domingo

Imagem

Mas que a tua demora seja breve:
com o tempo as saudades diminuem.
Apaga-se a imagem do ausente
e logo a vida um novo amor desenha.

Ovídio, Arte de Amar, Tradução de Natália Correia e David Mourão-Ferreira, Vega, 1994, pp.88

Apagar é humano

«Passava a vida a limpar a sua imagem. Até que, um dia, sem querer, apagou-a.»

posted by Melancómico

Delete, uma ciência imperfeita

O meu primeiro blogue.

sexta-feira

Rádio Motown


Marvin Gaye & Tammi Terrell

Ain't No Mountain High Enough (1967)

Vai-se andando

Trata-se de imaginar como várias personagens responderiam à pergunta "Como vai?" Inicialmente, o jogo foi realizado com (...) Depois reciclei as sugestões à minha maneira.

- Édipo: «A mãe é feliz.»
- Dâmocles: «Poderia ser pior.»
- Ulisses: «Não respondo, pode tirar o seu cavalinho da chuva.»
- Pitágoras: «Dá tudo certo.»
- Sócrates: «Não sei.»
- Platão: «Idealmente.»
- Aristóteles: «Sinto-me em forma.»
- Epicuro: «Estou mal-disposto.»
- Onan: «Contento-me.»
- Joana d'Arc: «Está calor.»
- Nostradamus: «Quando?»
- Henrique VIII: «Eu bem, a minha mulher é que...»
- Vivaldi: «Conforme as estações.»
- Newton: «Regularmente.»
- Robespierre: «Estou sem cabeça para isto.»
- Sade: «Eu, tudo bem.»
- D'Alembert e Diderot: «Não se pode dizer em duas palavras.»
- Kant: «Situação crítica.»
- Hegel: «Em síntese, bem.»
- Marx: «Irá melhor.»
- Darwin: «Uma pessoa adapta-se.»
- Proust: «Vamos dar tempo ao tempo.»
- Kafka: «Sinto-me um verme.»
- Madame Curie: «Sinto-me radiante.»
- Freud: «Diga o senhor.»
- Popper: «Prove que vou mal.»
- Camus: «Uma peste.»
- Judas: «Com um sorriso nos lábios.»
- Jerónimo Bosch: «Mas que diabo quer?»
- Ghandi: «O apetite não falta.»
- Agatha Christie: «Adivinhe.»
- Einstein: «Relativamente a quem?»
(...)

Umberto Eco, O segundo diário mínimo, Difel, 1993, pp. 336-339

sms (correio dos leitores)

«Não fazia ideia que tinha havido outra vez dança de blogs. Gosto do nome. Não gostava do anterior. Beijo»

terça-feira

Rádio Dancing Queen



Goste-se ou não, ninguém pode negar que Madonna sabe muito bem o que faz. Rodeia-se dos melhores produtores de música (dançável), já para não falar da estética, e normalmente não falha nas suas opções. O último single, Hung Up (está a tocar no Controversa Maresia), como quase sempre, dá logo vontade de abanar a anca, sobretudo pelo tom disco, a que não será alheia a utilização de um (ou será uma?) sample dos clássicos Abba, da música Gimme Gimme Gimme. Lembrei-me entretanto do DJ francês Mirwais, que se não me engano já produziu dois discos de Madonna e que também participou na banda sonora de Snatch (2001), filme realizado pelo marido dela, Guy Ritchie, com interpretações de Brad Pitt e Benicio Del Toro (suspiro), entre outros. Acho que o meu tema preferido dessa banda sonora - o Lucky Star de Madonna não conta, porque eu já o conhecia de ginjeira - é precisamente Disco Science, de Mirwais (totalmente "instrumental"). E o que tem de especial esta música - para além das chicotadas virtuais? Nada mais nada menos do que um (ou será uma? - talvez algum dos Quase Famosos me possa tirar esta dúvida existencial) sample de Cannonball, das Breeders, banda alternativa da queridíssima Kim Deal (Pixies). Ideal para um pézinho de dança num infernal sábado à noite, mas também serve para ouvir no carro, numa 3ªfeira à tarde, a caminho das aulas.

Disco Science, Mirwais

segunda-feira

Post-graduate trend

(no secretariado)

- Boa tarde. Queria fazer a inscrição nas cadeiras optati...
- Adoro a sua mala.

Eu hoje acordei assim...

«(...) A razão da existência de um Ministério da Cultura está para além da mera distribuição de apoios às artes.
Está em primeiro lugar na capacidade de entender e fazer entender a criatividade, as suas novas formas e as suas indústrias e estimulá-la para além dos quadros tradicionais em que se colocam as artes e os artistas. Está em segundo lugar na capacidade de fazer entender que a cultura que se supõe que o Ministério cuide ultrapassa hoje o campo restrito das artes e atravessa e é atravessado pelas práticas e conhecimentos que decorrem das evoluções científicas e tecnológicas e que sofre as consequências de uma economia que assenta na disputa de espaços de comunicação.
(...) e ao contrário do que muitos afirmam desconsiderando a política na vida cultural, ela nunca foi tão fundamental porque em Portugal, como aliás em toda a Europa de hoje, as políticas para a cultura afectam, de um modo decisivo, a vida em geral dos cidadãos.»

António Pinto Ribeiro, Da vida em geral e da política em particular, no PÚBLICO de hoje.

Não é por trabalhar actualmente em alguns projectos com APR que me identifico com as suas opiniões, mas sim o contrário. É por esta e por outras que gosto de trabalhar com ele. [Só não me conformo que poupe tanto nas vírgulas, mas também admito que eu, muitas vezes quando escrevinho, possa pecar por excesso.]

sábado


Kate, Gary Hume, 1996

Eco

[para a Charlotte]

Marcel Proust

Vou contar sem nenhum véu
o que a Proust aconteceu
que era um velho cataplasma
oprimido pela asma
com a vida vigiada
por uma velha criada.
Mas um dia enquanto à tardinha
chá bebendo se entretinha,
sentiu na boca um gosto arcano,
indizível, sobre-humano,
como se em casa não estivesse,
fraco e opresso pela tosse,
mas de repente, bem se vê,
se encontrasse já em Combray,
quando às saias agarradinho
da avó e da mãezinha
adormecia o coitadinho
depois do último beijinho
(que esperava perturbado,
com o coração alterado,
como se fosse aquele gentil
beijo como um Perequil).
Preso na calha morta
da lembrança, com a torta
ainda de tília embebida
na garganta, de seguida,
o Marcelo de repente
um programa viu à sua frente
e decidiu sem hesitar
seu refúgio procurar
das asperezas do presente
numa acção progrediente
de procura do passado
já perdido e reencontrado
por magia extraordinária
de memória involuntária.

E voltou sem hesitar
os Campos Elísios a recordar,
quando alegre ao livre ar
com Gilberta ia brincar -
que traiu, que triste fim,
com a gótica Albertina,
maliciosa campesina
que de bicicleta vinha.
E muito, a bem dizer,
na praia teve que fazer,
e alcançou por fim o clou
ao conhecer Saint-Loup.

Revivia em seu coração
de Verdurim o salão,
onde ele se armava em fã
daquele dandy de Swan
(que muito foi falado
por com Odette ter casado
que era sim uma concubina
mas de classe superfina...)
e com muita discrição
de Charlus a perversão
tolerou com o fim insano
de parecer mais mundano,
filiado na camorra
de Sodoma e Gomorra.
Finalmente cumpre o voto
e acede, pio e devoto,
ao santuário assaz charmant
onde oficiam os Guermantes.
Mas apenas isso contar
claro que não vos põe a par
do sentido substancial
dessa viagem temporal
que Marcel soube encarar
em medida tão exemplar.
Ler sem ser interrompido
esse romance desmedido
eu garanto, e é sabido,
que não é tempo perdido.

Umberto Eco, O segundo diário mínimo, Difel, 1993, pp. 290-292

quinta-feira

Hoje não saio de casa


O Helen, I Roam My Room (1970), Patrick Caulfield

quarta-feira

Palavra do dia: Ai (sem acento no i)

Hoje acordei cedinho, bem disposta, penteado novo («Vou-lhe abrir o olhar», disse a cabeleireira com a tesoura apontada à minha franja, que me andava a causar um problema sério de visibilidade), já tinha a reunião da manhã preparadinha, uma série de posts giros para fazer (a cores e tudo), e ontem à tarde tive uma surpresa tão boa (só espero estar à altura do simpático convite com sotaque açoreano). Ainda tive tempo de ler o jornal e ir à mercearia comprar espinafres para fazer uma sopa saborosa e estou convencida que não engordei, mesmo depois de ter comido duas fatias de bolo de chocolate obscenamente grandes na semana passada. Portanto, estava tudo a correr sobre rodas.

Eis senão quando... Alegre e contente a conduzir a minha viatura, ao som de Les Rythmes Digitales, um polícia manda-me encostar. Primeira constatação: este palhaço vai-me fazer chegar atrasada à reunião. Segunda constatação, depois dele me pedir os documentos: será que este tipo não tem mais nada para fazer? De certeza que naquele preciso momento estaria alguém a assaltar uma loja ou a cometer um atentado ao pudor pelas redondezas. «A validade da inspecção expirou em Outubro», disse ele com ar grave, ostentando um bigode hirto, e sobretudo ridículo. «Vai ser autuada em 250 euros.» Ai. «Como?! Senhor Guarda... Eu sou humana, distraída, seja compreensivo, esse bigode fica-lhe tão bem...» Resposta: «Pode pagar em dinheiro, cheque ou multibanco. Já chamámos uma viatura com essa funcionalidade. Se não pagar agora, apreendo-lhe a carta, que só será devolvida quando efectuar o pagamento.» #%/YH#"#$%&/, pensei eu. Que remédio, tive de pagar. Mas não sem antes lhe ter agradecido ter-me estragado o dia, e espero que esteja satisfeito com a sua boa acção, e que bela maneira esta de desperdiçar os recursos do estado, gastando o dinheiro dos contribuintes a chamar viaturas da polícia com um terminal de multibanco, espero que lhe sejam retiradas todas as regalias na reforma, que arda no inferno e por aí em diante. É claro que, à luz da lei, a razão estava do lado dele. Mas caramba! CINQUENTA CONTOS devido a uma distracçãozita, não fiz mal a ninguém... Agora estou infeliz a pensar onde vou ter de cortar nas despesas nos próximos tempos para equilibrar umas contas que já não estavam muito equilibradas. Lá se vai o arranjo do bate-chapas por causa daquela amolgadel... err... Não interessa.

De volta a casa, encontrei pelo caminho a Joana Amaral Dias num cruzamento. Quer dizer, se calhar não era ela. Podia ser aquela sósia que é mandatária da juventude daquele senhor, ai, como é que ele se chama? Um senhor assim com uma certa idade, idade para ter juízo, que já fez o que tinha a fazer na vida política portuguesa, protagonismo quanto baste, e agora arrisca-se a passar a humilhação da vida dele. Chorará as suas mágoas bebendo trinaranjus com os seus netinhos, que devem ser mais velhos do que eu. São rosas, senhor.

Vai daí, fui ao frescos, à procura de algo que me animasse. Via Bomba Inteligente, cheguei à Mal Amada. Fartei-me de rir, mas não é um blogue aconselhado aos mais impressionáveis. Para recuperar a minha boa disposição, que ficou encolhida numa esquina, algures na Av. da Liberdade, bom mesmo seria aparecer no destaque do Bomba Inteligente (cliquem muito, por favor, senão ela não repara), ao pé da Mal Amada. Afinal, tenho algumas afinidades com a Ma, nem que seja o facto de ambas possuirmos um aparelho reprodutor feminino. Por outro lado, duvido muito que ela fosse tão descuidada (ou idiota, conforme a perspectiva) ao ponto de deixar, como eu fiz, que lhe roubassem o ex-URL, onde agora está alojado um pseudo-blogue chamado "Mega Cock Cravers" (que coisa linda), sem que eu tenha grandes hipóteses de reencaminhar para aqui algumas pessoas que gostam de ler os meus dislates (ainda deixei lá um comentário, coisa que não serve de muito). Mas enfim, ninguém tem culpa que o meu carro ande ilegal por essa cidade fora, a não ser eu própria, como é evidente.

Agora pareço uma metralhadora, a teclar duzentos caracteres por segundo. Desculpem, mas tinha de desabafar. Ai. 50 contos. O segurança do Instituto ainda foi simpático, como sempre. Tendo assistido à cena toda que envolveu o agente da autoridade, ofereceu-se para me estacionar o carro e pagou-me o parquímetro. Quando quis reembolsá-lo, recusou. «Sôtoura, deixe lá. Hoje já gastou tanto dinheiro...» Engraçadinho.

Entretanto, os periquitos do vizinho estão-me a infernizar a cabeça. Acho que vou ali partir um prato para soltar a minha raiva. Não, talvez seja má ideia. Já seriam 50 contos, mais uns trocos. Preciso de poupar. Em vez disso, vou mas é respirar fundo e enfrentar isto como uma mulherzinha, que é como diz, marcar a inspecção do carro. Ai.

Mas ainda não é tudo! Acabo de ler um curriculum, de onde consta na secção "Actividades Cívicas" que o dito cujo «foi Administrador de Condomínio na Rua X, entre 2001 e 2002». Merecia ser autuado. Meu deus, que mais me irá acontecer?

Uns minutos depois... leio uma resposta possível: o Blogue de Esquerda vai acabar no final deste mês.

terça-feira

Ontem ouviram-se sirenes

Hoje tocam os sinos.

Desmemória colectiva

Eu esqueço-me e os outros também.

domingo

Ink


Espace Naturelle (2000), Gao Xingjian

«The music - Bach, Messiaen, Kodaly, Reich, jazz or Chinese folk music - is necessary, listened to repetitively for as long as needed, for several days, he says, before the painting begins to appear.»

Inward Gaze, Asian Art News, May/June 2005

Mozart swinga

bloggers a escrever com muita graça e engenho sobre música. Por exemplo, no Pitau Raia.

Alta literatura

Arruma-se nas estantes de cima.

sexta-feira

Post confessional

Deixei queimar o jantar.

Conversas em família

A minha mãe diz que Cavaco Silva parece ter engolido um cabide.