quinta-feira

Hoje não saio de casa


O Helen, I Roam My Room (1970), Patrick Caulfield

quarta-feira

Palavra do dia: Ai (sem acento no i)

Hoje acordei cedinho, bem disposta, penteado novo («Vou-lhe abrir o olhar», disse a cabeleireira com a tesoura apontada à minha franja, que me andava a causar um problema sério de visibilidade), já tinha a reunião da manhã preparadinha, uma série de posts giros para fazer (a cores e tudo), e ontem à tarde tive uma surpresa tão boa (só espero estar à altura do simpático convite com sotaque açoreano). Ainda tive tempo de ler o jornal e ir à mercearia comprar espinafres para fazer uma sopa saborosa e estou convencida que não engordei, mesmo depois de ter comido duas fatias de bolo de chocolate obscenamente grandes na semana passada. Portanto, estava tudo a correr sobre rodas.

Eis senão quando... Alegre e contente a conduzir a minha viatura, ao som de Les Rythmes Digitales, um polícia manda-me encostar. Primeira constatação: este palhaço vai-me fazer chegar atrasada à reunião. Segunda constatação, depois dele me pedir os documentos: será que este tipo não tem mais nada para fazer? De certeza que naquele preciso momento estaria alguém a assaltar uma loja ou a cometer um atentado ao pudor pelas redondezas. «A validade da inspecção expirou em Outubro», disse ele com ar grave, ostentando um bigode hirto, e sobretudo ridículo. «Vai ser autuada em 250 euros.» Ai. «Como?! Senhor Guarda... Eu sou humana, distraída, seja compreensivo, esse bigode fica-lhe tão bem...» Resposta: «Pode pagar em dinheiro, cheque ou multibanco. Já chamámos uma viatura com essa funcionalidade. Se não pagar agora, apreendo-lhe a carta, que só será devolvida quando efectuar o pagamento.» #%/YH#"#$%&/, pensei eu. Que remédio, tive de pagar. Mas não sem antes lhe ter agradecido ter-me estragado o dia, e espero que esteja satisfeito com a sua boa acção, e que bela maneira esta de desperdiçar os recursos do estado, gastando o dinheiro dos contribuintes a chamar viaturas da polícia com um terminal de multibanco, espero que lhe sejam retiradas todas as regalias na reforma, que arda no inferno e por aí em diante. É claro que, à luz da lei, a razão estava do lado dele. Mas caramba! CINQUENTA CONTOS devido a uma distracçãozita, não fiz mal a ninguém... Agora estou infeliz a pensar onde vou ter de cortar nas despesas nos próximos tempos para equilibrar umas contas que já não estavam muito equilibradas. Lá se vai o arranjo do bate-chapas por causa daquela amolgadel... err... Não interessa.

De volta a casa, encontrei pelo caminho a Joana Amaral Dias num cruzamento. Quer dizer, se calhar não era ela. Podia ser aquela sósia que é mandatária da juventude daquele senhor, ai, como é que ele se chama? Um senhor assim com uma certa idade, idade para ter juízo, que já fez o que tinha a fazer na vida política portuguesa, protagonismo quanto baste, e agora arrisca-se a passar a humilhação da vida dele. Chorará as suas mágoas bebendo trinaranjus com os seus netinhos, que devem ser mais velhos do que eu. São rosas, senhor.

Vai daí, fui ao frescos, à procura de algo que me animasse. Via Bomba Inteligente, cheguei à Mal Amada. Fartei-me de rir, mas não é um blogue aconselhado aos mais impressionáveis. Para recuperar a minha boa disposição, que ficou encolhida numa esquina, algures na Av. da Liberdade, bom mesmo seria aparecer no destaque do Bomba Inteligente (cliquem muito, por favor, senão ela não repara), ao pé da Mal Amada. Afinal, tenho algumas afinidades com a Ma, nem que seja o facto de ambas possuirmos um aparelho reprodutor feminino. Por outro lado, duvido muito que ela fosse tão descuidada (ou idiota, conforme a perspectiva) ao ponto de deixar, como eu fiz, que lhe roubassem o ex-URL, onde agora está alojado um pseudo-blogue chamado "Mega Cock Cravers" (que coisa linda), sem que eu tenha grandes hipóteses de reencaminhar para aqui algumas pessoas que gostam de ler os meus dislates (ainda deixei lá um comentário, coisa que não serve de muito). Mas enfim, ninguém tem culpa que o meu carro ande ilegal por essa cidade fora, a não ser eu própria, como é evidente.

Agora pareço uma metralhadora, a teclar duzentos caracteres por segundo. Desculpem, mas tinha de desabafar. Ai. 50 contos. O segurança do Instituto ainda foi simpático, como sempre. Tendo assistido à cena toda que envolveu o agente da autoridade, ofereceu-se para me estacionar o carro e pagou-me o parquímetro. Quando quis reembolsá-lo, recusou. «Sôtoura, deixe lá. Hoje já gastou tanto dinheiro...» Engraçadinho.

Entretanto, os periquitos do vizinho estão-me a infernizar a cabeça. Acho que vou ali partir um prato para soltar a minha raiva. Não, talvez seja má ideia. Já seriam 50 contos, mais uns trocos. Preciso de poupar. Em vez disso, vou mas é respirar fundo e enfrentar isto como uma mulherzinha, que é como diz, marcar a inspecção do carro. Ai.

Mas ainda não é tudo! Acabo de ler um curriculum, de onde consta na secção "Actividades Cívicas" que o dito cujo «foi Administrador de Condomínio na Rua X, entre 2001 e 2002». Merecia ser autuado. Meu deus, que mais me irá acontecer?

Uns minutos depois... leio uma resposta possível: o Blogue de Esquerda vai acabar no final deste mês.

terça-feira

Ontem ouviram-se sirenes

Hoje tocam os sinos.

Desmemória colectiva

Eu esqueço-me e os outros também.

domingo

Ink


Espace Naturelle (2000), Gao Xingjian

«The music - Bach, Messiaen, Kodaly, Reich, jazz or Chinese folk music - is necessary, listened to repetitively for as long as needed, for several days, he says, before the painting begins to appear.»

Inward Gaze, Asian Art News, May/June 2005

Mozart swinga

bloggers a escrever com muita graça e engenho sobre música. Por exemplo, no Pitau Raia.

Alta literatura

Arruma-se nas estantes de cima.

sexta-feira

Post confessional

Deixei queimar o jantar.

Conversas em família

A minha mãe diz que Cavaco Silva parece ter engolido um cabide.

quinta-feira

Rádio nostalgia (pouco alternativa)

It's raining again

Esta notícia não me sai da cabeça

«Afinal, a areia movediça não engole pessoas»

(Público, 08.10.05)

O título dizia tudo.

quarta-feira

Regresso às aulas #1

Em vez de cadernos e lápis novos, um computador portátil.

Regresso às aulas #2

No primeiro dia houve uma professora que citou o(s) Gato(s) Fedorento(s).

Regresso às aulas #3

- O que é que queres para o Natal?
- Um projecto de tese...

This is not art, this is life!

O meu trabalho de tradução e legendagem de filmes para o doclisboa já acabou. Mas não consigo largar as listas de diálogos (no original) de Ross McElwee. Leio e releio. Quando Ross era muito novo queria ser escritor. Depois começou a interessar-se por cinema, e pelo género documentário em particular. O cinema verité no entanto não o satisfazia. Sentia que faltava qualquer coisa. Filmar "a realidade" sem qualquer intervenção do realizador parecia-lhe estranho. Por isso, começou a fazer exercícios auto-biográficos em que ia revelando o que pensava enquanto filmava. Foi aí que encontrou a sua voz e é por isso que os filmes dele me parecem tão originais e extraordinários. Porque consegue falar dele sem ser chato, com uma auto-ironia deliciosa, ao mesmo tempo que se debate eloquentemente com questões metafísicas comuns. Profundo, mas muito simples e despretensioso.

Sherman's March foi um dos documentários mais vistos nos Estados Unidos, nos anos 80, antes da "era Michael Moore" - com quem Ross, apesar de tudo, não se identifica nem um bocadinho. Neste filme ele parte num périplo pelo Sul, seguindo o rasto de destruição que o general Sherman deixou para trás durante a Guerra Civil Americana. Simultaneamente parte em busca da mulher ideal por quem se apaixonar. Encontra uma linguista, uma aspirante a actriz, uma militante anti-nuclear e outras. É claro que não é exactamente a vida de Ross que ali vai sendo exposta. Ele cria uma persona baseada em si mesmo, é quase uma caricatura do homem que vive através da câmara.

It's a little like looking into a mirror and trying to see what you look like when you're not really looking at your own reflection.

Depois, vai buscar "home movies" da infância dele e outros que ele próprio foi fazendo sem nenhum objectivo específico. Aproveita na montagem muitos excertos, chega a usar os mesmos de filme para filme, dando-lhe novos significados. Há também uma série de "personagens" recorrentes no seu trabalho, pessoas que lhe são próximas como o pai, a mulher, o filho - estes dois últimos nos filmes mais recentes. A minha preferida é Charleen, uma amiga de Ross de longa data, que foi professora dele na escola secundária, em Charlotte, de que ambos são naturais. Charleen é uma força da natureza, hiper-enérgica, muito divertida, mas que também revela por vezes uma sensatez desconcertante. Não resisto a transcrever mais um excerto de Sherman's March em que Charleen está a tentar impingir uma amiga a Ross, que vai filmando tudo enquanto conversa com os seus interlocutores "escondido" por trás da câmara.

Restaurant;
Charleen: I am bored with your singleness. It is a bore for you to get to middle age and be lonely.
Ross: Well, I've made attempts at correcting that situation.
Charleen: That's the other thing that's boring - failure! You have been insufficient in this quest, so I have to take over. (...)

Meeting Deedee;
Charleen: Now look at him for the first time.
Ross: Hello, Deedee. I'm glad to meet you.
Deedee: I'm glad to meet you too.
Ross: Charleen has, to say the least, said a lot about you.
Deedee: And about you.
Charleen: Would you stop!
Ross: Don't touch the lens!
Charleen: I can't help but touch it. This is important. This is not art, this is life! (...)

Porch;
Charleen: What happened with Deedee last night?
Ross: Charleen, did you know that she's a Mormon?
Charleen: Well, I didn't know it at first.(...)
Ross: I don't see why you thought we had that much in common. We're actually very different people. She intends to marry someone who can bring the priesthood into her house.
Charleen: Who can bring the priesthood into her house...? Ross, I counted on you about that. I figured that even though Deedee's a Mormon, that the moment she saw you, she'd realize that religion was just a stall for time.
Ross: No, she's very serious about her religion.


Charleen: She's only serious about her religion because she's not in love. If she would fall in love with you, it would be different. Ross, you blew it with Deedee, but while you were gone to Atlanta, I found a girl who's better than Deedee. I found a wonderful girl. She looks like the angel on the top of the Christmas tree. She's absolutely perfectly beautiful. She's not a Mormon; in fact, she sleeps around! I can't wait for you to meet her...

Voice-over;
Ross: I decided to leave Charleston before I get into more trouble with Charleen's ideas of marriage brokerage. (...)


E por aí fora. No meio disto tudo, Ross aborda também os tiques e manias do Sul dos Estados Unidos, e não só. A relação entre negros e brancos também é um dos tópicos recorrentes. Enfim, gostava de fazer mil posts sobre o trabalho dele, mas não pode ser, até porque os filmes são para ser vistos e não lidos.

Thank you, Ross. It was such a pleasure. Keep up the good work and give my regards to Charleen.

segunda-feira

Transcript

MAP WITH HISTORICAL NARRATION; VOICE-OVER (VO):
In 1864, during the American Civil War, Union general William T. Sherman began his famous "March to the sea". With an army of 60,000 men, he swept into the South destroying Atlanta, Georgia, Columbia, South Carolina, and dozens of smaller towns. His troops plundered homes, destroyed livestock, burned buildings, and left a path of destruction 60 miles wide and 700 miles long before finally forcing a Confederate surrender in North Carolina. Sherman's military campaign marked the first time in modern history that total warfare had been waged on a primarily civilian population, and traces of the scars he left on the South can still be found.



ROSS McELWEE; VO:
«Do you want to do it once more?»
HISTORICAL NARRATOR:
«Do it again. Yes.»

FILMMAKER PACING IN EMPTY ROOM; VO:
Two years ago, I was about to shoot a documentary film on the lingering effects of Sherman's March on the South. I'm from the South and all through my boyhood I heard stories about how Sherman had devastated the South. My aunt even keeps a sofa in her attic which is punctured by sword holes put there by Sherman's soldiers as they searched for hidden valuables.

She says she'll never allow the holes to be sewn up. Anyway, I'd gotten a grant to make my film and I stopped off in New York from Boston where I live to stay for a few days with the woman I'd be seeing. But when I arrived, she told me she'd just decided to go back to her former boyfriend. We argued and then I left and went to stay alone in a friend's studio loft, which happened to be vacant at the time.

Finally, I headed South to see my family, and to try to begin my film.
(...)

Excerto inicial do filme SHERMAN'S MARCH: A MEDITATION ON THE POSSIBILITY OF ROMANTIC LOVE IN THE SOUTH DURING AN ERA OF NUCLEAR WEAPONS PROLIFERATION, de Ross McElwee, 1985.

domingo

Retrospectiva: first-person nonfiction cinema

Bright Leaves (2003), Filmmaker Ross McElwee on location in North Carolina tobacco field

No doclisboa (e também, descobri agora, no MoMA).

Carolina

Não sabia se era mulher, se era estado.

sábado

Celle-ci n'est pas moi


Z., 2004

quarta-feira

BN

Gosto dela por causa do pé direito.