, e depois refutá-lo de forma triunfante, como se se houvesse refutado a própria afirmação.(...)

EXEMPLO 1. A: «Você ainda não está iniciado nos mistérios da filosofia kantiana.»
B: «Ah, se se trata de mistérios, não quero ter nada a ver com isso.»(...)

ESTRATAGEMA 8
Fazer encolerizar o oponente: pois no seu furor ele fica incapaz de um juízo correcto e de perceber o que é do seu interesse. Podemos encolerizá-lo sendo repetidamente injustos para com ele, fazendo chicana, e, em geral, sendo insolentes.(...)

ESTRATAGEMA 34
Quando o oponente não dá resposta directa a uma pergunta ou a um argumento, mas se furta a ela com uma contra-pergunta ou uma resposta indirecta, ou algo que não tenha a ver com o debate e tenta mesmo desviar o assunto, essa é a prova evidente de havermos tocado um ponto fraco (por vezes sem o sabermos): da parte dele, é um modo relativo de se calar. Há pois que insistir no ponto suscitado e não deixar que o oponente a ele se furte, mesmo que não se saiba ainda em que consiste ao certo a fraqueza que atingimos.(...)

ÚLTIMO ESTRATAGEMA
Quando percebemos que o oponente é superior e que não iremos ganhar, tornamo-nos pessoais, insultuosos, grosseiros.(...)É um apelo das faculdades do espírito às do corpo, ou à animalidade. Esta regra é muito apreciada, visto cada um a poder aplicar, e por conseguinte, é usada com muita frequência...


Ambrósio, já chega!

domingo

Kate Dietrich

Parece que não confiam

(...)2. A corrente laicista, que deseja a Igreja fechada na sacristia, não creio que seja maioritária na sociedade portuguesa, apesar do nosso passado anticlerical. Mas a grande alergia à presença activa da Igreja talvez resulte da ideia de que ela quer fazer da sociedade e do espaço público uma sacristia. As declarações e posições pouco católicas de certos movimentos, personalidades e de alguns padres dão a impressão de quererem entregar à repressão do Estado, do Código Penal, dos tribunais, da polícia, da cadeia, as suas convicções morais - isto é, parece que não confiam na consciência das mulheres, na sua capacidade de discernimento, para percorrerem todos os caminhos necessários até chegarem a uma decisão bem informada, responsável, prudencial, no sentido que a virtude da prudência, virtude da decisão bem informada, tem em Aristóteles e Tomás de Aquino.(...)
Como dizia Tomás de Aquino, só somos verdadeiramente livres quando evitamos o mal, porque é mal, e fazemos o bem, porque é bem, não porque está proibido ou mandado. Todo o trabalho que a Igreja tem a fazer é, precisamente, o de ajudar as pessoas a caminharem para esse ponto de lucidez. Esclarecer as consciências não é formatá-las, não é impor-lhes uma outra consciência, não é aliená-las. Quando, nas condições e no prazo referidos, se chama "assassinas" às mulheres que recorrem ao aborto - que a Igreja e qualquer pessoa de bom senso desejam que nunca venha a acontecer -, pode estar-se a insultar, exactamente, as que sofrem os dramas que acompanham essas decisões dolorosas. A resposta ao referendo não deve extravasar o âmbito da pergunta aprovada.
3. Em última análise, a grande suspeita em relação à pergunta do referendo está neste fragmento da frase: "por opção da mulher." E porquê? Porque se julga que as mulheres não são de confiança. No entanto, foi a elas que a natureza confiou a concepção e o desenvolvimento da vida humana, durante nove meses.(...)


Frei Bento Domingues, O.P. (PÚBLICO, 04/02/07)