segunda-feira

Todos se cansaram

«A lenda tenta explicar o que não se pode explicar; porque vem de um fundamento de verdade, tem de terminar no que não se pode explicar.
De Prometeu conhecemos quatro lendas. Diz a primeira que ele foi agrilhoado ao Cáucaso por ter traído os deuses aos homens e que os deuses enviaram águias que lhe devoravam o fígado que se renovava sem fim.
Diz a segunda que, com a dor das bicadas que o atormentavam, Prometeu se apertou cada vez mais contra o rochedo até se tornarem um.
Diz a terceira que passados milhares e milhares de anos a sua traição foi esquecida, os deuses esqueceram, as águias, ele próprio.
Diz a quarta que todos se cansaram do que já não tinha fundamento. Os deuses cansaram-se, as águias. A ferida fechou-se cansada.
Restou o rochedo inexplicável.»

[Prometeu, p.41, tradução de Isabel Castro Silva]

quinta-feira

Uns sobre outros

Primeiro resultado duma visita quase-relâmpago à Feira do Livro, minutos antes do encerramento, esta terça-feira:

«Como se sabe, Virgílio, quando estava prestes a morrer, encarregou os seus amigos de reduzir a cinzas o inacabado manuscrito da Eneida, que reunia onze anos de nobre e delicado trabalho; Shakespeare nunca pensou em reunir num único volume as inúmeras peças que compunham a sua obra; Kafka encomendou a Max Brod a destruição dos romances e narrativas que lhe asseguravam a fama. A afinidade destes episódios ilustres é, se não estou enganado, ilusória. Virgílio não podia ignorar que contava com a piedosa desobediência dos seus amigos; Kafka com a de Brod. O caso de Shakespeare é diferente. De Quincey conjectura que para Shakespeare a publicidade consistia na representação e não na impressão; o palco era o mais importante para ele.(...)»

Franz Kafka, Contos, Selecção e Prólogo de Jorge Luis Borges, Relógio D'Água, 2005.

terça-feira

To be is to perform

Na blogosfera que frequento, vejo muito poucas referências ao Festival Alkantara - a excepção é O Melhor Anjo, a que cheguei via Da Literatura e onde não se tem falado doutra coisa. Também tenho andado meio distraída, verdade seja dita, e não fosse um amigo a dar-me um toque sobre o assunto (obrigada, Vasco!) teria perdido ontem a oportunidade de ver o espectáculo multimédia de Patrícia Portela, "Trilogia Flatland", que foi distinguido em 2004 com o Prémio Acarte/Maria Madalena de Azeredo Perdigão, e para o qual ainda consegui comprar os últimos bilhetes disponíveis.


Flatland I - Going up, not North

Na realidade são três espectáculos, integralmente "falados" em inglês, agora apresentados duma só vez (esta rima foleira não foi propositada). Na primeira parte, que dura cerca de 50 minutos, num ecrã que simula um livro aberto, e onde são projectadas palavras e imagens com acompanhamento sonoro, o Homem-Plano discorre sobre a bidimensionalidade em Flatland, onde vive, concluindo que lhe faz falta uma terceira dimensão cujo alcance passará pela presença dos espectadores (cerca de 60, na sala de ensaio do CCB).

Happy with the discovery but unhappy with the dependency, Flatman organizes a strategy to conquer his tri dimensional immortality.

Durante quase uma hora, absorve-se uma quantidade imensa de informação e ironia, chega a ser cansativo, mas quando se torna quase aborrecido, aparece o Homem-Plano calçado com os sapatos vermelhos de Judy Garland em The Wizard of Oz, intimando-nos a assinar um contrato. Dois assistentes, vestidos de terroristas com fatos laranja e carapuças, distribuem os papéis, onde nos pedem para colocar a nossa impressão digital. Algures por aqui terá começado o segundo segmento.


Flatland II - To be is to be seen

Somos encaminhados para a saída da sala, percorremos um corredor, escadas e de repente estamos a subir para um autocarro estacionado no exterior do CCB. Fomos sequestrados, com consentimento.

Não sendo um espectáculo interactivo (e jamais previsível), porque nenhuma parte da "acção" depende realmente das reacções do público (basta que tacitamente nos deixemos levar), a performance que se segue é repleta de momentos fortes. (Um dos quais julgo que não foi planeado, quando o condutor da viatura que transportava os "reféns", seguindo pela Rua da Junqueira, ia arrancando um quiosque plantado numa esquina quando dava a curva.)

Chegamos então a um velho armazém, sempre na companhia dos encapuzados (um dos quais é a própria Patrícia Portela). O Homem-Plano canta, dança, discursa, teoriza. Conta a história do terrorista árabe, que antes de se fazer explodir num edifício duma qualquer capital ocidental, foi tomar um chá de menta "do outro lado da rua" e encontra uma lamparina que continha um génio... Einstein, que o confrontou com uma série de evidências, deixando-o abananado e já sem saber que desejo pedir. O Homem-Plano faz ainda truques de magia e atende telefonemas da polícia, que (supostamente) está lá fora a cercar o "local do crime". Ouvem-se sirenes.

Mas eles tratam-nos bem, oferecem-nos martinis, salgados e bolos da Versailles, e até mandam vir pizzas (o espectáculo tinha começado às 20h). Better to order also vegetarian; there are always vegetarians among the audience. Passado um bocado, entra pelo "palco" adentro uma rapariguinha numa mota a entregar a encomenda.


Flatland II (no espaço alternativo)

Enquanto isto, continua a projecção de imagens nas paredes, excertos da série James Bond e alguns de King Kong. (Coincidência que me deixou deliciada, foi ver reproduzida precisamente esta cena.) Depois somos encaminhados de regresso ao autocarro, e quando estamos quase a chegar ao CCB o Homem-Plano aparece na estrada a mandar-nos dar meia volta para a Rua da Junqueira. Novamente no armazém, até sermos "salvos" e abandonarmos as instalações por uma porta de saída na qual existe um escorrega insuflável de emergência (como os dos aviões), flashes de jornalistas e cobertores de alumínio para nos aconchegar depois do "choque". Terminou o sequestro, ninguém ficou ferido. O espectáculo continua para o terceiro segmento.

Como é óbvio, isto não é uma crítica de teatro, mas ainda assim não achei tão bem conseguida a última parte, Flatland III, para mim talvez demasiado complexa na interpretação, mais de duas horas decorridas. A zapping spectacle of noise, static and news... num dos átrios do CCB - para onde regressámos no referido autocarro - com sofás e vários ecrãs televisivos.

Já (d)escrevi bastante, por isso vou abreviar: gosto muito do trabalho de Patrícia Portela e a performance do actor que interpreta a personagem Flatman é excepcional. A seguir ainda dei um salto à Bica para mergulhar no mar de gente que aproveita o Santo António para se embebedar e dançar ao som do "Aperta com ela". Foi um serão pós-moderno.

Adenda para bloggers #1: O Ricardo Babugem, agora em Devaneios, também se cruzou com as artes performativas. E por gracinha, verifico que na ficha técnica de Flatland os efeitos especiais estão a cargo de Irmã Lucia, com certeza aparentada do Pedro, agora mais conhecido como Irmão Lucia, que também mudou de poiso.

Adenda para bloggers #2: Espero que o Zé "Prisas" Amaral não tenha ido dentro por causa de nenhuma acção terrorista. Memórias do Cárcere, um blogue... original.

Futebol como Arte?

Soa-me a coisa de elite(s).

segunda-feira

Impropérios

«(...)O que é clarinho clarinho clarinho como o Brasil e a França na final, há muitos aninhos, é que, em muitos locais e sobre muitos valores naturais, não existe a mínima hipótese de tal ideia como a que se quer transmitir com a expressão "desenvolvimento sustentado", que muito naturalmente (ironia fina) nasceu do ventre abastado dos países que já tinham destruído tudo quanto lhes proporcionaria "desenvolvimento económico" (ironia grosseira, talvez sarcasmo), servindo tal expressão como um prozac social de distribuição gratuita e sem efeitos secundários para as populações dos Bairros Altos das capitais mundiais.(...)»

O maradona (com minúscula) agora escreve aos domingos no Diário de Notícias. Pouco interessa que seja sobre o mundial de futebol, assunto que não me diz praticamente nada. Este excerto é uma transcrição d'A Causa Foi Modificada, onde os posts não costumam subsistir mais do que alguns dias, às vezes algumas horas. Serve só para exemplificar.

sexta-feira

Suppose it were a person

I have many admirers who claim their songs are about their little fancy whores, when they are really singing about me and me alone »»» said the Love Song.

Loop

A música que se pode ouvir ali à direita continua a ser "The Death of Ferdinand de Saussure" (The Magnetic Fields).

Tudo o que eu queria saber

Um guia completo para o triplo álbum 69 Love Songs, via As Aranhas.

quinta-feira

Encaixe

«Obrigado. Acho que nunca me tinham dedicado um 69.»

(recebido por e-mail de leitor devidamente identificado)

quarta-feira

Erotismo estilizado [revisto]



Ilustração da dinamarquesa Gerda Wegener (1889-1940) cuja história é no mínimo curiosa: o primeiro marido (hermafrodita?) submeteu-se nos anos 30 a uma operação para mudar de sexo. Parece que não correu muito bem. Gerda voltou a casar, teve êxito como artista, e depois morreu na obscuridade e na pobreza. Só muito mais tarde, nos anos 80, é que o seu trabalho foi "recuperado".

O 69 é dedicado ao Ivan. Há mais aqui.

Moltisanti

Separados à nascença

João Pedro George (clicar para ver a foto) e o terceiro elemento da banda "La Dolce Vita" (à direita no cartaz em cima). By the way, desta vez acho que tem toda a razão.

It doesn't take one to know another

- She has good tits.
- What do you know about tits? You're gay!
- Yes, but I know what you guys like...

(diálogo ouvido entre homo e hetero)

sábado

Sicilianu

Em vez de «não sei quê e o catano», dizia «não sei quê e a Catânia».

Plano Pessoal de Leitura

Tenho de escolher muito bem os livros que vou levar para as férias porque, já se sabe, não vou ler mais do que um.

quarta-feira

Penúltima aula

De noite com o cansaço do dia a pesar-me, depois duma hora e tal de name-dropping de filósofos, e respectivos pensamentos resumidos num parágrafo, só consegui praticamente reter algo que Espinosa terá dito, qualquer coisa como: «Sobre a morte não há nada a pensar, por isso passemos à frente.» E assim ficou escrito no meu bloco de apontamentos.

À nos amours


Sandrine Bonnaire faz hoje 39 anos.

Não é assim tão mau

A "grande coisa" dos blogues, para mim, é o esplanar de ideias e personalidades, sem caras e o resto à volta, só palavras e imagens, eventualmente sons. Nunca procurei conhecer ninguém pelos blogues, nem me pareceu importante ter as caras dos blogues. Mas, no final, não é assim tão mau acrescentar uma cara a um blogue - ou a meia dúzia.

25/05/06, posted by Daniel

No closure

Cada post como se fosse o último.

quinta-feira


Robert Mapplethorpe, 1988

Magnetismo

I met Ferdinand de Saussure
On a night like this
On love he said
"I'm not so sure
I even know what it is
No understanding
No closure
It is a nemesis
You can't use a bulldozer
To study orchids"
(...)

terça-feira

Quadrado semiótico*

Esta semana celebro 29 anos de vida e não me apetece continuar a auto-reprimir um comentário que tenho a fazer sobre Eduardo Prado Coelho (EPC). O que me impressiona na atitude de desprezo que ele vem ostentando relativamente aos blogues - não foi a primeira vez - é o facto de saber que ele é Professor num curso de licenciatura de Ciências da Comunicação e, pior ainda, de estar a ter aulas com ele este semestre no Mestrado (ou Pós-graduação, depende do que eu for capaz de fazer nos próximos meses) de Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação.

Não me chocam os Professores "da velha guarda" que não usam praticamente computadores e que não recomendam bibliografia em inglês "porque não dominam a língua". Antes pelo contrário, até lhes acho alguma graça, desde que os preconceitos ideológicos e académicos não prejudiquem os alunos. Agora, um Professor de (Introdução à) Cultura Contemporânea, que escreve regularmente na imprensa, num jornal de referência que presta bastante atenção ao que se passa na "blogosfera", vir dizer uma coisa destas, faz-me muita confusão. (E nem valerá a pena referir a contradição expressa no parágrafo que transcrevi.)

Generalizar desta forma a inutilidade dum fenómeno comunicacional contemporâneo, e cuja evolução hoje nem é possível prever, é incompreensível. Mais, acho ofensivo. EPC já terá sido várias vezes enxovalhado por alguns bloggers, mas outros haverá que o terão criticado (ou elogiado) educadamente, e com bons argumentos, porque o seu desempenho como cronista tem muito que se lhe aponte. E como ser inteligente que é, EPC não devia deixar que o ressentimento lhe afecte o raciocínio. Pela parte que me toca, reconheço-lhe várias qualidades - e não, isto não é graxa - ou não teria escolhido fazer a cadeira opcional que ele lecciona.

Existem triliões de blogues e, de facto, a maior parte deles não tem interesse por si. Ou porque mantêm um registo exclusivamente "umbiguista", ou porque se debruçam sobre temas que não nos interessam, you name it. O meu, por exemplo, não terá um interesse potencial para 99,9% dos internautas que falam português. (O que também não significa que eu considere que o meu blogue seja "lixo".) Mas existem muitos outros bloggers para além de Pacheco Pereira que dedicam o seu tempo a pensar a actualidade (e não só), que trazem novas perpectivas sobre variadíssimos temas de interesse público. É um media que se presta inclusivamente a servir a função de escrutínio ao "4º Poder". É este, aliás, o aspecto que me parece mais interessante (e importante) do debate que se gerou com o lançamento do livro de Manuel Maria Carrilho. (Que eu não li, bem entendido, mas que até gostava de ler, apesar da antipatia crescente que sinto em relação ao seu autor.)

De certa forma, este post também é uma tentativa sincera ainda que redutora de fazer isso, de criticar o que se diz, e como se diz, na imprensa. E como já escrevi essencialmente aquilo que pretendia dizer, fico-me por aqui.

[em cache]

sábado

Wanna see me disco?



Deceptacon, Le Tigre

sexta-feira

Separação de lixo

«Como já tenho dito numerosas vezes, não vejo blogues. Às vezes, pessoas mais solícitas enviam-me endereços por e-mail. Têm o destino marcado: o lixo imediato. Mas não deixo de ver a transcrição que vem nos jornais de algumas coisas que por lá se passam. E parece que Pacheco Pereira tem no seu Abrupto um texto que gostaria de sublinhar, dada a sua inegável oportunidade.(...)»

Eduardo Prado Coelho "não vê" (blogues), diz o Público de hoje.
Eu leio jornais. Mas há páginas que nem para reciclar servem.

quarta-feira

Live

Brasas

Sonhei que saía de casa para tomar um café. Andei até ao fundo da rua, vi que tinha aberto um sítio novo e entrei. Descobri que na parte de trás havia uma esplanada em cima da praia, coisa naturalíssima - o mar na Rua de São Bento. Atravessei o estabelecimento, onde estavam pessoas a comer ostras, a beber imperiais, e desci as escadas de madeira até ao areal. Apercebi-me de que tinha o fato-de-banho vestido. Que sorte. A água brilhava, reflectindo a luz do sol. As ondas eram perfeitas. Descalcei as sandálias e tirei a roupa. Permaneci um bocadinho de olhos fechados, a sentir a brisa fresca. Quando me preparava para mergulhar, acordei com o toque do telemóvel. Eram três da tarde. Tinha adormecido, cheia de calor, a seguir ao almoço.

sábado

Still


Jack Goldstein
Some Butterflies
1975 (16mm, colour, 30 secs)

Acção purificante

A indústria de cosméticos bem pode investir em I&D que nunca encontrará melhor exfoliante do que uma barba por fazer.

sexta-feira

Preceitos

Nunca colocar uma imagem feia no seu blog, não importando o quão engraçada ela seja.
- Lord ASS

Número 10

Caderneta

Marujo, o meu querido primo (que foi quem me falou de Silver Jews pela primeira vez), homem feito como sabes, anda desesperado para trocar cromos do Mundial 2006. Confesso que também fiquei com vontade de coleccionar quando vi a caderneta dele. Tem-nos comprado aos molhos e esta semana ficou cheio de problemas de consciência quando a senhora do quiosque lhe disse que depois chegam lá os miúdos a contar moedinhas e ela não tem nada para lhes vender. Sob pena dum dia destes ele se plantar no recreio da escola da filha (9 anos), de envergonhá-la junto dos colegas e ser acusado de pedofilia, surgiu a ideia de eu pôr um anúncio no blogue. Quem estiver interessado em despachar os repetidos para obter novos, envie-me um e-mail que eu promovo um encontro. Acho que ele ainda não tem o Rooney.

quarta-feira

Cromos



Não existe Garbo. Não existe Dietrich.
Existe apenas Louise Brooks.

- Henri Langlois

segunda-feira

Um cidadão exemplar

Respondendo diligentemente ao apelo do governo para o aumento da natalidade, o Tiago anunciou a semana passada que acaba de encomendar outro rebentinho. Ámen. Que é como quem diz: "ah, homem" (só que em inglês e no plural).

Janela indiscreta

Tenho um pombo no parapeito a olhar para mim há cinco minutos. O que foi, nunca viste? é o que me ocorre dizer-lhe.
Devo estar despenteada.

Condição humana urbana

E à noite, recolhe-se o lixo.

Beleza interior

A meio do exame a ginecologista comentou embevecida:

«O seu colo do útero é lindo.»

(não-autobiográfico)

quinta-feira

Gabinete de curiosidades


Monstra Niliaca Parei

Ulisse Aldrovandi, natural de Bolonha. Uma simpatia.
(Conheci-o ontem na biblioteca, quando folheava uma revista.)

Gémeos

Duplicidade, inconstância, versatilidade, dispersão... etc.

Está no signo.

Elemento: Ar


Bond of Union, 1956

quarta-feira

Retrato oficial

Who Should Paint You:
M.C. Escher


Open and raw, you would let your true self show for your portrait. And even if your painting turned out a bit dark, it would be honest.

terça-feira

O dispositivo #2

Descompensa se não diz como pensa.

segunda-feira

O dispositivo #1

«Kirkland was a student of Lee Strasberg and a member of the Andy Warhol coterie. She began acting Off-Broadway in 1962, and has been said to have been the first actress to appear nude in legitimate theater, in a 1968 production of Sweet Eros

O que a Wiki não refere é a participação de Sally Kirkland em Coming Apart (1969), longa-metragem de Milton Moses Ginsberg exibida no último Indielisboa na secção "Director's Cut". O filme não estava a concurso, mas decidi atribuir-lhe uma menção especial.

P.S. Não, Pedro, o meu blogue não acabou... Maybe next time.

Fora de competição

Como isto anda fraquinho de visitas...


King Kong, 1976

... primeiro "conjunto pictórico" do google.pt para o passarão Jessica Lange, com uma piscadela de olho ao Ma-Schamba, embora para mim Fay Wray (que guarda-roupa, senhores!) seja imbatível. Ou não concordasse eu com As Aranhas: «(...)o melhor cinema erótico de todos os tempos foi feito em Hollywood, entre os anos 20 e os anos 30.» Ponto de vista que o Luís desenvolve, muito bem, aqui.

domingo

Sitemetergate

O JPT sofre de radiculite, eu sofro frequentemente de ridiculite. Mantenha-se atento, que isto ainda vai fazer as primeiras páginas da imprensa internacional.

And they keep coming

Googlers from around the world:

The frame from Mulholland Drive you are looking for has never been published on this blog. I did link it, several months ago, but I've even deleted that post recently. There's no use in searching my archives because you will not find it here. I am sorry for the inconvenience.

Watts effect





For the last few weeks this is how my sitemeter looks like and now I regret to have ever made that fucking link.

sábado

Efeméride(zinha)



Quando era pequenina, por causa da franja e do cabelo curto, negro e muito liso, diziam-me que eu era parecida com "a vedeta mais popular do teatro ligeiro". Conhecia-a das performances nos "filmes antigos" e sempre lhe achei imensa graça. Faz hoje dez anos que Beatriz Costa morreu.

É irrepetível e absolutamente efémero: isso é que é fantástico, é o mistério do teatro! Não fica nada, só a memória do público, que entretanto vai morrendo...
Mário Viegas/Samuel Beckett (?)

[Citação retirada do sítio do Museu Nacional do Teatro, instalado no Palácio Monteiro-Mor, junto do maravilhoso parque com o mesmo nome (e do Museu do Traje), em Lisboa, onde comprei o postal... que aqui reproduzo sem autorização. Ops.]

quinta-feira

Em 3 segundos

«E a emoção, todos sabemos, é a chave da sedução.»

Não ter medo das palavras

Dicionário: Um dispositivo literário malévolo para impedir o crescimento da língua e para a tornar rígida e pouco flexível. Este dicionário, no entanto, é uma obra muito útil. (pág. 49)

Eu que me escudo nos dicionários injustificadamente, e que deles dependo tantas vezes para trabalhar, devia (obrigar-me a) ler esta definição todos os dias.

Efeméride

"A sombrinha que me deste. Naquele dia. (Pausa.) Aquele dia. O lago. Os nenúfares. (Olha em frente. Pausa.) Qual dia? (Pausa.) Quais nenúfares? (Longa pausa. Fecha os olhos. Campainha estridente. Abre logo os olhos. Pausa. Olha à direita.)"
[daqui]

Só conheço dois textos de Samuel Beckett: Dias Felizes e À Espera de Godot. Já não sei dizer qual dos dois vi primeiro em cena, porque foi há muito tempo. Não me lembro sequer da encenação nem dos actores (irrelevante para o caso). Mas lembro-me perfeitamente de sair do teatro a pensar que nunca tinha ouvido nada assim.

Faz hoje 100 anos que nasceu.

quarta-feira

Poinsettias


Artwork by Amanda Church

Em escuta: Mr Beast, Mogwai (2006)

Side effects

Uma das várias curtas-metragens de Jay Rosenblatt que estou a traduzir (e a legendar) tem 3 minutos e chama-se Afraid So, baseada neste poema de Jeanne Marie Beaumont:

Is it starting to rain?
Did the check bounce?
Are we out of coffee?
Is this going to hurt?
Could you lose your job?
Did the glass break?
Was the baggage misrouted?
Will this go on my record?
Are you missing much money?
Was anyone injured?
Is the traffic heavy?
Do I have to remove my clothes?
Will it leave a scar?
Must you go?
Will this be in the papers?
Is my time up already?
Are we seeing the understudy?
Will it affect my eyesight?
Did all the books burn?
Are you still smoking?
Is the bone broken?
Will I have to put him to sleep?
Was the car totaled?
Am I responsible for these charges?
Are you contagious?
Will we have to wait long?
Is the runway icy?
Was the gun loaded?
Could this cause side effects?
Do you know who betrayed you?
Is the wound infected?
Are we lost?

terça-feira

Nada a declarar

(...)

pregação acto de pregar; prédica; sermão; [pop.] repreensão; ralho

pregadeira fem. de pregador; almofadinha em que se pregam alfinetes e agulhas para não se perderem

pregado ICTIOLOGIA peixe pleuronectídeo, afim do rodovalho


(...)

Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 8ª edição.

domingo

Cenas dos próximos capítulos



A abertura da 3ª edição do Indielisboa é a 20 de Abril.
Para mim, já começou.

When two worlds collide

B. conta-me ao jantar que a relação com o gestor não está a correr bem. Que os opostos se atraem, mas que depois é difícil conciliar formas diferentes de encarar a vida. Que ele faz uma aproximação demasiado objectiva das coisas. No outro dia perguntou-lhe: «Onde é que queres estar daqui a cinco anos?» B., um pouco atónita porque não costuma pensar nisso, deu-lhe a resposta mais simples, a que eu muito provavelmente também daria: «Quero estar feliz, com quem gosto, satisfeita com o meu trabalho, sem grandes preocupações.» Ele explica-lhe que dentro de cinco anos quer estar no país X, na cidade Y, na situação profissional Z, que tem "um projecto de vida". B. respeita esta capacidade de planeamento, mas não funciona para ela. Diz que ali não há espaço para a emotividade. E eu nem cheguei a conhecer "o gestor".

sexta-feira

Trapos & etc.

Adoro broches*, anéis - herdei jóias lindíssimas, da minha avó, que uso pouco por serem demasiado vistosas - e sapatos. Não é fácil encontrar um par que me faça o gosto: raramente me sinto confortável de saltos altos (que se dane "a elegância") e como também já sou relativamente alta, não vejo necessidade de me pôr em bicos de pés. Perco a cabeça com os acessórios mais díspares, com "malinhas" (onde parece não caber mais nada para além do B.I.), golas de lã, meias (altas), roupa com detalhes, uns mais ousados, outros que se estranham precisamente por serem incomuns - tudo coisas supérfluas. Ainda hoje, de passagem pelo Chiado, estive tentada a comprar na Sisley um vestido sem costas. Mas depois achei que me poderiam fazer falta.

*É a palavra correcta.

Questões de género

(uma pessoa acorda, toma banho e abre o armário)

"Não tenho nada para vestir."

quarta-feira

Tentação aforística

Se vieres comigo, não vais querer outra coisa.

Maria on-line

"dois é a conta que deus não fez mas na qual os homens teimam"

A mesma pessoa que me ofereceu o livro Anthologie de l'Humour Noir, pelo meu 23º aniversário, escreveu-me há pouco esta frase numa janela do "messenger", a rematar uma banal conversação. Se ela concordar, eu gostaria de a incluir.

[para o Nuno]

Desassossego surrealista



Só por curiosidade, constato que uma tradução que fiz por puro prazer pessoal continua disponível "em cache".

Concordo com o André Breton

Chère imagination, ce que j'aime surtout en toi, c'est que tu ne pardonnes pas.

domingo

Querido blogue:

Depois de vários dias de bitchin' lombar, hoje as minhas miseráveis costas deram-me algum descanso e consegui passar largas horas alheada deste desconforto contínuo, esta dorzinha irritante... Aceitei de bom grado o convite da R. para o piquenique por ocasião do 33º aniversário dela, num parque florestal de Lisboa. Petiscos rústicos e sofisticados, requeijão com doce de abóbora, bolo de chocolate com morangos, uma logística impecável. Compareceram vários jovens cineastas, duas grávidas, crianças, bebés, e outras pessoas mais dificilmente catalogáveis, como eu própria. As minhas raquetes de badmington (a que raramente dou uso) foram muito requisitadas e jogou-se à bola, coisas que os intelectuais gostam de fazer ao ar livre. Conversa witty, gargalhadas, esplendor na relva, até estou menos pálida.

Há muito tempo que não fazia um piquenique urbano. Um dos que recordo com maior felicidade, devo-o à L. na Primavera de 2000, à beira do Sena, uns dias antes de me despedir de Paris, depois dos sete meses que lá passei. A cidade foi generosa comigo e só voltei para Lisboa antes da data prevista porque... Fica para outro post. Já é meia-noite e amanhã preciso de me levantar cedo.

sexta-feira

Anti-generalização

As mulheres não são todas iguais. Os homens também não.

Last diary entry

I hope the leaving is joyful and I hope never to return.

A long way


Frida on White Bench, 1939
Nickolas Muray

They are so damn 'intellectual' and rotten that I can't stand them anymore... I [would] rather sit on the floor in the market of Toluca and sell tortillas, than have anything to do with those 'artistic' bitches of Paris.

Frida Kahlo (on André Breton and the European surrealists), letter to Nickolas Muray, 02-16-1939.

Representação

«A Frida não gosta que falem por ela.»

Ass. Diego

terça-feira

O meu bigode nunca incomodou ninguém, Charlotte


Ass. Frida

Quase heroína

Sinto-me uma frida kahlo sem rivera nem trotsky. Falta também a gravidade e sobretudo o talento.

Médico de família

Não te aflijas, filha. Se isto piorar, opera-se.

segunda-feira

Querido blogue:

Acho que a maior parte das pessoas que aqui vêm não ouve a música que nós passamos. É pena. O melhor que esta versão de Serge Gainsbourg tem não é sequer a Cat Power e a Karen Elson a cantar e a arfar, mas sim o arranjo clássico (orquestral?) de piano, violoncelo(?) e clarinete, com bateria. (Estou a adivinhar, porque uma das desvantagens dos downloads de música, em detrimento da compra de discos, é que não há "livrinho" para nos tirar estas dúvidas.) O melhor de cerca de cinco minutos são os trinta segundos finais. E agora vou voltar para o meu leito, onde estive a agonizar a tarde quase toda e de onde não deveria ter saído (já viste bem esta merda de post?). Não sei se apanhei um vírus ou se estou a sofrer efeitos secundários dos anti-inflamatórios que ando a tomar para as dores nas costas. Talvez seja apenas um castigo divino - já estive mais longe de acreditar - por alguma coisa que (não) deveria ter feito. Até logo.

sábado

Tão libidinosas que nós somos




Aposto que o marido de Karen Elson, Jack White, gosta desta versão do já estafado Je t'aime, moi non plus. Eu também.

Melofobia

Não negue à partida um blogue que desconhece.

Agitação relativa

Ontem ainda cheguei a tempo de assistir ao final de mais uma actuação do "song jockey" Spinnen - atenção ao Spider's Great Cover Show, constou-me que há outras surpresas na manga.

Enquanto ouvia a música e conversava encostada ao bar, reparei nas duas raparigas que, do outro lado da "pista", trocavam carícias e olhares intensos, apesar da discrição. Um dos amigos que me acompanhava disse estar excitado, o outro chocado. Eu achei que elas eram feiosas. Rimo-nos e mudámos de assunto.

quinta-feira

Citando alguém que não percebe nada de pesca

Tudo o que vier à rede é peixe.

Raio-X

- Vai ter de tirar o cinto por causa do metal.
- Se me caírem as calças, a responsabilidade é sua.

Errata

Em baixo, onde se lê "com olhos de ver" leia-se "como deve ser".

sábado

Impressões dos subúrbios


Predmestje (Suburbs)

Passei uns dias no Algarve, acordava praticamente em cima da Ria Formosa, de óculos escuros, tal era a luminosidade que inundava o quarto de hotel logo pela manhã. Não fui de férias. Desloquei-me até Faro para assegurar a legendagem em português de algumas longas-metragens de ficção que estavam em competição no festival. Apesar de não ter visto nada com olhos de ver, também sei dar estrelinhas (com exigência):

- Dunia, Jocelyne Saab, 2005, Libano/Egipto/França *
- Orient Express, Sergiu Nicolaescu, 2004, Roménia **
- Predmestje, Vinko Möderndorfer, 2004, Eslovénia *****
- Olasz Lányoki (Italian Girls), Helmis Napoleon-Leonardo, 2004, Roménia *
- Il Pane Nudo, Rachid Benhadj, 2005, Itália/Argélia/França *
- Douar de Femmes, Mohamed Chouikh, 2005, Argélia ***
- Sof Ha'Olam Smola (Turn Left at the End of the World), Avi Nesher, 2004, Israel/França ****

Os filmes lincados são os que eu gostaria de ver distribuídos no circuito comercial... wishful thinking. Menção especial para Predmestje (Suburbs). Irónico, cru e incómodo: quatro amigos xenófobos com vidas vazias, que nas horas livres se embebedam, protagonizam diálogos absurdos e recolhem cães vadios para exercitar a pontaria com a caçadeira. Quando no prédio dum deles se instala um jovem casal oriundo da Turquia, colocam uma câmara de vigilância apontada para o quarto de dormir dos novos vizinhos, movidos pela inveja da sua actividade sexual.

«Suburbs is a film about the worst suburbs of all. It is a story about the suburbs in the human soul. I am convinced that in this the story of Suburbs is universal, since it discusses the reasons for the irrational hatred, which unfortunately still smoulders all over our common Europe.» (director's statement)

Passatempo



Não consegue ler? Experimente semicerrar os olhos. Ou então...

["provocação" dedicada ao Random Walks & Thoughts]

Incrível, diz a cabeleireira

O meu cabelo não espiga.

terça-feira

Ursula Maior



Concerto esta quinta-feira, às 22h30, no Lux-Frágil.

Pimpy

Ao pé dele as mulheres pareciam ordinárias.

Acidente de percurso

Entalei a mão esquerda na porta dum carro. Doeu, e não foi pouco. Graças ao balde de gelo, sangue frio e borracha, não deixou marca. Bastaria um dedo partido e teria levado, com toda a certeza, uma sova com a mão direita. Teve sorte.

domingo

Nonsense of the day

«Suggested Usage: Atheism is a non-prophet organization that attracts few admirers in the US because it has no holidays. We mention it today only because of its interesting etymology and the jokes it attracts.»

Irresistível


Anna Karina por JLG

- Depois vamos para um hotel chique e divertimo-nos.
- Estão a ver, ela só pensa em divertir-se.
- Com quem é que estás a falar?
- Com os espectadores.

Pierrot Le Fou

sábado

Dialogues

Em bom rigor, a esta hora, eu devia era estar na Sala Félix Ribeiro a (re)ver Pierrot Le Fou, o belíssimo filme de Godard e um dos mais citáveis de todos os tempos - já tinha matéria para posts até ao final do mês.

The music shifts

Neste momento Stephin Merritt toca ukelele.

You kulele, me kulele...

Metamorfose



O João criou um photoblog. Chama-se Westbound.

Juntos à nascença

A Helena a.k.a. Gold tem um blogue novo, Tristes Tópicos, e o Eduardo também, A Sexta Coluna (bom template). Com alguns dias de intervalo.

Só tenho jeito para o cha cha cha (take 2)

A Inês não acredita num homem que não a leve a comprar livros. Eu, bem mais prosaica como é meu apanágio, não acredito num homem que não me leve a dançar. Faz-me bem àquela coisa discal.

Só tenho jeito para me cobrir com chantilly (take 1)

A Inês não acredita num homem que não a leve a comprar livros. Eu, bem mais prosaica como é meu apanágio, não acredito num homem que não me leve a jantar fora. É que eu não sei cozinhar.

Liberaldinosos*

Há quem confunda "flirtismo" com "fufismo". Até mesmo pessoas que sabem ler e escrever.

*A deliciosa expressão é do Opinion Desmaker.

Palhaçada

Sugestão do NG: Brokeback Mountain sobre duas cowgirls lésbicas. Uma loira, outra morena? Hum...