segunda-feira

Il Deserto Rosso (1964)

"(...)Os enquadramentos, os movimentos de câmara, a fotografia, são de tal maneira perfeitos que sufocam tudo o resto. O enredo é menos a narrativa do que as imagens.(...)"

Plot detail (a cores)

Só pelo porte aristocrático de Monica Vitti, a sua beleza formal e o guarda-roupa que Antonioni lhe reserva, o filme já valeria a pena. O casaco verde até aos joelhos, com que ela aparece vestida nos primeiros minutos, deixou-me logo rendida.

Re: Please stop, don't stop

Tu dici: cosa devo guardare? Io dico: come devo vivire? E la stessa cosa.

sexta-feira

Marcha numa roda gigante

Os vermes, os gatos, os carros, os prédios, a espera, os pátios, os jogos, as lutas, os brutos, as pátrias, as sombras, os vultos, os estranhos, os mártires, os dias, as horas, as praças, os copos, os olhos, a íris, os beijos, a casa, a noite e os cacos, poemas e factos, os fados sem tema, o tempo quebrado, a dor, e o dilema: no fundo do mar. Lisboa, Lisboa, Lisboa: Lisboa no fundo do mar. Um dia, quem sabe, se homens, se aves, alguém virá para te encontrar, de ruas abertas, desertas, cobertas por sombras azuis e corais, num silêncio terno, eterno, imenso, de fachadas desiguais, de náufragos dias, saudades de pedra. Quem te vir assim, esquecida no mar, irá procurar-te a vida. E se então sonhar um tempo de amor, talvez pense em nós: querida.

(Quinteto Tati, Inventário Marítimo, álbum "Exílio", 2005)

terça-feira


Jean-Antoine Watteau, Les Plaisirs du Bal (c.1717)

Commotion

O Ricardo promete grandes canções na próxima quinta-feira, para afogar as mágoas republicanas. Provavelmente, irei de sabrinas e direi salut! a toda a gente.

Liberté et égalité

A relação entre quem escreve num blogue e quem o lê parece-me justa. Os primeiros são tão exibicionistas quanto os segundos voyeur(ista)s.

domingo

Comic strip

Une négresse
Qui buvait du lait
Ah! se disait-elle,
Si je le pouvais
Tremper ma figure
Dans mon bol de lait
Je serais plus blanche
Que tous les Anglais

Un Britannique
D’vant son chocolat
Ah! se disait-il,
Et pourquoi ne pas
Tremper ma figure
Dans ce machin-là
Je serais plus noir
Qu’un noir du Kenya

Une intellectuelle
Qui buvait du thé
Ah! se disait-elle,
Si je le pouvais
Tremper ma figure
Dans ma tasse de thé
Je serais plus jaune
Qu’ les filles du Yang-Tsé

Un Américain
Qui buvait du sang
Ah! se disait-il,
Si j’avais le temps
D’ tremper ma figure
Dans mon bol de sang
Je serais plus rouge
Qu’un Mohican


(Serge Gainsbourg)

Frase aforística

As mulheres de sorriso amarelo devem ser cumprimentadas em mandarim. (HR)

Gostar de sabrinas é francofilia



N'importe quoi.

Shostakovitch

Leio no Yesterday Man que as "114 primeiras dificuldades" para pôr música no blogue foram ultrapassadas autonomamente. That's my man! - sem pedir ajuda a ninguém, e muito menos a mim. No entanto, e sem exigir dízimo, permita-me a sugestão: para colocar música (o tal código endiabrado) num post, em vez de o fazer no template, basta assinalar a opção "Stop showing HTML errors for this post", depois da primeira tentativa de publicação, e verá que a coisa funciona. Mas não me pergunte porquê, porque, obviamente, não lhe saberei responder.

[Só não me ofereço para "uploadar" mais mp3 alheios, porque a minha generosidade tem limites: 15 MB, para ser mais específica, ainda que eu os utilize até ao último byte disponível. Como tenho neste momento dois convidados (o Morrissey do Pedro Mexia e uma versão reggae-brasilófila dos Beatles para a Batukada), o espaço não dá para mais. Désolée.]

Blondie joke


(recebido por email)

sexta-feira

Desmaterialização



"Frases para ter na carteira" (Livramento, 2006) está à venda na Livraria Ler Devagar (ao lado da Galeria Zé dos Bois), no Bairro Alto (pois onde é que haveria de ser?). Para mais informações, por favor, contactar livramento@xsmail.com. Obrigada.

segunda-feira

Convite



Nota: O miradouro de Santa Catarina fica perto do Bairro Alto, em Lisboa. Também é conhecido por muita gente como "Adamastor".

Intro

"Podia começar com uma citação espirituosa, mas deixemos isso mais para a frente.
Este pequeno livro reúne uma colecção de aforismos (com aspas, claro) da autoria de um grupo de pessoas com sensibilidades diferentes. Algumas destas frases para ter na carteira (ou onde der mais jeito) já foram publicadas na internet, em blogues, onde o registo aforístico tem sido largamente explorado. Outras são originais, próximas de poemas ou de histórias curtas.
A selecção e a organização das frases aqui publicadas resultam da minha livre associação de ideias. Foi um trabalho de (re)corte e colagem. As ilustrações foram escolhidas posteriormente pelo José Albergaria.
Agradeço às pessoas* que emprestaram as suas peças para este jogo proposto pelo Nuno Costa Santos, através da Editora Livramento, aberto naturalmente a todos os leitores.
Caso não fiquem satisfeitos, não aceitamos devoluções. Sobretudo de carteiristas." - Sara Pais, Junho de 2006

*Por ordem alfabética: Alexandre Borges, Bernardo Rodrigues, Carlos Bessa, Daniel M., Eduardo Nogueira Pinto, Helena Ayala Botto, Hugo Rosa, Inês Fonseca Santos, João Sedas Nunes, José Bandeira, José Mário Silva, Luís Filipe Borges, Maria, Pedro Mexia, Pedro Vieira, Rafael Miranda, Ricardo Jorge, Rodrigo Moita de Deus, Rui Branco, Sérgio Faria, Tiago Cavaco, Tiago Galvão e Urbano Bettencourt.

Coordenação de texto: Nuno Costa Santos; Selecção e organização: Sara Pais; Concepção gráfica: José Albergaria.

Escritura

"O acto de escrever é, em si, um exagero assinalável." (TC)

AAVV, Frases para ter na carteira, Livramento, 2006, pág.9

Comunicando com o aforismo

"Tenho o fragmento no sangue"
(Cioran)


"A escrita que se encontra hoje nos blogues é velha como o tempo, embora o tempo pregue partidas, transformando as coisas noutras muito diferentes.(...)O "post curto" gera uma tensão sobre o espaço das palavras, acentua a utilização estética da frase, em combinação com o título e com outros elementos gráficos.(...)No "post curto" a escrita vai desde a mera frase com uma ligação, ou seja, uma porta, um caminho que nos leva para longe daquela página, daquele ecrã até à entrada diarística, impressionista ou faceta, até ao mini-ensaio, pouco mais do que o aforismo. É uma escrita que favorece, comunicando quer com os títulos de jornais, quer com o aforismo, a utilização de mecanismos poéticos, mas também humorísticos e sarcásticos.(...)"


José Pacheco Pereira, Público, 22/06/06

Sem título



Frases, papel e caneta, tesoura e bostik. Estudo para livro.
(clicar na imagem para aumentar)

domingo

Pró-cinema-israelita

Amos Gitai, realizador com formação em Arquitectura, que começou a filmar quando servia na Guerra de Yom Kippur, vai ter uma retrospectiva no doclisboa 2006. Na sessão de abertura, dia 21 de Outubro na Culturgest (ainda falta um bocadinho), vai ser exibido o filme News from Home/News from House (2005), deste cineasta israelita altamente recomendável. Tive oportunidade de ver o documentário, em casa há duas semanas atrás no leitor de DVD, onde são entrevistadas várias pessoas de origens diferentes. Há uma senhora palestiniana (a da imagem em cima) com cerca de oitenta anos, percebe-se que nascida no seio de família abastada e conservadora, sorriso e olhos radiantes, que passou grande parte da sua vida em itinerância. (Se não me engano, agora vive na Cisjordânia.) Gitai pergunta-lhe a certa altura, perante o seu discurso liberal, e alegre apesar de tudo, se alguma vez usou véu para tapar o cabelo. Ela responde assim (e cito de memória): "Quando não se confia nas mulheres, elas tornam-se más. Quando se confia, elas tornam-se boas. O meu pai sempre confiou em mim, por isso sempre fiz o que quis." Apaixonou-se, casou. Nunca usou véu.

Barrete

Comprei (e li) ontem o novo semanário Sol pela primeira vez. Na página 67 do caderno principal apresenta-se um questionário chamado "Janela Indiscreta", dirigido a Marisa Cruz. A pergunta que leva o prémio de maior cretinice é: "Se se apaixonasse por um muçulmano, aceitaria usar uma burka?" Sintomático.

BA: uma questão afectiva

"(...)passei uma parte importante da minha vida no Bairro Alto(...)apetece-me dizer que me custou imenso ler os posts que, nas últimas semanas, se foram multiplicando pela blogosfera.(...)Certo é que houve um tempo longínquo em que era possível apaixonarmo-nos por uma pessoa num só dia e rebolarmos pela calçada, sem ninguém dar por isso e sem pensar na possibilidade de sermos interrompidos por uma qualquer montanha de lixo."

A mim, Carla, apetece-me dizer que tenho passado uma parte importante da minha vida no Bairro Alto e que tudo continua a ser possível. Basta estar in the mood for e evitar rebolar pelas ruas mais agitadas.

A propósito: "várias famílias" gostaram muito de ouvir o Luís a passar música no sítio do costume. Recordo, em particular, a sequência ABBA-The Magnetic Fields. Também bebi caipirinhas ao som de Blondie ("The tide is high"). E o que choveu nessa noite...

In between

Le Jazzy Fante enviou outra versão de "Heart of glass" (clicar no linque para abrir o ficheiro), tocada por The Bad Plus. Obrigada! Parece-me que a música nunca circulou tão livremente como hoje em dia. (Batukada, do you read me? Enviei-te email.)

quarta-feira

Pergunte-me como

Não percebo patavina de HTML (vide o meu template originalíssimo), mas, por tentativa e erro, com a ajuda de outros bloggers que me transmitiram os seus igualmente escassos conhecimentos de informática e de um rapaz simpático que trabalha no apoio técnico da Netcabo, que certo sábado à tarde atendeu o telefonema de uma rapariga caprichosa que queria à viva força meter a tocar no blogue os mp3 que tinha no computador, graças a estes contributos, dizia eu, cá me arranjo. Por isso, estou a pensar dar um workshop para todos os que desejarem conseguir semelhante proeza. A inscrição é gratuita para o Pedro Mexia (a.k.a. Morrissey quando está "zangado com o mundo"), uma vez que o blogue dele, o Estado Civil, em que sou viciada, acaba de completar um ano de existência. Que o interregno seja breve.

(Mais informações, aqui.)

segunda-feira

Eu hoje...


Mushaboom (2004)

... acordei a pensar como terá sido para a Leslie Feist (cf. vídeo), a viver agora em Paris, partilhar uma casa com a Peaches em Berlim. Duas meninas (pós-punk) canadianas tão diferentes. Será que faziam escalas para lavar a loiça? Ou simplesmente partiam-na toda? Se calhar tinham máquina.

Entre o pré-punk e o pós-punk, onde fica o panque-roque?

Aqui.

Minoria blogosférica

Devo ser das poucas pessoas que no último sábado não comprou nenhum jornal. Levantei-me tarde.

sábado

Download


Peaches, 26/09/06, Paradise Garage, 21h

Le Fante compreende-me.

Hotmail

«Gostava muito de saber o nome deste extraordinário instrumento. No outro dia, inclusivamente, estive com um nas mãos sem nunca o chamar de nada. Ora, não se admite. Por esta razão e como tal, chamar-lhe-emos, neste texto e excepcionalmente, de ringustá. Muito obrigada.»

Batukada: eu tenho espaço na internet para alojar a tua versão de Eleanor Rigby - Cássia Eller (não conheço). Posso fazer-te um upload do mp3. Salvo seja.

A causa foi inventada

Não confundir criatividade com Criacionismo.

Um refrão que não envelhece

All the lonely people, where do they all come from?
All the lonely people, where do they all belong?

Grafito pág.10

«Os blogues são o tuning da burguesia.» (Bernardo Rodrigues)

AAVV, Frases para ter na carteira, Livramento, 2006

BAA (Bairro Alto Anonymous)

Nasci em 77. Sou uma menina pós-punk.

quinta-feira

You may not touch but you can look



Lembro-me que da primeira vez que fui a Londres, devia ter uns doze anos (1989?), uma das coisas que me deixou fascinada foi conhecer a Sock Shop, hoje uma loja banalíssima, que também abriu entretanto em Portugal. Nunca tinha visto nada assim: havia meias de todas as cores e feitios, para todos os gostos, ou pelo menos foi essa a impressão que me ficou.

(I get it, T.)

quarta-feira

Soprano talk



Every day is a gift... But does it have to be a pair of socks?
(Tony, entediado, após recuperação total de um pâncreas desfeito à bala, em sessão com a psiquiatra.)

Body works

Gostava de fazer uma tatuagem, há já muito tempo, numa zona do meu corpo onde se pudesse tornar perfeitamente visível sempre que necessário. A mensagem seria clara, objectiva, inequívoca: "allergic to penicillins and quinolones".

terça-feira

Cada um na sua pele

Quando penso no "Onze de Setembro", de imediato salto para o dia 12 de Outubro de 2002 e deixo para mais tarde as implicações para o Estado do Mundo.

Nesse dia também houve um atentado terrorista, que fez explodir uma bomba numa discoteca de Bali, Indonésia, e que matou cerca de duzentas pessoas, maioritariamente turistas. Os meus pais, em viagem, encontravam-se hospedados a algumas centenas de metros do local da explosão. Depois de ouvir a notícia "de última hora", entrei em pânico. Seria altamente improvável que eles estivessem na tal discoteca, mas nunca se sabe.

Nos anos 80, quando Indira Ghandi foi assassinada por sikhs, os meus pais estavam na Índia. Lembro-me de ver a minha avó, passada, a andar de um lado para o outro e a resmungar entre dentes: "Inconscientes, não se querem vir embora dali...". O Norte da Índia tinha entrado em convulsão, com hindus a matar sikhs. Mas os meus pais estavam no Sul, claro que não lhes aconteceu nada. Depois, embora hoje em dia já se tenham deixado de aventuras todo-o-terreno, desde que capotaram o jipe no meio dum deserto qualquer, não há tantos anos assim, com o meu pai (maluco) a conduzir, acidente do qual, felizmente, acabaram por sair ilesos, já não excluo nenhuma hipótese.

12 de Outubro de 2002. Sozinha em casa, aquilo mais parecia uma redacção de jornal. Televisão, rádio, internet, tudo ligado ao mesmo tempo. Telefonemas. Nada. Horas depois, consegui finalmente sossegar. Estavam a dormir, não tinham dado por explosão nenhuma.

Na manhã do dia 11 de Setembro de 2001, os meus pais podiam estar em Manhattan, de visita às Twin Towers. Também podia ser eu ou amigos meus. Ou um primo afastado. Ou milhares de pessoas que eu não conhecia, americanos ou estrangeiros, que era de facto quem lá estava. Em teoria, vai dar ao mesmo. Na prática, não.

segunda-feira

Still



posted by sara # 9:00 PM

[http://desassossegada.blogspot.com, 11 de Setembro de 2004]

Há dentro de mim uma lembrança,
pedra branca no fundo de um poço,
já não posso, já não quero lutar:
ela é sofrimento, alegre alvoroço.

Acredito: quem olhe bem de perto
nos meus olhos a possa vislumbrar.
E cisme mais triste do que ouvindo
uma história de saudade e pesar.

Diz-se que os deuses mudavam os homens
em coisas, sem matar-lhes a consciência,
para que vivesse a maravilhosa
tristeza. E ficaste-me lembrança.


[Verão de 1916, Sliepniovo]

Anna Akhmátova, SÓ O CHEIRA A SANGUE, trad. Nina Guerra e Filipe Guerra, Assírio & Alvim, 2000

posted by sara # 9:00 AM

[http://desassossegada.blogspot.com, 11 de Setembro de 2004]

domingo

Consciousness fiction

«A seriedade é um continente misterioso do corpo que serve para esconder os defeitos da mente.»

Laurence Sterne, The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman, citado por Vila-Matas.

Shandy


Marcel Duchamp, Boîte-en-valise

(...)Mas miniaturizar é também ocultar. Duchamp, por exemplo, também se sentiu sempre atraído pelo extremamente pequeno, quer dizer, por tudo o que exigisse ser decifrado: emblemas, manuscritos, anagramas. Para ele, miniaturizar significava também tornar inútil: «O que está reduzido encontra-se de certo modo livre de significado. A sua pequenez é, ao mesmo tempo, um todo e um fragmento. O amor pelo pequeno é uma emoção infantil.»(...)

Enrique Vila-Matas, História Abreviada da Literatura Portátil (1985), trad. José Agostinho Baptista, Campo das Letras, 2006

Girl talk

- Estou na praia! Não queres vir cá ter?
- Estou no café de esquina da minha rua. O Paul Auster também. Não queres vir cá ter...?

Só conheço um dos livros de ficção que escreveu (Oracle Night, Faber & Faber, no original). Não me tornei fã. Lulu on the Bridge, o filme que realizou em 1998, tão pouco me tinha deixado entusiasmada. Mas confirma-se: o homem é bonito que se farta, mesmo quando não tira os óculos escuros. Fingi que não reparei.

sábado

Não sei porquê, confundo-as


Romy Schneider (1938-82) & Simone Signoret (1921-85)

Arquitectura de interior(es)

Um dia escrevi um post curtinho que se chamava "falta de pudor". Dizia que as paredes da minha casa eram brancas, estavam nuas e eu gostava delas assim. Por causa disto, uma amiga que estava a pensar oferecer-me um quadro, desistiu da ideia.

Eu estava a falar do template do blogue... Não da minha casa.

(para a Joana)

Proverbi

Non c’è sàbbutu senza suli, non c’è fimmina senza amuri. (Non c’è sabato senza sole, non c’è donna senza amore.)

Tradução livre, já que não sei italiano, muito menos dialecto siciliano: "Uma mulher sem amor é como um sábado sem sol."
Estará certo?

The road to Gibellina



Foi difícil de encontrar, mas também lá conseguimos chegar:

(...)The earthquake destroyed the whole village in 1968. The artist Alberto Burri buried half the ruins in concrete, retaining the line of the streets, covering the blocks of houses to about six feet.(...)

(...)We could see the road across the valley from the ruins and Burri's concrete "creto" - it would give a good view of the ruins. But we couldn't find the road. There was no one around to ask. We drove along a few field tracks following the topography, up over the crest of the hill, and there it was - a 100 yard stretch of road, coming from and leading nowhere.(...)


Fotografia e texto do photoblog colectivo Archaeography.

quinta-feira

A luz ao fundo (parêntesis)



A Sicília é uma ilha acidentada. As estradas têm muitos túneis, alguns de 300 metros, outros de mais de um quilómetro (tinha de engolir em seco porque sou um bocadinho claustrofóbica), frequentemente com pouca distância a separá-los. E durante o dia, a luz natural vai e vem.

Todos os túneis são baptizados. É claro que quando se lê numa placa que há um que se chama "Carbonara" (desconheço se a palavra significa alguma coisa para além da referência culinária), começa-se a pensar que quem planeou a rede rodoviária siciliana a certa altura terá ficado sem imaginação (ou antes pelo contrário) e decidiu nomear túneis em honra do "primi piatti" do jantar da noite anterior. Também me questionei sobre quem terá realmente subsidiado tanta perfuração de montanha... Talvez aquela organização simpática cuja designação começa por "M" e acaba em "ÁFIA" (piada com direitos de autor).

Outro nome que achei curioso, digamos assim, estava numa saída de auto-estrada, que indicava a direcção para Tusa. (À especial atenção do Tiago.) O mapa não me deixa mentir!

Mas também não era aí que queríamos chegar.

Enquanto a M. dormia no banco de trás como um anjo, e eu conduzia (reparem na suavidade do pisca-pisca a marcar o ritmo da ultrapassagem), a I. fez alguns vídeos curtos com a máquina fotográfica (uma Leica do tamanho de um maço de tabaco, objecto de culto, lindo). Com a ajuda do YouTube, deixo aqui um desses registos espontâneos de 30 segundos cujo resultado gosto muito.

(Já em Lisboa os túneis são outros. Esta madrugada pareceu-me ver uma luzinha. Deve ter sido do calor.)

segunda-feira

Silly season (rentrée)


(a monte nos escaparates turísticos)

Em Palermo fui sequestrada pela Máfia. Não se sabe porquê, mas desconfia-se que não foi pelos meus lindos olhos. Na origem do sequestro poderá ter estado o facto irritante de eu tentar falar espanhol em vez de italiano, sempre que abria a boca para comunicar com os locais.

Como resgate, foi exigido às autoridades que disponibilizassem de imediato várias toneladas de mozzarella de búfala, pasta fresca e tomate seco. Caso estas exigências não fossem satisfeitas, ameaçaram obrigar-me a visitar todas as catedrais e igrejas (barrocas ou não) existentes na Sicília, e, no pico do calor, todas as ruínas gregas e romanas com mais de três pedras alinhadas. Em alternativa, atiravam-me para dentro do vulcão Etna.

Sem ceder às chantagens, os Carabinieri conseguiram salvar-me numa complexa operação que envolveu azeitonas, figos da Índia e a motoreta da Dona Giuseppina – que, a propósito, manda os seus melhores cumprimentos à Dona Bina.

Honey, I'm home.

quarta-feira

Sicily season



Boas férias e até breve.

Ficção x Realidade

Vou perder os próximos episódios dos Sopranos, mas...

CORLEONE (PALERMO), 9 AGO - Continuano i rilievi della polizia scientifica a Corleone, dove ieri sono stati trovati resti umani tra cui due teschi. Le ossa si trovano in quello che potrebbe essere stato un cimitero di mafia, nell'anfratto di contrada Acqua di Pieta'. Uno dei due teschi ha un foro sopra l'arcata orbitale sinistra che potrebbe essere stato provocato da un proiettile di pistola. Le ossa umane sarebbero state individuate da un cacciatore che cercava origano.

(Fonte: ANSA)

terça-feira

Silly season

1. Orientação sexual: «Vertical quando estou deitado. Horizontal quando estou em pé.» Pif-paf.

Antidepressivo

As primeiras três séries das Absolutely Fabulous estão editadas em DVD e uma dessas caixas está em minha casa, para ficar. Já revi quase todos os episódios, rebolo a rir e relembro um comentário (e o post) da Triciclo Feliz em Março do ano passado: «eu deliro com isto! acho que os sopranos é, provavelmente, a melhor série de sempre; o doido por ti, a série com que mais me identifiquei; a liga de cavalheiros, porque é um requinte de malvadez; o the office porque é um assombro a apanhar a mediocridade quotidiana, mas esta série.. pah.. estas duas, porra, põem-me absolutamente bem-disposta.»

Bonjour tristesse

Não sabia, até ontem me terem dito, que Jean Seberg tinha tido um fim de vida tão triste. Pesquisei um bocadinho e encontrei (talvez) a explicação:

«(...)By 1960 Jean Seberg was a cultural icon herself in France, influencing the Parisian fashions every bit as much as Godard and Truffaut were influencing film. Her Hollywood performances, although never considered by Seberg herself to be of any consequence, were frequently stunning, and she was often compared to silent movie queen Louise Brooks for the intelligence that she brought to her roles. Her close friends included German born Fellini actress and model turned rock star Nico (they would later work together for Phillippe Garrell) and Russian intellectual Romain Gary (creator of Ghengis Cohn), who became her second husband.

In the late 1960s, Jean Seberg took more roles in Hollywood, most notably opposite Warren Beatty in Lillith. She also became increasing active in left wing political groups. Her support for the anti-racist movement the Black Panthers, along with that of Jane Fonda, was well known. But such was Seberg's influence, specially in Europe, that FBI director J. Edgar Hoover considered her a genuine liability, and, in 1970 when she was seven months pregnant, issued instructions that Seberg be "neutralised". Thus it was that a fake letter was "leaked" to the Hollywood gossip columns, suggesting that the father of the child was not Gary, but a member of the Black Panthers. The reaction so traumatised Seberg that she gave birth prematurely, and the child was stillborn. The next day Seberg called a press conference, where she presented shocked journalists with the body of her dead white child. The measure, though extreme, put an end to the rumours, but the FBI continued to hound Seberg until she eventually moved back to Paris.(...)»

O horripilante desfecho é descrito nesta biografia. Não houve consolação que lhe valesse.

sexta-feira

O Acossado



Um blogue que me prendeu a atenção, via BI.

Soprano talk (extra)

Divertiu-me a gralha - ao ponto de fazer uma nota que agora recupero - no destaque dado pelo jornal Público aos programas de televisão, no dia em que se anunciava o primeiro episódio da nova série sob a categoria "Entrevistas". Imaginei logo a SIC Generalista num acesso de demência concorrencial (e moralizante) a transmitir uma entrevista a Tony Soprano, conduzida por Maria João Avillez: Não acha que é errado matar pessoas?

P.S. Olá Luís, obrigada...

quinta-feira

The usual suspects



Em 2007 hei-de assinalar 30 anos de vida. Grande parte dos meus amigos, cúmplices de longa data, já o fez ou está a fazer este ano. Hoje é a vez do Daniel. Muitos parabéns!

(Não se deixem enganar pelas fotografias. Há mais mulheres no grupo, mas houve várias que pediram para não ser identificadas.)

terça-feira

Da série "ideias para t-shirts"

I DON'T DATE POETS

Soprano talk?



- They misquoted me.
- Of course they did. That's what they do!


Episódio 68, 6ª série: Mayham*
Carmela fica furiosa com AJ e grita com o filho quando vê no noticiário que ele falou com os jornalistas, à porta do hospital onde o pai está internado e definha, depois de ter sido alvejado pelo demente Uncle Junior, entretanto detido pelo FBI. Cá fora, a mulher de Silvio incita-o a tomar atitudes e posições de "Chefe de Família", agora que Tony Soprano está com os pés para a cova, e mostra como por trás de um grande mafioso pode estar uma grande mafiosa. Vito, disforme e homossexual não-assumido (retirado do contexto, este comentário seria considerado homofóbico), é repugnante. Espero que em breve alguém lhe limpe o sebo (literalmente). Chris e restante pandilha estão muito interessados em investir na indústria cinematográfica. Com um "filme de terror" de baixo orçamento pretendem fazer milhões, seguindo o exemplo dos "asiáticos". Para ajudá-los, ameaçam um argumentista (giraço, mas um bocado pretensioso) que é viciado no jogo e que lhes deve dinheiro. Querem que ele escreva uma história sobre um mafioso que morre e depois "regressa", não se sabe ainda se vivo ou morto, para se vingar dos que o traíram. Pouco depois desta reunião ter lugar, Tony regressa do sonho (excelente) em que personifica um vendedor bem sucedido de sistemas de aquecimento, de seu nome Kevin Finnerty, recentemente diagnosticado com Alzheimer. Na sequência da taquicardia provocada pela conversa de chacha, ou melhor, pelo monólogo de chacha, ou melhor, pelo ruído de Paulie, Tony recupera do estado de coma. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

E os créditos finais, que adoro ver correr no ecrã, ao som de um tema instrumental de Daniel Lanois, que desconhecia mas cuja sonoridade associo aos ambientes de Ry Cooder, "The Deadly Nightshead" (clicar para abrir o ficheiro e ouvir). Como sempre, uma selecção musical impecável.

*A que se refere o título deste episódio...? No meu dicionário Longman de inglês contemporâneo só encontro a palavra grafada de maneira diferente: Mayhem - an extremely confused situation in which people are very frightened or excited. Parece-me bem.

Adenda: A explicação da origem de "Mayham" chegou entretanto. No site TV.com pode ler-se, na secção trivia: «The episode title comes from a mispronounciation of Paulie's, who describes the raid of the Colombian drug house as "mayham".» Um assalto que resultou em tiroteio. Paulie safou-se, mas ainda levou um pontapé que ia ficando sem balls. Não terá sido em vão. A máquina de lavar estava recheadinha de maços de notas. Obrigada pela dica, Carlos. A falar é que a gente se entende.

sexta-feira

Good moaning!

Não acham que o Ricardo Araújo Pereira e o agente Crabtree (aquele espião inglês disfarçado de polícia que fala muito mal "francês"), da hilariante série de televisão Allô Allô, são parecidos? Não? Nem sequer vagamente?

You stupid woman...

quinta-feira

Paradigma comunicacional

Registe-se a substituição na caixinha de música - na coluna à direita, já se sabe - de Wordy Rappinghood, dos Tom Tom Club, por It Ain't What You Do, dos Fun Boy Three com as minhas queridas Bananarama a fazer coro, em 1982.

It ain't what you do it's the way that you do it
It ain't what you do it's the way that you do it
It ain't what you do it's the way that you do it
And that's what gets results

It ain't what you do it's the time that you do it
It ain't what you do it's the time that you do it
It ain't what you do it's the time that you do it
And that's what gets results

You can try hard
Don't mean a thing
Take it easy
And then your jive will swing

It ain't what you do it's the place that you do it
It ain't what you do it's the place that you do it
It ain't what you do it's the place that you do it
And that's what gets results

I thought I was smart but I soon found out
I didn't know what life was all about
But then I learnt I must confess
That life is like a game of chess


E o McLuhan também é para aqui chamado.

terça-feira

Preferia não o dizer

«A solidão é um lugar-comum.»

segunda-feira

Alguma certeza deve existir


L'Eclisse, Michelangelo Antonioni, 1962

Um mês depois de o ter visto na Cinemateca, quando menos esperava dou com esta «nota de rodapé» em Bartleby & Companhia (um livro que cita muito e que também é muito citável), de Enrique Vila-Matas, na edição portuguesa da Assírio & Alvim, de que aqui fica um excerto:

(...)Tudo isso conduziu Antonioni a pensar num filme que se chamaria O Eclipse e falaria de quando os sentimentos de um casal acabam, se eclipsam (como, por exemplo, se eclipsam os escritores que de repente abandonam a literatura) e toda a sua antiga relação se desvanece.
Como nessa altura fora anunciado um eclipse total do sol, dirigiu-se a Florença, onde viu e filmou o fenómeno e escreveu no seu diário: «Foi-se o sol. De repente, gelo. Um silêncio diferente dos outros silêncios. E uma luz diferente das outras luzes. E depois, a escuridão. Sol negro da nossa cultura. Imobilidade total. Tudo o que consigo pensar é que provavelmente durante o eclipse também os sentimentos se detenham.»
No dia em que se estreou O Eclipse disse que tinha ficado para sempre com a dúvida se deveria ter encabeçado o seu filme com estes versos de Dylan Thomas: «Alguma certeza deve existir, / se não de amar, ao menos de não amar.»(...)

Para ler o original, e outra tradução, ver Seta Despedida.

quinta-feira

História do Século XIX










Senso, Luchino Visconti, 1954

A história em Veneza, com legendas em inglês, aqui.

(...)La traccia narrativa e drammatica dell'amore fra i due personaggi venne attinta dal regista da una novella di Boito definita dallo stesso "scartafaccio segreto della Contessa Livia"; questo scritto infatti si presenta come una lunga confessione sentimentale di una nobildonna veneta, inserendosi pienamente nella tradizione romantica della narrativa diaristica o epistolare. Ora si vede come lo sforzo, rintracciabile nella lunga redazione delle sceneggiature, fosse diretto a fondere armoniosamente in una decadente atmosfera il contesto storico con la vicenda intima, che forniva non pochi spunti drammatici, e questa, come fu una delle abilità del Manzoni, lo fu anche del Visconti, il quale ha dato a ogni personaggio la giusta dimensione storica e sociale, mantenendosi coerente con le linee di quel tipo di realismo che non era stile, ma un modo artistico e culturale di affrontatre la realtà umana e sociale dandone un rappresentazione plastica.(...)

terça-feira

Cinquentenário


René Lalique (1860-1945)
França, c. 1903-1904

Duas orquídeas em chifre e uma em marfim constituem o corpo deste belo diadema enriquecido ainda por um pequeno topázio em forma de gota no centro da flor de marfim. O pente de três dentes, também em chifre, é articulado ao diadema por uma charneira em ouro.

A exótica orquídea foi uma das flores símbolo do movimento estético do final do século XIX e foi tratada pelos joalheiros do período Arte Nova com muito realismo, aqui realçado ainda pela mestria técnica de René Lalique, que baseando-se sempre na flor real consegue simultaneamente conferir a esta jóia elegância e forte sentido erótico.


Se a Fundação Calouste Gulbenkian um dia tiver vontade de se ver livre de algumas peças da sua colecção, não me importo de guardar esta, por exemplo. Percebo que possa ocupar muito espaço na instituição e prometo cuidar bem dela.

O espelho Lalique (de corpo inteiro) que a mulher de Mr. Five Percent, Nevarte, tinha no seu quarto na casa da Avenue d'Iéna, em Paris, também será bem-vindo. Não encontro nenhuma fotografia dele, mas está exposto em permanência na última sala do Museu, para quem quiser admirá-lo. O objecto, não o reflexo.

sexta-feira

Diabinho

Divertido com o meu entusiasmo nos derradeiros jogos do mundial de futebol, já que eu até questionava (ansiosamente) se o aniversariante teria marcado o jantar num sítio onde se pudesse assistir ao Brasil-França, C. sugeriu-me que escolhesse um clube, para de futuro acompanhar os campeonatos e essas coisas todas. Pensei um pouco e respondi:

- Bom, por questões hereditárias, talvez o Sporting.
- Sendo assim, então não vale a pena...

quinta-feira

Let's look at the trailer

[título em português: A Águia da Estepe]



To define Dersu Uzala as a story about an aboriginal tribesman is to describe humanity through a two-dimensional photograph. Dersu Uzala is an allegory for the environmental toll of civilization, a testament to a profound, enduring friendship, and a heartbreaking portrait of aging and obsolescence.

Vi-o há uns meses atrás no Quarteto que, apesar de todo o carisma, manifestamente já não tem condições para projectar uma obra destas (nem nenhuma outra, parece-me). Má insonorização (ouvia-se o genérico de Walk the line, a passar na sala ao lado ) e o ecrã tinha uma enorme mancha mesmo no meio (nem quero saber como foi lá parar).

É um filme muito bonito, muito comovente. Com uma "estética Mosfilm" (chamo-lhe assim porque me lembrou Tarkovsky), ou não fosse uma produção nipónico-soviética dos anos 70. Ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1976, e é nessa condição que agora vai ser exibido na Cinemateca.

quarta-feira

Capitane! Capitane!



Este post destina-se a:
i) pessoas que vivem em Lisboa ou arredores e que não têm nada (melhor) para fazer na próxima segunda-feira, 17 de Julho, entre as 15h30 e as 18h;
ii) pessoas que dedicam a sua vida à reflexão e ao engate nas salas de cinema;
iii) pessoas que vão para as bibliotecas fingir que não estão perdidas, e a quem pelo menos uma vez por dia ocorre: "como é que me fui meter nisto?", mas que ainda não desistiram de elaborar um projecto de tese apresentável;
iv) todas as outras.

(continua)

Demonstração lógica

Sem ocupação remunerada, logo aborrecida.

sexta-feira

Tudo menos um sentido proibido #2

If you don't know where you are going, any road will get you there. (Lewis Carroll)

quarta-feira

Can em Munique™


Can, I want more, a tocar "em casa", num programa de TV alemão estapafúrdio, no final dos anos 70(?)

Não estou propriamente uma pilha de nervos por causa do jogo de hoje à noite contra a França, mas daqui a umas horas não sei como vou estar. Provavelmente a fumar cigarro atrás de cigarro, alternando com imperiais.

Ontem quando entrei no supermercado vi que já tinha começado o Alemanha-Itália, transmitido em sinal aberto. Num ápice fui buscar os iogurtes, o azeite e o detergente, e corri para casa. Era mesmo o que me estava a apetecer: refastelar-me no sofá em frente à televisão e alienar-me. (Também podia ter escolhido ver um filme.) Torci imenso pela "squadra azzurra" (será que é assim que se escreve?), com a qual ainda não tinha visto nenhum jogo. (Eu e a Itália!) É a equipa que tem os jogadores mais giros, sem dúvida. (Desculpem, não consigo conter este "comentário de gaja".) Tem também uma defesa (quase) impenetrável e aqueles dois golos metidos no último minuto do prolongamento foram fantásticos. Ainda não refeita do júbilo com o primeiro, foi com muita alegria que aplaudi o segundo.

Quanto à nossa selecção... Quero mais, quero que vá à final. E aí, seja qual for o resultado, ficarei satisfeita.

P.S. Até às 19h30, estou capaz de comprar um cachecol.

terça-feira

Tudo menos um sentido proibido

Todas as sextas-feiras recebo a newsletter da loja AnAnAnA. Não procuro novidades, mas não me faço rogada se elas vierem até mim. Gosto destas missivas sobretudo pelo texto introdutório que as acompanha. Um excerto da última que chegou:

Nihilist Spasm Band, o grupo avô do noise, em declarações provocadoras: "O meu dicionário diz que música é a arte de organizar sons e que é, igualmente, uma sucessão de sons agradáveis. Ora, os nossos sons não são nem organizados nem agradáveis, e em consequência, por definição, não são música. A música poderá estar, eventualmente, no ouvido de quem escuta. Como nunca ambicionámos fazer música convencional, o facto de nunca o termos conseguido não é uma derrota, mas um sucesso. Um aspecto importante da música é a capacidade de ser reproduzida por outros executantes.(...)"

Pouco depois de ler isto, meti-me num carro e saí de Lisboa. Só na segunda-feira de manhã me apercebi que tinha havido uma falha com o servidor que a AnAnAna utiliza (ou lá o que foi que aconteceu), o que fez com que as caixas de correio electrónico de muita gente (incluindo pessoas que nem subscrevem a dita) tivessem sido bombardeadas com mensagens de erro (cerca de 300), em rede. Quando me dei conta da situação, já o problema tinha sido resolvido, mas perdi (porque quis) uma boa meia-hora a percorrer alguns mails, de pessoas ora irritadas (a pedir para serem removidas da mailing-list) ora divertidas com a situação, antes de os apagar.

Parece que a certa altura se gerou uma espécie de fórum. Havia quem falasse em "ciberdemocracia", "acontecimento histórico" e "estamos unidos ciberneticamente, irmãos", e ainda de "performance on-line". Alguém também perguntava "quem é a p*** da Ana?", logo seguido de um "viva Portugal". Elogios aos Macs, em detrimento dos PCs (a velha discussão): "A diferença entre um Mac e um PC é a mesma que vai entre um Alfa Romeo e o meu Fiat Punto." O Windows e o Linux, e mais não sei o quê. Pelo meio vejo endereços de amigas e amigos meus, a refilar. E alguém que diz: "Máquinas de escrever e pombos correio, é o que este país precisa." (Vamos aqui na mensagem número duzentos e qualquer coisa, domingo à noite.)

Depois surge isto:

EU SOU O ANJO DO DESESPERO
[Heiner Müller - Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro]

Eu sou o anjo do desespero.
Das minhas mãos distribuo a embriaguês,
a estupefacção, o esquecimento, gozo e
tormento dos corpos.
Meu discurso é o silêncio, meu canto o grito.
À sombra das minhas asas mora o terror.
Minha esperança é o último suspiro.
Minha esperança é a primeira batalha.
Eu sou a faca com que o morto arromba o seu caixão.
Eu sou aquele que será.
Meu descolar é a sublevação, meu céu o abismo de amanhã.


Há quem fale entretanto de "sentir um vazio" quando a assistência técnica resolver o problema. Outro, mais pragmático, pergunta: "E por aqui, arranja-se emprego?" Mas não faltam líricos: "Pergunto-me se haverá pessoas que vão conhecer-se por causa desta corrente de mails, quem sabe apaixonar-se e até mais tarde gerar um filho. Por favor, vão dando notícias. E se for menina, podia ser Anita." E acrescenta em post-scriptum: "Tenho de arranjar maneira de resolver este meu problema com os domingos à noite." Outro que nos escreve do Brasil e que diz estar a acompanhar com agrado esta troca de mensagens: "Continuem!" E bloggers metidos ao barulho, a deixar links directos para posts sobre o happening.

Mas a melhor mensagem foi uma das últimas. Antes alguém se havia questionado sobre qual o sentido da vida. E a resposta, enfim: "Pode ser tudo menos um sentido proibido."

AnAnAnA, por favor, quero continuar a receber a newsletter.

Words

Ouvi pela primeira vez Wordy Rappinghood (a tocar ali em cima à direita, tenho de parar de repetir isto), numa versão das Chicks on Speed, este fim-de-semana na noite algarvia(!). Entretanto deram-me a ouvir o original (1981), dos Tom Tom Club, de que gosto mais, desde já eleita (por mim) como música obrigatória em qualquer chá dançante que se preze. E para evitar misheard lyrics...

What are words worth?
What are words worth? - words

Words in papers, words in books
Words on TV, words for crooks
Words of comfort, words of peace
Words to make the fighting cease
Words to tell you what to do
Words are working hard for you
Eat your words but don't go hungry
Words have always nearly hung me

What are words worth?
What are words worth? - words

Words of nuance, words of skill
And words of romance are a thrill
Words are stupid, words are fun
Words can put you on the run

Mots pressés, mots sensés,
Mots qui disent la vérité
Mots maudits, mots mentis,
Mots qui manquent le fruit d'esprit

What are words worth?
What are words worth? - words

Words can make you pay and pay
Four-letter words I cannot say
Panty, toilet, dirty devil
Words are trouble, words are subtle
Words of anger, words of hate
Words over here, words out there
In the air and everywhere
Words of wisdom, words of strife
Words that write the book I like
Words won't find no right solution
To the planet earth's pollution
Say the right word, make a million
Words are like a certain person
Who can't say what they mean
Don't mean what they say

With a rap rap here and a rap rap there
Here a rap, there a rap
Everywhere a rap rap

Rap it up for the common good
Let us enlist the neighbourhood

It's okay, I've overstood
This is a wordy rappinghood, okay, bye.

sexta-feira

Riff-oriented



I might like you better
If we slept together
But there’s something
In your eyes that says
Maybe that’s never
Never say never


Queens of the Stone Age não é uma banda que eu costume ouvir. Nem sequer faz o meu género, se é que tenho algum. Mas não resisto quando me dizem: «Ouve esta música, acho que vais gostar». E eu gostei, de facto. Este Never Say Never é uma versão dos Romeo Void (que belo nome). Fica a tocar ali em cima, no comando azulinho. See you, Bangles. Bom fim-de-semana.

So not punk rock

John: What's a shower glove, wise woman?
Sarah: It's like a loofah. Do you know what that is?
John: Of course not.
Sarah: It's a rough shower scrub used to rub off the top layer of dead skin in order to expose the glowing complexion underneath. And someone made it into a glove.
John: AH! Does it hurt?
Sarah: No. It feels good.
John: Ahh...where can I pick up one of these?
Sarah: Target, probably. Everywhere. The Body Shop.
John: Cool.
Sarah: You should get one. You feel all tingly afterwards.
John: Is $14 enough to buy one?
Sarah: About $12 too much.
John: Excellent!
Sarah: Yes.
John: My inbox is empty.
Sarah: I am working on it, buddy!
Sarah: I have skin to exfoliate.
Sarah: Bands to see.
Sarah: Ex-boyfriends to avoid.
John: I hate those.
Sarah: They're cumbersome.
John: If only we could get rid of them like so much dead skin.

On Exes and Exfoliating, 11/6/2001, por uma homónima.

quinta-feira

Misheard lyrics

Um must em qualquer festa que celebre a música dos anos oitenta, onde o objectivo normalmente passa por dançar até cair, é The King of Rock 'n' Roll, dos Prefab Sprout. O refrão sempre foi um mistério para mim, até hoje, graças ao Google.

Eu cantava: «Hot dog, jumping fire, I want cookie». Havia quem cantasse: «Hot dog, jumping for Albert's cookie». Mas afinal é: «Hot dog, jumping frog, Albuquerque».

O teledisco não lhe fica atrás.

E não há Miles Davis que salve isto

Também importa aqui referir as Bananarama.

[Que, não fazia a menor ideia, ainda (se) mexem.]

segunda-feira

Kind of blue


Miles Davis & John Coltrane, So what, 1958

Educação (musical)

O gosto não se aprende; cultiva-se.

domingo

A clip from the 50's



He became an icon of the west coast "cool school" of jazz, helped by his good looks and singing talent, although many considered the latter an acquired taste.

Educação sentimental


Fotografia de William Claxton

you don't know how lips hurt
until you've kissed and had to pay the cost
until you've flipped your heart and you have lost
you don't know what love is


Já devo ter publicado esta imagem de Chet Baker, das melhores que lhe conheço disponíveis na internet, duas ou três vezes (noutros endereços de blogue). Mas é sempre como se fosse a primeira.

sábado

Time after time



Sou uma rapariga informada, leio jornais, vou ao cinema, concertos, exposições, teatro, conferências, blogues... Exsudo cultura por todos os poros. Portanto, é natural que não me passe ao lado "o grande acontecimento cultural do momento" (after Mexia): Music Videos From the 80's (via Serendipity).

Acordei cedo (9 da manhã para os meus padrões de sábado é normalmente impensável), com obras na casa da vizinha, estava mau tempo, decidi não ir à praia e aproveitar para fazer arrumações. Mais logo, Cinemateca (O Eclipse, de Antonioni)
e depois, caso não fique demasiado perturbada - é que isto dos filmes mexe muito comigo - temos ode a Chet Baker (ai, paixão) por Laurent Filipe (trompete e voz) no Maxime. Que belo programinha.

Entretanto dispenso algum tempo a percorrer o site supracitado, para chegar à estranha conclusão que o que ali vejo e ouço não me desperta grandes emoções. Estranho, porque nasci em 77 e, como quase toda a gente, desde idade tenrinha, sempre gostei de ouvir música. Música foleira sobretudo nos anos 80, género em que a década foi particularmente profícua. Hoje em dia o que seria correspondente já não é foleiro (ou piroso, como preferirem). É tão só e apenas medíocre. Adiante. Há coisas como "You spin me round (like a record)", dos Dead or Alive, que adoraria voltar a dançar uma noite destas, já referido pela Fernanda Câncio, que na altura ripava o cabelo com sabão. Eu era então menorzinha, mas sonhava com uma permanente que me deixasse toda frisada e que a minha mãe nunca autorizou. Felizmente.

Voltando ao site, existe um rol de "telediscos" (sim, como se dizia antigamente) bastante extenso, não conheço muitos de nome, mas aposto que se visse todos os vídeos descobriria mais umas quantas pérolas. Lá pelo meio também há coisas que não encaixam de todo na "música foleira dos anos 80". Joy Division, New Order, Sonic Youth, Pixies, Butthole Surfers, Faith No More, Beastie Boys, Kraftwerk, Dinosaur Jr., Iggy Pop, Laurie Anderson, Leonard Cohen, Roxy Music, Duran Duran, só para citar alguns. (Ok, quanto a estes últimos poderá não ser consensual.) Enfim, uma grande misturada. Encontro várias coisas que constavam das cassetes que gravava da rádio com compilações das minhas músicas preferidas (tudo aos bocados, um caos) e dos Hit Parades que pedia que me oferecessem pelo Natal.

Mas eis que de repente me ocorre a música que me deixa num estado de absoluto embevecimento nostálgico - Eternal Flame, das Bangles (1989) - e cujo vídeo, para grande pena minha, não está no site. Ora atentem na letra (até fico arrepiada):

Close your eyes, give me your hand, darling
Do you feel my heart beating
Do you understand
Do you feel the same
Am I only dreaming
Is this burning an eternal flame


E mais à frente, no auge:

Am I only dreaming
Ohhh an eternal flame


Pá, esta música... Data da altura em que me apaixonei pela primeira vez. Teria onze ou doze anos. Finda a escola primária (onde havia um menino que queria casar comigo, até me chegou a oferecer um anel de noivado da loja de bijuteria do avô, mas que eu recusei porque não sentia nada por ele), um colégio novo, cheio de gente que eu não conhecia. O coração palpitou loucamente assim que o vi. E o mais bonito é que foi mútuo. Durou cerca de quatro anos. Namorámos à distância durante bastante tempo, envergonhados. Ele escrevia-me cartas, que metia às escondidas dentro da minha mochila. Adorava vê-lo jogar à bola, olhava-o de esguelha, com ciúmes, quando ele falava com outras, e coisas assim. Mas eu fazia-me difícil e às tantas ele fartou-se de tanto pudor e tomou medidas drásticas: fez-se amigo das minhas amigas, para me convencerem a deixar-me beijar na boca, com a língua e tudo a que ele tinha direito (uns apalpõezitos, vá). Caramba, já era tempo. Acabou por ser um episódio desastroso (mas nada do que possam estar a pensar). Como há males que vêm por bem, tornámo-nos finalmente "namorados". E nas festas de anos dançávamos o Eternal Flame em registo "slow", agarradinhos, a tremer de emoção.

[Em homenagem à primeira paixão, ao primeiro amor, retiro por tempo indeterminado The Death of Ferdinand de Saussure, dos Magnetic Fields (ui, isso veio muuuuuuuuito depois), e fica a tocar na coluna ao lado a música pirosa das Bangles.]

Mais tarde o Rui B. deixou de me ligar, enquanto eu me apaixonava pelo melhor amigo dele.

Up and down, Scotty

Neither your name is Lucifer. You just gave your heart to a simple chord... Que sera, sera.

[para AP]

quinta-feira

Regresso à (a)normalidade


Cartoon enviado pelo meu amigo Javi(er).

Vamos, España!

If you're into Asia(n)

Educação oriental.

Canto Vigésimo Terceiro

Stamatóina e' mi fradèl e' zarchéva
qualcósa ti casétt; l'à smasè dimpartótt
próima tl'armèri, l'à guèrs dróinta al bascòzi
dal giachi e di capótt, pu te cumò
sla tèsta e sal mèni l'à tirat fura iniquèl
e l'à mèss sotsòura ènca la cusóina.
E' paséva da una cambra a cl'elta
sénza ch'u m'avdéss.
Quant ch'u s´è mèss a sfurgatè te mi lèt
a i ò détt: mo sa vút?
A n e' sò. Te próim u m bsugnéva un ciód,
pu un butòun, dop avléva fè un cafè
e tl'éultum avéva vòia t'a m gés qualcósa
magari una sciuchèzza.

Sciuchèzza

Esta manhã meu irmão procurava
qualquer coisa nas gavetas; remexeu
no armário, nos bolsos dos casacos,
dos capotes e de cabeça e mãos
na cómoda tirou tudo para fora.
Virou do avesso até a cozinha.
Passava de um quarto para outro
sem me ligar.
Quando começou a revistar a minha cama
perguntei-lhe: que procuras?
Não sei. Primeiro procurava um prego,
a seguir um botão, depois queria fazer café
e agora preciso que me digas alguma coisa,
nem que seja uma tolice.

Tonino Guerra, O Mel, trad. Mário Rui de Oliveira, Assírio & Alvim, 2003 (edição bilingue: português e romagnolo)

Coisas sérias

- Franz, a República Checa foi eliminada do mundial...
- A minha pátria é a língua alemã.

quarta-feira

Solstício de Verão

At the entrance-way of a luxurious villa, Claudia, who has just arrived, is greeted by the Princess. She is an elderly woman, rather ordinary in appearance but very aristocratic in taste and manner.

PRINCESS
Did you have a good trip? It is such a magnificent day! I am very happy that Sicily is able to give you so warm a welcome. And you do deserve it. You're such a lovely blonde. Come, my dear.

Claudia smiles, and follows the Princess into the garden.


Nunca vi, mas li. O argumento está aqui. E Monica Vitti, linda de morrer, no papel de Claudia.

terça-feira

Sicília



Avião já temos. O filme ficará para antes ou depois.
Ou talvez até durante.

Paisagem

Hoje acordei enjoada com o Mundial da Bola e com a palhaçada toda à volta, a que infelizmente ninguém parece conseguir escapar, nem mesmo eu. Assim, apetece-me sugerir a leitura do blogue Verdete, que só descobri há pouco tempo, feito por vários arquitectos paisagistas, dos quais tenho o prazer de conhecer pessoalmente dois. Agora tenho também o prazer de os ler. Gostei muito destes posts "contaminados" pelo cinema: Abbas Kiarostami e Lucretia Martel. Recomendo ainda um outro, Spy Hunter, típico do Samuel. Viva a atmosfera, viva a blogosfera.

segunda-feira

Fala com ele



- Franz, estás a torcer pela República Checa?
- Não quero falar sobre isso.
- Com o Gana levaram dois secos...
- Está calada, nem sequer viste o jogo.
- Claro que não, só vejo os de Portugal. E passámos aos oitavos-de-final!
- Com Angola e o Irão, também o Gil Vicente passava.
- Ah! Andaste a ler o maradona no DN...
- Está calada, nem sequer leio jornais portugueses.
- Bom, mudando de assunto, queres saber o que achei do teu livro?
- Se eu disser que não, adianta alguma coisa?
- Gostei muito. Mas não percebi por que é que acaba daquela maneira.
- Estás-te a referir à última frase do último conto?
- Sim. «É o que agora farei, pois este sentido é muito revelador daquela concepção do povo. O meu pai disse então:» Fim.
- O que é que tem?
- O que é que tem?!
- Tivesses lido com mais atenção o prólogo.
- «(...)O motivo da infinita postergação existe também nos seus contos. (...)No mais memorável de todos - A Construção da Muralha da China, 1919 - o infinito é múltiplo: para deter a marcha dos exércitos infinitamente longínquos, um imperador infinitamente remoto no tempo e no espaço ordena que infinitas gerações ergam infinitamente uma parede infinita que dê a volta ao seu infinito império.(...)»
- Não estás com certeza à espera que te expliquem tudo.
- Por acaso...
- Era o que mais faltava! Contenta-te com o texto do Borges, o tipo sabe o que diz.
- Franz, o Borges já morreu.
- E eu, estou vivo?

Todos se cansaram

«A lenda tenta explicar o que não se pode explicar; porque vem de um fundamento de verdade, tem de terminar no que não se pode explicar.
De Prometeu conhecemos quatro lendas. Diz a primeira que ele foi agrilhoado ao Cáucaso por ter traído os deuses aos homens e que os deuses enviaram águias que lhe devoravam o fígado que se renovava sem fim.
Diz a segunda que, com a dor das bicadas que o atormentavam, Prometeu se apertou cada vez mais contra o rochedo até se tornarem um.
Diz a terceira que passados milhares e milhares de anos a sua traição foi esquecida, os deuses esqueceram, as águias, ele próprio.
Diz a quarta que todos se cansaram do que já não tinha fundamento. Os deuses cansaram-se, as águias. A ferida fechou-se cansada.
Restou o rochedo inexplicável.»

[Prometeu, p.41, tradução de Isabel Castro Silva]

quinta-feira

Uns sobre outros

Primeiro resultado duma visita quase-relâmpago à Feira do Livro, minutos antes do encerramento, esta terça-feira:

«Como se sabe, Virgílio, quando estava prestes a morrer, encarregou os seus amigos de reduzir a cinzas o inacabado manuscrito da Eneida, que reunia onze anos de nobre e delicado trabalho; Shakespeare nunca pensou em reunir num único volume as inúmeras peças que compunham a sua obra; Kafka encomendou a Max Brod a destruição dos romances e narrativas que lhe asseguravam a fama. A afinidade destes episódios ilustres é, se não estou enganado, ilusória. Virgílio não podia ignorar que contava com a piedosa desobediência dos seus amigos; Kafka com a de Brod. O caso de Shakespeare é diferente. De Quincey conjectura que para Shakespeare a publicidade consistia na representação e não na impressão; o palco era o mais importante para ele.(...)»

Franz Kafka, Contos, Selecção e Prólogo de Jorge Luis Borges, Relógio D'Água, 2005.

terça-feira

To be is to perform

Na blogosfera que frequento, vejo muito poucas referências ao Festival Alkantara - a excepção é O Melhor Anjo, a que cheguei via Da Literatura e onde não se tem falado doutra coisa. Também tenho andado meio distraída, verdade seja dita, e não fosse um amigo a dar-me um toque sobre o assunto (obrigada, Vasco!) teria perdido ontem a oportunidade de ver o espectáculo multimédia de Patrícia Portela, "Trilogia Flatland", que foi distinguido em 2004 com o Prémio Acarte/Maria Madalena de Azeredo Perdigão, e para o qual ainda consegui comprar os últimos bilhetes disponíveis.


Flatland I - Going up, not North

Na realidade são três espectáculos, integralmente "falados" em inglês, agora apresentados duma só vez (esta rima foleira não foi propositada). Na primeira parte, que dura cerca de 50 minutos, num ecrã que simula um livro aberto, e onde são projectadas palavras e imagens com acompanhamento sonoro, o Homem-Plano discorre sobre a bidimensionalidade em Flatland, onde vive, concluindo que lhe faz falta uma terceira dimensão cujo alcance passará pela presença dos espectadores (cerca de 60, na sala de ensaio do CCB).

Happy with the discovery but unhappy with the dependency, Flatman organizes a strategy to conquer his tri dimensional immortality.

Durante quase uma hora, absorve-se uma quantidade imensa de informação e ironia, chega a ser cansativo, mas quando se torna quase aborrecido, aparece o Homem-Plano calçado com os sapatos vermelhos de Judy Garland em The Wizard of Oz, intimando-nos a assinar um contrato. Dois assistentes, vestidos de terroristas com fatos laranja e carapuças, distribuem os papéis, onde nos pedem para colocar a nossa impressão digital. Algures por aqui terá começado o segundo segmento.


Flatland II - To be is to be seen

Somos encaminhados para a saída da sala, percorremos um corredor, escadas e de repente estamos a subir para um autocarro estacionado no exterior do CCB. Fomos sequestrados, com consentimento.

Não sendo um espectáculo interactivo (e jamais previsível), porque nenhuma parte da "acção" depende realmente das reacções do público (basta que tacitamente nos deixemos levar), a performance que se segue é repleta de momentos fortes. (Um dos quais julgo que não foi planeado, quando o condutor da viatura que transportava os "reféns", seguindo pela Rua da Junqueira, ia arrancando um quiosque plantado numa esquina quando dava a curva.)

Chegamos então a um velho armazém, sempre na companhia dos encapuzados (um dos quais é a própria Patrícia Portela). O Homem-Plano canta, dança, discursa, teoriza. Conta a história do terrorista árabe, que antes de se fazer explodir num edifício duma qualquer capital ocidental, foi tomar um chá de menta "do outro lado da rua" e encontra uma lamparina que continha um génio... Einstein, que o confrontou com uma série de evidências, deixando-o abananado e já sem saber que desejo pedir. O Homem-Plano faz ainda truques de magia e atende telefonemas da polícia, que (supostamente) está lá fora a cercar o "local do crime". Ouvem-se sirenes.

Mas eles tratam-nos bem, oferecem-nos martinis, salgados e bolos da Versailles, e até mandam vir pizzas (o espectáculo tinha começado às 20h). Better to order also vegetarian; there are always vegetarians among the audience. Passado um bocado, entra pelo "palco" adentro uma rapariguinha numa mota a entregar a encomenda.


Flatland II (no espaço alternativo)

Enquanto isto, continua a projecção de imagens nas paredes, excertos da série James Bond e alguns de King Kong. (Coincidência que me deixou deliciada, foi ver reproduzida precisamente esta cena.) Depois somos encaminhados de regresso ao autocarro, e quando estamos quase a chegar ao CCB o Homem-Plano aparece na estrada a mandar-nos dar meia volta para a Rua da Junqueira. Novamente no armazém, até sermos "salvos" e abandonarmos as instalações por uma porta de saída na qual existe um escorrega insuflável de emergência (como os dos aviões), flashes de jornalistas e cobertores de alumínio para nos aconchegar depois do "choque". Terminou o sequestro, ninguém ficou ferido. O espectáculo continua para o terceiro segmento.

Como é óbvio, isto não é uma crítica de teatro, mas ainda assim não achei tão bem conseguida a última parte, Flatland III, para mim talvez demasiado complexa na interpretação, mais de duas horas decorridas. A zapping spectacle of noise, static and news... num dos átrios do CCB - para onde regressámos no referido autocarro - com sofás e vários ecrãs televisivos.

Já (d)escrevi bastante, por isso vou abreviar: gosto muito do trabalho de Patrícia Portela e a performance do actor que interpreta a personagem Flatman é excepcional. A seguir ainda dei um salto à Bica para mergulhar no mar de gente que aproveita o Santo António para se embebedar e dançar ao som do "Aperta com ela". Foi um serão pós-moderno.

Adenda para bloggers #1: O Ricardo Babugem, agora em Devaneios, também se cruzou com as artes performativas. E por gracinha, verifico que na ficha técnica de Flatland os efeitos especiais estão a cargo de Irmã Lucia, com certeza aparentada do Pedro, agora mais conhecido como Irmão Lucia, que também mudou de poiso.

Adenda para bloggers #2: Espero que o Zé "Prisas" Amaral não tenha ido dentro por causa de nenhuma acção terrorista. Memórias do Cárcere, um blogue... original.

Futebol como Arte?

Soa-me a coisa de elite(s).

segunda-feira

Impropérios

«(...)O que é clarinho clarinho clarinho como o Brasil e a França na final, há muitos aninhos, é que, em muitos locais e sobre muitos valores naturais, não existe a mínima hipótese de tal ideia como a que se quer transmitir com a expressão "desenvolvimento sustentado", que muito naturalmente (ironia fina) nasceu do ventre abastado dos países que já tinham destruído tudo quanto lhes proporcionaria "desenvolvimento económico" (ironia grosseira, talvez sarcasmo), servindo tal expressão como um prozac social de distribuição gratuita e sem efeitos secundários para as populações dos Bairros Altos das capitais mundiais.(...)»

O maradona (com minúscula) agora escreve aos domingos no Diário de Notícias. Pouco interessa que seja sobre o mundial de futebol, assunto que não me diz praticamente nada. Este excerto é uma transcrição d'A Causa Foi Modificada, onde os posts não costumam subsistir mais do que alguns dias, às vezes algumas horas. Serve só para exemplificar.