quinta-feira

Especial pós Dia(s) dos Namorados

Um dia no jardim
fiquei muito espantado:
encontrei uma miúda
com olhos por todo o lado.

Era de facto encantadora
(e também assustadora!);
e, porque tinha boca para falar,
pusemo-nos a conversar.

Falámos sobre flores
e das suas aulas de poesia,
e dos problemas que teria
se tivesse miopia.

É óptimo namorar
alguém que tanto nos olha,
mas se desata a chorar
apanhamos uma molha.

"A Rapariga com Muitos Olhos", do livro de Tim Burton, A Morte Melancólica do Rapaz Ostra & Outras Estórias, em reedição recente pela Antígona.

Uma entrevista é uma entrevista

Era uma vez a MINGUANTE, revista on-line de micronarrativas.

domingo

Da responsabilidade


Nana (Anna Karina)

(...)

Yvette: É triste, mas não sou responsável por nada.
Nana: Eu acho que somos sempre responsáveis por tudo o que fazemos - e livres... Levanto a mão, sou responsável. Viro a cabeça para a direita, sou responsável. Sou infeliz, sou responsável. Fumo um cigarro, sou responsável. Fecho os olhos, sou responsável. Esqueço-me que sou responsável, mas sou-o na mesma. Era o que eu dizia há pouco. Querer evadir-se é uma treta. Afinal, tudo é belo. Basta ter interesse pelas coisas e achá-las bonitas. No fundo, as coisas são o que são e mais nada. Um rosto é um rosto. Pratos são pratos. Os homens são os homens. E a vida é a vida.

(...)

Vivre sa Vie (JLG, 1962)

Disclaimer

(Sábado à noite, festa, copos, conversa casual em grupo.)

- Sara, tenho ido ao teu site. Mas fico sempre deprimida.
- Então por que é que continuas a ir?

Eva, isto também "não é uma crítica". És sempre bem-vinda.

sábado

sexta-feira

Sim, sim, sim

Batu, de facto não perguntei, mas no fundo no fundo no fundo esperava que respondessem. Tu, o Luís e o Ricardo. (O Casanova fez-me sentir cota: "No referendo de 1998 não participei porque ainda não era maior.")

quarta-feira

Ambrósio, apetece-me Schopenhauer

(...)ANTES DE TUDO, devemos considerar a essência de toda a controvérsia, o que nela se passa de facto.
O nosso oponente afirmou uma tese (ou nós próprios, pouco importa). Para a refutarmos, existem dois modos e dois caminhos.

1. Os modos: (...)podemos demonstrar, ou que esta tese não está de acordo com a natureza das coisas, isto é, com a verdade objectiva absoluta; ou que ela é inconsistente com outras alegações ou concessões do nosso oponente, isto é, com a verdade subjectiva relativa. Este último modo produz apenas uma convicção relativa, e não importa em nada para a verdade objectiva da questão.
2. Os caminhos: 1) a refutação directa, ou 2) indirecta. A directa ataca a tese pelos seus fundamentos; a indirecta, pelas suas consequências. A refutação directa demonstra que a tese não é verdadeira; a indirecta, que ela não pode ser verdadeira.(...)

ESTRATAGEMA 1
A EXTENSÃO. Ampliar a afirmação do oponente para além dos seus limites naturais, interpretá-la da maneira mais geral possível, tomá-la no sentido mais lato possível e exagerá-la; e, por outro lado, reduzir a nossa ao sentido mais restrito, aos limites mais estreitos que forem possíveis: pois quanto mais geral se tornar uma afirmação, mais ela estará sujeita aos ataques.(...)

ESTRATAGEMA 2
Utilizar a Homonímia para estender a alegação àquilo que pouco ou nada tem de comum com o objecto do debate, senão o mesmo termo, e depois refutá-lo de forma triunfante, como se se houvesse refutado a própria afirmação.(...)

EXEMPLO 1. A: «Você ainda não está iniciado nos mistérios da filosofia kantiana.»
B: «Ah, se se trata de mistérios, não quero ter nada a ver com isso.»(...)

ESTRATAGEMA 8
Fazer encolerizar o oponente: pois no seu furor ele fica incapaz de um juízo correcto e de perceber o que é do seu interesse. Podemos encolerizá-lo sendo repetidamente injustos para com ele, fazendo chicana, e, em geral, sendo insolentes.(...)

ESTRATAGEMA 34
Quando o oponente não dá resposta directa a uma pergunta ou a um argumento, mas se furta a ela com uma contra-pergunta ou uma resposta indirecta, ou algo que não tenha a ver com o debate e tenta mesmo desviar o assunto, essa é a prova evidente de havermos tocado um ponto fraco (por vezes sem o sabermos): da parte dele, é um modo relativo de se calar. Há pois que insistir no ponto suscitado e não deixar que o oponente a ele se furte, mesmo que não se saiba ainda em que consiste ao certo a fraqueza que atingimos.(...)

ÚLTIMO ESTRATAGEMA
Quando percebemos que o oponente é superior e que não iremos ganhar, tornamo-nos pessoais, insultuosos, grosseiros.(...)É um apelo das faculdades do espírito às do corpo, ou à animalidade. Esta regra é muito apreciada, visto cada um a poder aplicar, e por conseguinte, é usada com muita frequência...


Ambrósio, já chega!

domingo

Kate Dietrich

Parece que não confiam

(...)2. A corrente laicista, que deseja a Igreja fechada na sacristia, não creio que seja maioritária na sociedade portuguesa, apesar do nosso passado anticlerical. Mas a grande alergia à presença activa da Igreja talvez resulte da ideia de que ela quer fazer da sociedade e do espaço público uma sacristia. As declarações e posições pouco católicas de certos movimentos, personalidades e de alguns padres dão a impressão de quererem entregar à repressão do Estado, do Código Penal, dos tribunais, da polícia, da cadeia, as suas convicções morais - isto é, parece que não confiam na consciência das mulheres, na sua capacidade de discernimento, para percorrerem todos os caminhos necessários até chegarem a uma decisão bem informada, responsável, prudencial, no sentido que a virtude da prudência, virtude da decisão bem informada, tem em Aristóteles e Tomás de Aquino.(...)
Como dizia Tomás de Aquino, só somos verdadeiramente livres quando evitamos o mal, porque é mal, e fazemos o bem, porque é bem, não porque está proibido ou mandado. Todo o trabalho que a Igreja tem a fazer é, precisamente, o de ajudar as pessoas a caminharem para esse ponto de lucidez. Esclarecer as consciências não é formatá-las, não é impor-lhes uma outra consciência, não é aliená-las. Quando, nas condições e no prazo referidos, se chama "assassinas" às mulheres que recorrem ao aborto - que a Igreja e qualquer pessoa de bom senso desejam que nunca venha a acontecer -, pode estar-se a insultar, exactamente, as que sofrem os dramas que acompanham essas decisões dolorosas. A resposta ao referendo não deve extravasar o âmbito da pergunta aprovada.
3. Em última análise, a grande suspeita em relação à pergunta do referendo está neste fragmento da frase: "por opção da mulher." E porquê? Porque se julga que as mulheres não são de confiança. No entanto, foi a elas que a natureza confiou a concepção e o desenvolvimento da vida humana, durante nove meses.(...)


Frei Bento Domingues, O.P. (PÚBLICO, 04/02/07)

Questão fracturante

Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?

Para mim, o aborto é uma questão da esfera privada, por isso sinto-me incomodada de o ver discutido em público. É também uma questão de consciência, por isso voto SIM. O assunto não tem nada a ver com ser de Esquerda ou de Direita. A uma semana do referendo, aqui fica uma amostra da "fractura", com a enumeração de algumas pessoas que mais gosto de ler na blogosfera - e cujos blogues visito com regularidade (porque há muitos outros que podia referir):

- batukada (aborda o assunto com humor, mas a intenção de voto, ou mesmo de ir votar, não é clara)
- Carla Quevedo (SIM)
- Eduardo Nogueira Pinto (NÃO)
- Francisco Valente (SIM)
- Ivan Nunes (SIM)
- Luís Miguel Oliveira (não me lembro de nenhum post em que o referendo tenha sido abordado)
- maradona (SIM)
- Pedro Mexia (NÃO)
- Ricardo Gross (sei qual é a posição dele sobre o assunto, mas como nunca expressou a sua opinião no blogue também não sou eu que vou revelá-la)
- Rogério Casanova (não faço a menor ideia)
- Sam (SIM)
- Samuel Úria (aborda o assunto com humor, e embora não o diga explicitamente, julgo que é NÃO)
- Tiago Cavaco (NÃO)

(...)

SÖREN
A vida está cheia de enigmas. Um beijo, Regina. Salomão diz que uma boa resposta é como um amoroso beijo. Eu prefiro um amoroso beijo a uma boa resposta. É mais próprio da natureza do beijo imaginar um homem que beija uma mulher, do que uma mulher que beija um homem. Pouca gente faz caso destas coisas.

REGINA
Pouca gente sabe essas coisas.

SÖREN
É uma boa resposta e sabe como um beijo.

(...)


Agustina Bessa-Luís (dramatização de), "Estados Eróticos Imediatos de Sören Kierkegaard", Guimarães Editores, Lisboa, 1992

Your honour, may I say something...?

I'd rather kiss you. With all due respect.

(O post só funciona se for em inglês. Por favor, não me tomem por pretensiosa. Obrigada.)

quarta-feira

Acronym



Lots Of Libido In The Air.

Emerald, Sapphire and Gold

O meu blogue presta serviços de outsourcing, sempre que solicitados por entidades com consciência rítmica.

domingo

On the house (stereo)



Em crescendo, em escuta, em repeat: confirmo pela data dos "ficheiros recebidos" que foi em Outubro que um dos meus melhores amigos - Carlos, beijos para ti - me enviou alguns mp3 das ESG (não confundir com um rapper que adoptou as mesmas iniciais). Até então, desconhecia esta banda dos anos 80 formada pelas manas Scroggins, do South Bronx. Depois comecei a ouvi-las de vez em quando na Rádio Oxigénio, actualmente a minha frequência preferida para ouvir música no carro (ando enjoada com a playlist pop-rock da Radar). Nesta última sexta-feira de manhã, passava "Dance" (a segunda do alinhamento do disco). Ficou-me novamente no ouvido. Mais tarde, quando passei na sala de edição, estava a ser montada uma peça, a ir para o ar na próxima semana, com "My Love for you", que é a última faixa do disco (um grande bem-haja ao Baptista, editor, pela escolha da banda sonora). Foi nessa altura que as ESG se me entranharam irreversivelmente. Mais tarde ainda, no Bairro Alto, disseram-me (beijos também para ti, Jorge!) que tinha saído agora uma re-edição pela Soul Jazz Records (que belo catálogo) de "Come Away with ESG", o primeiro(?) longa duração delas, lançado em 1983. Já não havia volta a dar-lhe: no dia seguinte tinha de ir à FNAC comprar um presente de aniversário para uma amiga (JP Simões, "1970") e aproveitaria para me presentear a mim própria.

(Este post está a ficar longo... E tem parêntesis a mais. Desculpem. Vou continuar.)

Quase todas as faixas do disco me parecem dançáveis. Fiz o upload para o blogue de "Dance", uma das mais contagiantes, mas aborrece-me que o baixo, essencial na música das ESG, não se ouça pelas colunas de som do meu computador. Paciência, fica lá na mesma, já dá para se ter uma ideia. Em casa, isto é para ser ouvido na aparelhagem, com o volume alto, e a minha vizinha deve estar há horas a rogar-me pragas.

Os dois minutos instrumentais de "Chistelle" (faixa 5) não podiam estar mais próximos de Sonic Youth. O baixo de "Tiny Sticks" também me soa familiar. E "The Beat". Adoro. E "It's Alright". Sempre o baixo. "Come Away", "Parking Lot Blues", "You Make No Sense", "About You", "Moody (spaced out)"... Todo o disco é impressionantemente bom. Se eu fosse DJ, pelo menos uma destas onze músicas teria de passar, e ai de quem não dançasse.

(O novo de LCD Soundsystem, "Sound of Silver", só sai em Março, mas houve uma "fuga" e consegue-se fazer ilegalmente o download da net de todas as músicas do disco. Tal como eu, desconfio que há um jornalista do Y que também já o fez. Se não, como é que ele pôde destacar no suplemento do Público "Get Innocuous"...? O single que tem passado na rádio, que por acaso é óptimo, chama-se "North American Scum". O resto também me parece muito bem, a última música chama-se "New York I Love You", mas lá está, tenho a sensação que o meu computador não reproduz música como deve ser, e não tenho Ipod. James Murphy é grande e hei-de voltar a dizer que gosto da voz anasalada dele quando o disco estiver à venda. Por enquanto, no MySpace.)

sábado



and i can’t sleep
'cause you got strange powers
you’re in my dreams
strange powers


(The Magnetic Fields)

Bad lover

- Não (me) consigo desligar... do trabalho.
- Tudo bem, desde que não vás para a cama com o Stress.

Atracção-repulsão

Ordinary life is pretty complex stuff.

quinta-feira

Negligência (agravada)

Quando o meu blogue soube que eu queria uma televisão nova, ameaçou pôr-me em tribunal.

Paint



8 Jan 1947 - ...

Pessoas

UMAS SENTEM A EXCITAÇÃO DO TÉDIO, OUTRAS NÃO...
Há mais de dois meses que passo de carro, diariamente, pelo muro onde se lê esta frase escrita a spray. Só esta semana reparei nela, quando fiquei parada no meio do trânsito, e não sei se faço parte do primeiro ou do segundo grupo.

domingo

Domingo

Aguentei-me. Este dia está a ser cada vez mais desgastante. Tinha sido seleccionado e posto de parte em Novembro passado como dia de descanso. Esta manhã fui dar com o novo ser a tentar deitar ao chão maçãs daquela árvore proibida. (Adão)

Está tudo em ordem agora e eu estou feliz mas passei dias muito duros. Prefiro nem me lembrar.
Tentei apanhar algumas daquelas maçãs para ele mas não consigo aprender a atirar como deve ser. Falhei. Mas acho que ele percebeu a minha intenção e ficou contente. Elas são proibidas, e ele diz que me vai acontecer algo de mal. Mas se me acontecer algum mal por tentar ser simpática para ele, não há-de ser um mal com o qual me importe.
(Eva)

terça-feira

Imagens de arquivo

- Como é que vais pintar o texto?
- Lápis de cor...?

segunda-feira

Quinhentos anos depois


Albrecht Dürer, 1507

Continuam nus, mas não deviam ter vergonha.

Segunda-feira

O novo ser diz que se chama Eva. Tudo bem. Não tenho objecções. Diz que é para o chamar quando queira que ele venha. Eu disse que, nesse caso, era supérfluo. Esta palavra fez-me subir na sua consideração e é, de facto, uma longa e boa palavra capaz de suportar a repetição. O novo ser diz que não é um ser, mas uma Ela. Duvido, mas tanto me faz. O que Ela seja não me faria diferença se Ela se metesse na sua vida e não falasse. (Adão)

Hoje de manhã disse-lhe o meu nome. Estava com esperanças que lhe interessasse. Mas ele não ligou nenhuma. É estranho. Se fosse ele a dizer-me o seu nome eu tinha-me interessado. Para os meus ouvidos teria sido o mais doce som que eu jamais ouvira.
Ele fala muito pouco. Talvez seja por ser pouco inteligente, e saiba disso, e procure escondê-lo. É uma pena que ele pense assim porque a inteligência não vale nada: é no coração que está o valor. Quem me dera poder fazê-lo entender que um coração cheio de amor é um tesouro, é tesouro que baste e que sem ele o intelecto é uma pobreza.
Apesar de falar pouco tem um vocabulário surpreendente. Hoje de manhã usou uma palavra surpreendentemente boa. Ele mesmo reconheceu que era boa porque a conseguiu meter mais duas vezes na conversa ao longo do dia, casualmente. Foi arte casual mas, mesmo assim, demonstra que ele possui uma certa qualidade de percepção. Sem sombra de dúvida essa semente pode vir a crescer, se cultivada.
Onde terá ele ido buscar a palavra? Eu nunca a usei.
(Eva)

Mark Twain, "Excertos dos diários de Adão e Eva", Cavalo de Ferro

00:00:00

FELIZ ANO NOVO.

domingo

Vem aí o 2007


Anita Ekberg, Boccaccio 70

sexta-feira

P.I.C.A. (que bela prenda me saíste)

Gostava de escrever 10 segundos para televisão com a mesma facilidade com que faço um post. De segunda a sexta, para adolescentes.

segunda-feira

Mensagem de Natal



Bevete più latte
Il latte fa bene
Il latte conviene
Per tutte le età

Bevete più laaa
Bevete più laaa
Bevete più latte!




BOAS FESTAS.

Notícia de última hora

Não é novidade: já há um mês que o maradona anda a escrever crónicas para o Metro. Para além disso, a figura semi-pública, semi-anónima, não aprecia publicidade. Fica registado.

Prémio

Ninguém vota para os "melhores/piores deslincamentos 2006"?

Funny guys


Late night with Conan O'Brien: Howard Stone on Jay Leno

Contribuição (os primeiros dois minutos do vídeo) para o debate, apesar da minha preferência ir para o apresentador "queixudo".

quarta-feira

Informação gratuita

Quando hoje cheguei à pagina 11 (não tinha reparado na chamada de capa) do Metro, a minha exclamação deve ter ecoado por toda a carruagem. Era a última coisa que eu esperava ler às 9 da manhã num transporte público, sem computador com acesso à internet.

Não sei se isto no jornal é novidade, se já dura há algum tempo, mas começava assim: "Não existe corrupção no futebol. O que há é um reduzido número de pessoas honestas ou vingativas que, na sua orgulhosa excentricidade, têm agitado um lago até agora quase perfeitamente idílico." E continuava, o que fez com que eu me distraísse e deixasse passar a minha estação. A culpa é do maradona, que assinava em papel a crónica Justicia Buena.

segunda-feira

Última ceia

Minutagem

Um post com 3 segundos.

Produção de conteúdo

Manifestamente insuficiente.

"discurso sobre a reabilitação do real quotidiano"

(IX)

no país no país no país onde os homens
são só até ao joelho
e o joelho que bom é só até à ilharga
conto os meus dias tangerinas brancas
e vejo a noite Cadillac obsceno
a rondar os meus dias tangerinas brancas
para um passeio na estrada Cadillac obsceno

e no país no país e no país país
onde as lindas lindas raparigas são só até ao pescoço
e o pescoço que bom é só até ao artelho
ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,
chega a atingir o cérebro e as flores da cabeça,
recordo os meus amores liames indestrutíveis
e vejo uma panóplia cidadã do mundo
a dormir nos meus braços liames indestrutíveis
para que eu escreva com ela, só até à ilharga,
a grande história de amor só até ao pescoço

e no país no país que engraçado no país
onde o poeta o poeta é só até à plume
e a plume que bom é só até ao fantasma
ao passo que o fantasma - ora aí está -
não é outro senão a divina criança (prometida)
uso os meus olhos grandes bons e abertos
e vejo a noite (on ne passe pas)

diz que grandeza de alma. Honestos porque.
Calafetagem por motivo de obras.
É relativamente queda de água
e já agora há muito não é doutra maneira
no país onde os homens são só até ao joelho
e o joelho que bom está tão barato

Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação, Assírio & Alvim, 1981

YLT


by Eric Reynolds

Alternativa

Não é habitual assistir a concertos dois dias consecutivos na Aula Magna. Ora, o Festival Radar não me deu alternativa: Yo La Tengo no dia 3 de Dezembro, Cat Power no dia 4.

No domingo à noite a sala estava a dois terços; na segunda-feira estava à pinha. Os Yo La Tengo fizeram três ou quatro encores; a menina Chan Marshall não fez nenhum. No primeiro estive sempre de pé, e dancei grande parte do tempo; no segundo estive sempre sentada, e isso aborreceu-me um bocadinho. Mas ambos os concertos foram bons, cada um no seu registo.

domingo

Songstress



We've always thought Chan Marshall was beautiful, but what do we know? We're indie rockers. We think brand new 7" vinyl is beautiful, too.

Turns out the beautiful people think Cat Power is beautiful, too. And they know what they're talking about, or so we're lead to believe. Women's Wear Daily reported on Monday that Chanel's Karl Lagerfeld has fallen for the songstress, who "has been tapped as the new face of Chanel's jewelry collections."

According to Matador Records, Marshall is not confirmed to appear in any Chanel ads at this time, although she and Lagerfeld have indeed become friends.

WWD reported that Marshall was decked out in gold Chanel jewelry (a necklace, ring, and bracelet) at a party celebrating the release of Lagerfeld's compilation CD, Les Musiques Que J'aime. (The comp features tracks from the likes of Devendra Banhart, the Boy Least Likely To, Lindstrom and Prins Thomas, LCD Soundsystem, the Pipettes, Black Mountain, Fiery Furnaces, Matmos, the Fall, Caribou, and Goldfrapp. Hey Karl, wanna write for Pitchfork?)

Marshall told WWD that Lagerfeld approached her while she was hanging out in front of the Mercer Hotel in NYC: "I was outside waiting, sitting on a pile of Louis Vuitton luggage, drinking water, with an apple and a cigarette in my hand, my cell phone, oh, and two guitars, and out comes Karl. He walks up, looks at me and says, 'Only a woman can look glamorous when smoking.' And I lowered my glasses and pointed to [the shadows under my] eyes and said, 'With these?'"


Ainda havemos de ter Cat Power no blogue de Miss Pearls.

quarta-feira

MÁRIO CESARINY (1923-2006)
EM AUTO-ENTREVISTA


K: (...)Mas apesar de tudo, ou de todos, não acha um pouco forte para começar?
MC: Acho. Vamos cortar.
K: Não corta nada. E se quiser até ponho que o que fizeram à Casa dos Bicos é cópia quase símile da que apareceu na Exposição do Mundo Português a demonstrar a pujança do Império: a janela central pseudo-pseudo e a bicalhada toda a ir por ali fora até formar a testa do Frankenstein. Vi no Expresso Revista. Mas, mesmo assim, acha que vale a pena falar nisso, agora que já não tem remédio?
MC: O já não tem remédio é o que se diz do morto. E se juntarmos aquela que a Agustina Luís há pouco sublinhava, citando do rifonário cívico português, que "o melhor é inimigo do bom", obtemos o espectro desse universo.
K: Um universo bastante original. Próximo do macaco, pode-se dizer.
MC: Muito próximo. Sobretudo quando lembramos outros processos evolutivos. Outros modos, outras línguas. O Oscar Wilde que dizia: "Para mim, o óptimo é suficientemente bom".
K: O Wilde foi preso.
MC: Também é verdade.(...)
K: Li uma crónica sua em que dizia que por toda aquela zona a que o bulldozer limpou o sarampo – a velha Mouraria hoje Martim Moniz – havia montes de casas de... putas.
MC: De putas. Todo o genocídio invoca a Moral e a Constituição. Fica bem. Ali, havia ruas e ruelas lindíssimas, travessas impensáveis, passagens extraordinárias. Creio que, se as tivessem deixado sobreviver, seriam hoje um centro urbano único, mais de povo do que o Bairro Alto. O Bairro Alto é todo pombalino, monumental. Responde com nobreza ao carácter de cidade imperial que a Lisboa que vai do Largo do Rato até ao rio apresenta. Aquela Mouraria era a topografia do gatafunho, o labirinto possível depois da queima do Mouro. E, sim, num extenso passo que não dava frente para a Rua da Palma, as putas. As putas, os óis-óis de bairro, a maruja de guerra que nenhum escritor português conseguiu descrever como o faz em três linhas o Rámon Gomez de La Serna...
K: É. Porque será?
MC: O escritor português não sai do escritório. Faz-lhe mal aos pés. É gente de candeeiro de mesa e secretária "capital do móvel" inamovível. Prefere a conta da electricidade ao gasto corporal. Este reserva-o todo para a gloriosa maçada de ir receber o Prémio de não ter ido a lado nenhum.
K: O que são os óis-óis de bairro?
MC: ...as putas, os óis-óis de bairro, a maruja, os faquistas, os Buiças de aluguer e os de convicção. Honestíssimas, meretíssimas putas! A mim, ainda menino, davam-me o susto mestre, a visão do sagrado.(...)

Revista K, Nº2, Novembro 1990, pág. 35-36

Assina M.

Minette, mãe-de-família, tem um blogue anónimo.

sábado

Red K


Natasha Law (irmã do Jude), 2004

quarta-feira

Grande reportagem

Fontes próximas (uma da outra) garantem que fui concebida em São Tomé e Príncipe. Não quiseram adiantar mais pormenores.

domingo

Interneta

Quando cheguei ao mundo ele já tinha partido, mas lá em casa sempre ouvi referirem-se à figura familiar como "Avô General" (mais por brincadeira, apesar de ser verdade).

O meu bisavô (e da Mónica, minha prima, não a Vitti) foi Governador da Guiné entre 1932 e 1940, em pleno Estado Novo. A Wikipédia confirma-o. É um facto, e para mim, um tópico interessante. Foi quem se manteve mais tempo no cargo. Dos três volumes que escreveu sobre a ex-colónia portuguesa, com cerca de 1500 páginas (não fez a coisa por menos), cito texto introdutório:

"(...)Não encontram os portugueses da Guiné razão que possa justificar, explicar sequer, o desinteresse que, na Metropole, existe por esta Colónia e que não é mais do que o resultado do desconhecimento em que, sobre ela, vive o país soberano, embora nos ultimos anos, as exposições, as conferencias e a propria, mas limitada, acção oficial, tenham quebrado o mutismo que a envolvera nas brumas de lendas terrorificas de um país inóspito, onde perigos de toda a natureza espreitavam o «branco».
Vir para a Guiné, é ainda, no espírito de muita gente portuguesa do Continente, subir irremediavelmente a um cadafalso onde os carrascos são as febres, as feras e... os pretos!
E este juizo perdura na imaginação popular, a 490 anos da descoberta de Nuno Tristão!
Deliberando fazer a publicação destas páginas, quere o Governador da Guiné contribuir com elementos, cuidadosamente verdadeiros, para que o País forme um conhecimento que não possue, e que lhe é necessário, sobre uma das suas colónias mais ignotas.(...)" - Junho de 1936

Sendo fiel ao original, não me responsabilizo pela eventual má colocação de vírgulas, erros de gramática, etc., pelo meu bisavô. Qualquer tentativa de corrigi-lo será frustrada, a não ser que ele lá onde estiver tenha acesso à internet e leia blogues. Por acaso, a ideia agrada-me... Aproveitando a embalagem, mais um excerto, retirado do capítulo sobre as populações indígenas:

"(...)Passam os bijagós por serem o elemento étnico mais inculto, de todos quantos povôam a nossa Guiné.
Este juizo que deve ter-se formado pelas descrições do seu exótico viver, sofre do desconhecimento da étnica de outras tribus, porque o que é certo é que o bijagó não é mais nem menos inculto que o felupe, o manjaco ou o balanta.(...)
De resto, o bijagó manifesta, em vários actos exteriorizadores da sua psicologia, um sentido de arte que desmente a incultura absoluta - tida como embrutecimento do espírito, refractario à assimilação, ou ignorancia crassa do mais comesinho à vida do ser consciente.
Certamente que o facto da sua organização familiar ter como princípio o matriarcado, não é bastante para firmar incultura...(...)"

LOL, Bisavô, LOL.

Unknown Binding

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quinta-feira

Delírio em verde-alface

Ordem de grandeza

Já não me lembrava. A minha colecção de Kapa's resume-se a isto: ao número 2, de Novembro de 1990. Estou em condições de afirmar com toda a propriedade que aos 13/14 anos não lia a revista em questão. Naquele tempo quase tudo o que era imprensa portuguesa me passava ao lado. (Eu só lia jornais estrangeiros...)

Porém numa manhã de sábado, em 1999, passeando pela Feira da Ladra vejo numa banca cheia de tralha a fronha de Marcello Caetano sobre um fundo verde-alface (talvez a minha digitalização não lhe faça justiça cromática, clicar na imagem para aumentar). Não hesitei um segundo: "Quanto quer por isso?" Ali estava um número desirmanado, no meio de romances de cordel e de tecla(do)s de computador. Um achado. Paguei 100$00, se bem me lembro, mas teria dado os 400$00 que me custaria em 1990. Teria dado mais.

domingo

Comprar livros pelo autor, título, capa... *



*O resto logo se vê.

A Maya não me deixa em paz

"GÉMEOS: Algumas tensões e excessos poderão tornar-se uma fonte de preocupações, tente manter a cabeça fria e não responda de forma precipitada. No plano afectivo alguns encontros podem não correr como esperava, seja mais selectivo a fim de evitar dissabores. Algumas ligações que pareciam correr bem podem tornar-se decepcionantes.(...)" Pública, 05/11/06

Com bastante atraso, mas está bem.

Inconveniências

Confesso que já me apetecia pouco falar do tema do aborto, depois de todos os argumentos terem sido já tão amplamente discutidos e a obstinação condenatória persistir. Mas depois de algumas vozes inesperadas terem vindo a público afirmar coisas espantosas, algumas delas neste mesmo jornal, talvez faça sentido reafirmar algumas verdades óbvias, ainda que incómodas.

1. O aborto existe, sempre existiu e não vai deixar de existir. Seja por ignorância, imprudência, erro de julgamento ou simples azar, as mulheres ficam grávidas sem querer. E por vezes sentem que efectivamente não querem ou não podem seguir em frente com aquela gravidez. Claro que todos queremos diminuir essas situações - e devemos fazer esforços sérios, não moralistas e não paternalistas nesse sentido. Mas o problema nunca será totalmente resolvido a montante. As questões que importa, por isso, colocar são: onde e em que condições é que esse aborto vai ser feito? Deve uma mulher pagar com risco de morte ou dano severo para a saúde essa decisão? Que legitimidade existe no enriquecimento feito com base no aborto clandestino?

2. E, já agora, deve a mulher pagar essa decisão com a prisão? Porque, como ficou amplamente demonstrado, efectivamente há condenações por causa do aborto. E que me desculpem os defensores de soluções intermédias: ou é crime e é penalizado ou não é penalizado e não é crime de todo. Porque, que sentido faz perpetuar uma lei que não é para cumprir? Que traduz esse incumprimento senão o seu radical alheamento da realidade e vontade social?

3. E agora que me desculpem alguns sectores feministas: não, o aborto não é uma questão de mulheres. Ou antes, é-o, mas não deveria ser, pelo menos não deveria ser equacionado como uma questão apenas de mulheres. E neste erro tanto os defensores do "sim" como do "não" têm caído. Claro que há questões de género no aborto, desde a desigual repartição dos cuidados com os filhos, aos desequilíbrios salariais. E, claro, o simples facto de ser no corpo da mulher que a decisão de ter ou não filhos assume uma violência "incarnada". Mas, a não ser que estejamos perante novos mistérios transcendentais, cada embrião tem dois seres humanos na sua génese. Onde estão os homens, no equacionar público desta questão? E, já agora, onde estão os homens condenados pela decisão de abortar (ou será - coisa conveniente - que todas as mulheres condenadas por aborto em Portugal decidiram sozinhas, sem participação ou conhecimento dos respectivos parceiros?).

4. Finalmente, o que sinto como uma última verdade, para mim própria inconveniente: por muito que os defensores do "sim" a evitem - e eu, como defensora do "sim", compreendo a estratégia -, a questão da vida humana é de facto relevante. Porque, se entendermos o embrião como igual a uma pessoa - se acreditarmos mesmo nisso -, então o aborto apenas se justificaria em situações de risco de vida da mãe. Porque apenas aí estaríamos a falar de valores de igual ordem moral. Mas será que acreditamos mesmo que um embrião é uma pessoa? Reagimos da mesma forma ao aborto espontâneo às 10 ou 12 ou até mais semanas como reagiríamos à morte de um recém-nascido? Sofremos da mesma forma? Ritualizamos da mesma forma a sua perda? Alguém pode, em consciência, dizer que sim?


Artigo de opinião assinado por Carla Machado, professora universitária, no Público da última quinta-feira. (Deu-me um trabalhão copiar isto do papel - embora valha a pena - graças a quem decide que a edição impressa do jornal apenas deve estar acessível on-line para assinantes. Só maçadas...)

Acrescente-se ainda outra coisa óbvia: é mais fácil levar uma mulher (ou um casal) a desistir de abortar se se souber que é essa a sua vontade. Caso contrário não há muito que se possa fazer, a não ser nas urgências dos hospitais. Sangue por todo o lado.

A razão pela qual não gosto desta discussão

"(...)Não é a questão da IVG/aborto de natureza tão íntima que se dispensa um alarido público? Aliás, ao partido socialista faltou a coragem para resolver este assunto em sede própria: a assembleia da república. Ao pretender convocar um referendo, José Sócrates criou espaço, mais uma vez, para a banalização de um assunto que tem muito pouco a ver com o espaço público. A IVG/aborto e a constituição europeia não são da mesma natureza política. De facto, o primeiro tem muito pouco a ver com política e tão só com o direito à privacidade, como foi reconhecido, há mais de 30 anos, pelo supremo tribunal norte-americano." (João Caetano, em A Metamorfose)

Agora não temos outro remédio senão VOTAR. Contra a abstenção, marchar, marchar. Se o SIM ganhar, não vou ter vontade de festejar. Não se ganha nada. Perde-se é menos.

Causas pequeno-burguesas (pré-ocupação)

Caro JPH: as creches nas empresas para os filhos dos empregados só podem aumentar a produtividade, porque reduzem a preocupação dos pais. Já há muito tempo que deviam ser obrigatórias por lei. Apoiado!

sábado

Planeamento familiar

Não tenho filhos; hei-de ter. Nunca estive grávida. Se alguma vez abortei, só pode ter sido metaforicamente.

quinta-feira

Do Vil Pudor (actualizado)

Já que ando numa de ecumenismo (ou será "ecumenicidade"?), letra P... Pastoral Portuguesa. O anagrama com o nome do meu blogue é tão perfeito que até dói. Ui, ui. Outro exemplo do brilhantismo anagramático do Rogério: O Feto Grandote.

quarta-feira

Replay

Não custa nada, Luís. Sai Tindersticks e volta o ritmo contagiante da Elis. Não sei se vais gostar da música, mas sou incapaz de recusar pedidos de bichos do ... err, de pessoas gentis por quem tenho a maior estima.

terça-feira

Pandora, say bye

Há caixinhas que devem permanecer fechadas. Não lhes queremos ver o fundo.

Confession of faith

(...)
- Someone's died, after all!
- You know, Betty, actually, no one has died... Actually died.
- Well, if no one has died, that must mean it's you. [pause] But if you feel like you're going to die, I'd rather be with you. No question. [pause] In fact, I'm flattered to be here. When I died, there was no one there. I had to go through the whole thing on my own. [pause] Ok, I did, but a bit company won't hurt.
- Perhaps I should be getting back...
- [Betty opens a beer; gives it to Claire] So, in principle, if you´re serious, you have a program the day you die. [Betty opens a beer for herself] Having a laugh with dickheads... We did that last night. [Betty laughs] Then comes going to tell someone something, something you're dead set on, good or bad, something you've never said. 'Cause on the day you die, you have total freedom of speech. In principle...
- I met a man. Not like me, I don't know how to use my energy, but he does. He's really determined. And then one day, he found out how to turn it against me. Just like that, he took back everything he'd given me. That's what he wanted, I think. To screw everything up. [takes a sip] And it worked. Between the two of us, it worked.
- Oh yeah...
- What was it, the day you died?
- It's in the past... It's behind me now. [laughs] There's no more to say about it. [laughs] Thank God... [Betty and Claire laugh and take a sip of beer]

You shouldn't take it so literally

Quando a atenção que se dispensa é evidente, a ligação torna-se desnecessária. Same as it ever was.

Mind the gap

As pessoas que tomam desejo por solidão estão a tentar enganar-se a elas próprias e, pior ainda, estão a tentar enganar os outros. Shame on you.

Blogues, letra T

Trento na Língua, starring Miguel Marujo, Samuel Úria e Tiago Cavaco (este já nem leva linque senão entupo-lhe o technorati), entre outros escribas.

Diário de Sarita

O meu portátil pesa toneladas. É absurdo, eu sei, mas quando o comprei tive mais olhos que costas. Para além disso, estou farta de pagar contas de internet excessivas, porque ultrapasso sempre os limites de tráfego, nacional, internacional e o raio que os parta. Como também estou farta de desembolsar €22,49 por mês por uma TVcabo que practicamente está sempre desligada, desconfio que o bichinho pesadão (mas muito querido!) vai passar a dormir fora de casa nos dias úteis, e que em substituição passo a fazer zapping frenético à noite, quando não tiver melhor programa. Assim, poderei andar formosa, segura e ligeira, de metropolitano. Hoje não fui afectada pela greve, mas na próxima semana (dias 7 e 9 de Novembro) terei de pegar no carro e de me meter no trânsito infernal. Aos fins-de-semana havemos de matar saudades. E amanhã é feriado, bebé, não chores.

Apercebi-me de que estou pertíssimo da minha antiga escola, onde andei durante... deixa cá ver... 5º, 6º, 7º... sete anos. Um dia destes à hora de almoço vou fazer uma visitinha aos Jesuítas. Será que ainda se lembram de mim? Espero que me deixem entrar.

segunda-feira



Não me incomoda nada que me chamem "Sarita", acho graça. Mas "Sarita Montiel" foi novidade.

Resoluções para esta semana

Mergulhar de cabeça no novo trabalho e cortar a franja, senão vai ser difícil ver o que ando a fazer. E já chega de posts.

Na cauda da Europa (I)

"As betinhas de Paris têm muito mais pinta que as de Lisboa. Enquanto que as meninas típicas de Lisboa têm todas o cabelo cor châtaigne, colete-agasalho preto, camisola verde, branca ou azul de gola-alta, calças de ganga azuis claras e os sapatos-botas pretos de sola grossa para ganhar centímetros, as francesinhas têm o cabelo escuro lisinho, camisola de cachemira cinzenta clara, calças de ganga escuras muito fininhas e as inevitáveis sabrinas, ou sapatinhos de bailarina (pretos, cor-de-rosa, prateados). São todas branquinhas de pele, olhos claros e magrinhas, notando-se uma preocupação subtil com um toque de maquilhagem que acentue a sua inocência-chique com uma ponta de rebeldia clássica. São petites e gostam de o mostrar." (Francisco Valente, n'O Acossado)

Por falar em sabrinas...


(ilustração de Milo Manara)

... que é feito da Salerno?

Na cauda da Europa (II)

"Ainda Paris, ainda as mulheres. Talvez seja ainda dos restos de uma timidez adolescente, ou do meio social lisboeta em que, geralmente, as namoradas não começam por estar ao mesmo nível que os amigos. São as namoradas e pronto. Não há muito interesse para além disso, e as próprias senhoras solteiras preferem ignorar a conversar. Por isso, depois de uma pequena saída ao Piano Vache com cerca de dez pessoas, uma miúda bem gira, do nada, resolve interessar-se pela minha vida, e já na despedida, pergunta-me se estou em Paris définitivement e se nos vamos ver outra vez. Em Lisboa, uma miúda que fizesse algo parecido estar-se-ia a atirar descaradamente a um homem. Mas aqui, somos todos livres e iguais. Para um atrasadinho cultural como eu, vindo de onde venho, parece que se vive, nesta cidade, em flirt permanente. Peut-être, mais pas vraiment." (Francisco Valente, n'O Acossado)

Banda sonora

No filme de Sofia Coppola, "Marie Antoinette", o aspecto que me parece menos importante é a alegada falta de rigor histórico. E o mais interessante, o anacronismo musical.

O mais importante, embora por comparação menos interessante, é o rigor com que se conta a história (com minúscula). Mas aqui, acho que já não estou a falar de cinema.

Liberdade, igualdade, fraternidade e …

As pessoas que costumam visitar o meu blogue sabem que não costumo escrever "foda-se", uma palavra com grande impacto, tanto sonoro como visual. Só que um "palavrão" às vezes é preciso. Reorganiza as coisas. Me liberta.

Da infidelidade (out of the blue)

A dignidade de uns acaba na alcova de outros.

Sustentabilidade estética

- Tem preferência pela cor?
- Qualquer uma, menos azul-cueca.

Poesia no sitemeter

Houve alguém que veio parar ao meu blogue através do google em busca de "acessórios dias felizes".

Black is beautiful

Quando li isto, lembrei-me de Elis Regina. Há uns anos ofereceram-me a coletânea de música brasileira Samba Soul 70! (o ponto de exclamação faz parte), editada na Bélgica. É de lá que conheço a canção. Ontem encontrei o Luís e falei-lhe no "Bicho do Mato". Ele perguntou-me onde é que se podia ouvir. Ora, um blogue também serve para isto.

Rapaz(es)


Manuel Mesquita, foto(s) de rodagem Nuno Faria

A curta-metragem de João Nicolau ainda pode ser vista esta semana, na sala 2 do King. E se não digo mais nada sobre este filme é, sobretudo, por pudor.

Eu-femismo (intentional error)

"Huh? There are blogs, and then there's whatever you just typed in. If it's a blog, we don't know about it. Maybe you made a typo. Or maybe it's a blog that doesn't exist. Maybe you don't exist. (In which case, please ignore this.)"

O Technorati no outro dia saiu-se(-me) com esta. Tentei ignorá-lo. Não consegui. Talvez eu exista.

Blogues, letra V

O Voz do Deserto é o meu preferido. E o Vício de Forma... enfim.

Dos Faíscas aos Corpo Diplomático

Pedro Ayres Magalhães tem um lugar de honra no meu ranking de "panque-rockers" mais giros de sempre. À saída da Culturgest, depois de ver o documentário "Brava Dança" na última terça-feira, quando o apanhei a olhar na minha direcção (mas não para mim), não foi possível evitar esboçar-lhe um sorriso. E ele, gentilmente, retribuiu. Madre de Dios, ganhei a noite.

terça-feira

Arquivos



Hoje, no doclisboa, às 21h. Tem blogue.

YES, pardon my french

Discutir o aborto, discutir o aborto... Já não há paciência, foda-se. (Salvo seja, que daí ainda pode resultar uma gravidez indesejada.)

A outra pessoa

- Engravidou.
- De quem?

Curta

Era tão imaturo que nunca passou de espermatozóide.

Quase cristã

Uma bofetada. Devo fingir que sim, que dói: é caridade. Depois, em vez de dar a outra face, viro costas. Mas não fico à espera do açoite, tenho mais que fazer. I'm really not into S&M.

Hiper-realismo

Em Fevereiro de 2003, lia-se no Público:

"(...)fazem sempre a Chéreau perguntas sobre teatro ou pintura. Os corpos nus são uma referência às representações pictóricas da figura de Cristo? - é uma das que mais se têm ouvido. Ele reafirma que quer fugir disso como o diabo da cruz e mergulhar na realidade.(...)"

As (mais belas) cenas de sexo

Patrice Chéreau é francês e filmou Intimacy (cf. fotograma) em Londres, com actores (de teatro) ingleses. Um casamento feliz.

quinta-feira

Shakespeare's underground


»»» Mark Rylance

terça-feira

Global doubt

Na Wikipedia consta que: «(...)[Homi K.] Bhabha has been criticized for using "indecipherable jargon" and dense prose.(...)» Não confirmo nem desminto, porque nunca li nada que ele tenha publicado. Mas fui ouvi-lo ao final da tarde da última quinta-feira na conferência inaugural d'O Estado do Mundo e achei que, para além de ser um bom orador e de ter sentido de humor, foi bastante claro na sua exposição. Posso dizer, de forma resumida e parcial, que falou na necessidade de revisão do conceito de "minorias", da importância (hoje mais do que nunca) da "interlocução" na negociação de interesses e de identidades, do direito à narrativa "and to be heard", e de uma outra ideia-chave (sua): a ambivalência(...). Citou Ian McEwan, leu um excerto do poema September 1, 1939 de W.H. Auden, e um outro retirado de An Atlas of the Difficult World (1993) de uma autora que desconheço, Adrienne Rich. E deixou-me a pensar na dicotomia(?) "Technological Connectivity" vs "Cultural Connection".

Uma espécie de terrorismo


Zerkalo, 1974

"Tarkovsky é provavelmente o meu realizador preferido. Gosto de todos os seus filmes, mas O Espelho é o meu favorito. Acho que é o seu filme mais pessoal; está lá quase tudo. Nunca vi um filme do Tarkovsky numa sala de cinema. E isso é uma espécie de terrorismo de que não te sei falar. Este país praticamente não existe fora de Lisboa." (de um email que recebi do Alexandre em Maio de 2004, a propósito de um post que eu tinha feito sobre esse mesmo filme no meu ex-blogue)

In July 1984, Andrei Tarkovsky attended a press conference in Milan where he announced to the world that he would not return to the Soviet Union. When a journalist asked him if he would be seeking political exile in Italy, Tarkovsky answered: "I'm telling you a drama. You cannot ask me bureaucratic questions. Which country? I don't know. It's like asking me in which cemetery I wish to bury my children..."

Também acho

Existem os "opinion-makers" e depois existem os "opinion-takers".

segunda-feira

Gemini-Shyamalan

"Tende a entrar numa fase de boas concretizações. No plano afectivo pode encerrar um ciclo e encontrar um novo sentido para a vida sentimental; saia, conviva e dê novas oportunidades aos outros e a si mesmo. No plano material liberte-se de pensamentos negativos, conseguirá obter bons resultados. Alguns problemas laborais e financeiros serão definitivamente ultrapassados. Cuidado com perdas de peso acentuadas." (15/10/06)

O tarô domingueiro na revista do Público ainda é das poucas coisas que se aproveitam do jornal nos dias que correm. Mas, apesar do optimismo da Maya, não acredito que as minhas habituais dificuldades em poupar dinheiro acabem tão cedo. Por outro lado, é com grande facilidade que pratico economia de palavras: A Senhora da Água é uma treta pseudo-visionária-místico-sentimentalóide. Uma seca.

Il Deserto Rosso (1964)

"(...)Os enquadramentos, os movimentos de câmara, a fotografia, são de tal maneira perfeitos que sufocam tudo o resto. O enredo é menos a narrativa do que as imagens.(...)"

Plot detail (a cores)

Só pelo porte aristocrático de Monica Vitti, a sua beleza formal e o guarda-roupa que Antonioni lhe reserva, o filme já valeria a pena. O casaco verde até aos joelhos, com que ela aparece vestida nos primeiros minutos, deixou-me logo rendida.

Re: Please stop, don't stop

Tu dici: cosa devo guardare? Io dico: come devo vivire? E la stessa cosa.

sexta-feira

Marcha numa roda gigante

Os vermes, os gatos, os carros, os prédios, a espera, os pátios, os jogos, as lutas, os brutos, as pátrias, as sombras, os vultos, os estranhos, os mártires, os dias, as horas, as praças, os copos, os olhos, a íris, os beijos, a casa, a noite e os cacos, poemas e factos, os fados sem tema, o tempo quebrado, a dor, e o dilema: no fundo do mar. Lisboa, Lisboa, Lisboa: Lisboa no fundo do mar. Um dia, quem sabe, se homens, se aves, alguém virá para te encontrar, de ruas abertas, desertas, cobertas por sombras azuis e corais, num silêncio terno, eterno, imenso, de fachadas desiguais, de náufragos dias, saudades de pedra. Quem te vir assim, esquecida no mar, irá procurar-te a vida. E se então sonhar um tempo de amor, talvez pense em nós: querida.

(Quinteto Tati, Inventário Marítimo, álbum "Exílio", 2005)