sexta-feira

Desmaterialização



"Frases para ter na carteira" (Livramento, 2006) está à venda na Livraria Ler Devagar (ao lado da Galeria Zé dos Bois), no Bairro Alto (pois onde é que haveria de ser?). Para mais informações, por favor, contactar livramento@xsmail.com. Obrigada.

segunda-feira

Convite



Nota: O miradouro de Santa Catarina fica perto do Bairro Alto, em Lisboa. Também é conhecido por muita gente como "Adamastor".

Intro

"Podia começar com uma citação espirituosa, mas deixemos isso mais para a frente.
Este pequeno livro reúne uma colecção de aforismos (com aspas, claro) da autoria de um grupo de pessoas com sensibilidades diferentes. Algumas destas frases para ter na carteira (ou onde der mais jeito) já foram publicadas na internet, em blogues, onde o registo aforístico tem sido largamente explorado. Outras são originais, próximas de poemas ou de histórias curtas.
A selecção e a organização das frases aqui publicadas resultam da minha livre associação de ideias. Foi um trabalho de (re)corte e colagem. As ilustrações foram escolhidas posteriormente pelo José Albergaria.
Agradeço às pessoas* que emprestaram as suas peças para este jogo proposto pelo Nuno Costa Santos, através da Editora Livramento, aberto naturalmente a todos os leitores.
Caso não fiquem satisfeitos, não aceitamos devoluções. Sobretudo de carteiristas." - Sara Pais, Junho de 2006

*Por ordem alfabética: Alexandre Borges, Bernardo Rodrigues, Carlos Bessa, Daniel M., Eduardo Nogueira Pinto, Helena Ayala Botto, Hugo Rosa, Inês Fonseca Santos, João Sedas Nunes, José Bandeira, José Mário Silva, Luís Filipe Borges, Maria, Pedro Mexia, Pedro Vieira, Rafael Miranda, Ricardo Jorge, Rodrigo Moita de Deus, Rui Branco, Sérgio Faria, Tiago Cavaco, Tiago Galvão e Urbano Bettencourt.

Coordenação de texto: Nuno Costa Santos; Selecção e organização: Sara Pais; Concepção gráfica: José Albergaria.

Escritura

"O acto de escrever é, em si, um exagero assinalável." (TC)

AAVV, Frases para ter na carteira, Livramento, 2006, pág.9

Comunicando com o aforismo

"Tenho o fragmento no sangue"
(Cioran)


"A escrita que se encontra hoje nos blogues é velha como o tempo, embora o tempo pregue partidas, transformando as coisas noutras muito diferentes.(...)O "post curto" gera uma tensão sobre o espaço das palavras, acentua a utilização estética da frase, em combinação com o título e com outros elementos gráficos.(...)No "post curto" a escrita vai desde a mera frase com uma ligação, ou seja, uma porta, um caminho que nos leva para longe daquela página, daquele ecrã até à entrada diarística, impressionista ou faceta, até ao mini-ensaio, pouco mais do que o aforismo. É uma escrita que favorece, comunicando quer com os títulos de jornais, quer com o aforismo, a utilização de mecanismos poéticos, mas também humorísticos e sarcásticos.(...)"


José Pacheco Pereira, Público, 22/06/06

Sem título



Frases, papel e caneta, tesoura e bostik. Estudo para livro.
(clicar na imagem para aumentar)

domingo

Pró-cinema-israelita

Amos Gitai, realizador com formação em Arquitectura, que começou a filmar quando servia na Guerra de Yom Kippur, vai ter uma retrospectiva no doclisboa 2006. Na sessão de abertura, dia 21 de Outubro na Culturgest (ainda falta um bocadinho), vai ser exibido o filme News from Home/News from House (2005), deste cineasta israelita altamente recomendável. Tive oportunidade de ver o documentário, em casa há duas semanas atrás no leitor de DVD, onde são entrevistadas várias pessoas de origens diferentes. Há uma senhora palestiniana (a da imagem em cima) com cerca de oitenta anos, percebe-se que nascida no seio de família abastada e conservadora, sorriso e olhos radiantes, que passou grande parte da sua vida em itinerância. (Se não me engano, agora vive na Cisjordânia.) Gitai pergunta-lhe a certa altura, perante o seu discurso liberal, e alegre apesar de tudo, se alguma vez usou véu para tapar o cabelo. Ela responde assim (e cito de memória): "Quando não se confia nas mulheres, elas tornam-se más. Quando se confia, elas tornam-se boas. O meu pai sempre confiou em mim, por isso sempre fiz o que quis." Apaixonou-se, casou. Nunca usou véu.

Barrete

Comprei (e li) ontem o novo semanário Sol pela primeira vez. Na página 67 do caderno principal apresenta-se um questionário chamado "Janela Indiscreta", dirigido a Marisa Cruz. A pergunta que leva o prémio de maior cretinice é: "Se se apaixonasse por um muçulmano, aceitaria usar uma burka?" Sintomático.

BA: uma questão afectiva

"(...)passei uma parte importante da minha vida no Bairro Alto(...)apetece-me dizer que me custou imenso ler os posts que, nas últimas semanas, se foram multiplicando pela blogosfera.(...)Certo é que houve um tempo longínquo em que era possível apaixonarmo-nos por uma pessoa num só dia e rebolarmos pela calçada, sem ninguém dar por isso e sem pensar na possibilidade de sermos interrompidos por uma qualquer montanha de lixo."

A mim, Carla, apetece-me dizer que tenho passado uma parte importante da minha vida no Bairro Alto e que tudo continua a ser possível. Basta estar in the mood for e evitar rebolar pelas ruas mais agitadas.

A propósito: "várias famílias" gostaram muito de ouvir o Luís a passar música no sítio do costume. Recordo, em particular, a sequência ABBA-The Magnetic Fields. Também bebi caipirinhas ao som de Blondie ("The tide is high"). E o que choveu nessa noite...

In between

Le Jazzy Fante enviou outra versão de "Heart of glass" (clicar no linque para abrir o ficheiro), tocada por The Bad Plus. Obrigada! Parece-me que a música nunca circulou tão livremente como hoje em dia. (Batukada, do you read me? Enviei-te email.)

quarta-feira

Pergunte-me como

Não percebo patavina de HTML (vide o meu template originalíssimo), mas, por tentativa e erro, com a ajuda de outros bloggers que me transmitiram os seus igualmente escassos conhecimentos de informática e de um rapaz simpático que trabalha no apoio técnico da Netcabo, que certo sábado à tarde atendeu o telefonema de uma rapariga caprichosa que queria à viva força meter a tocar no blogue os mp3 que tinha no computador, graças a estes contributos, dizia eu, cá me arranjo. Por isso, estou a pensar dar um workshop para todos os que desejarem conseguir semelhante proeza. A inscrição é gratuita para o Pedro Mexia (a.k.a. Morrissey quando está "zangado com o mundo"), uma vez que o blogue dele, o Estado Civil, em que sou viciada, acaba de completar um ano de existência. Que o interregno seja breve.

(Mais informações, aqui.)

segunda-feira

Eu hoje...


Mushaboom (2004)

... acordei a pensar como terá sido para a Leslie Feist (cf. vídeo), a viver agora em Paris, partilhar uma casa com a Peaches em Berlim. Duas meninas (pós-punk) canadianas tão diferentes. Será que faziam escalas para lavar a loiça? Ou simplesmente partiam-na toda? Se calhar tinham máquina.

Entre o pré-punk e o pós-punk, onde fica o panque-roque?

Aqui.

Minoria blogosférica

Devo ser das poucas pessoas que no último sábado não comprou nenhum jornal. Levantei-me tarde.

sábado

Download


Peaches, 26/09/06, Paradise Garage, 21h

Le Fante compreende-me.

Hotmail

«Gostava muito de saber o nome deste extraordinário instrumento. No outro dia, inclusivamente, estive com um nas mãos sem nunca o chamar de nada. Ora, não se admite. Por esta razão e como tal, chamar-lhe-emos, neste texto e excepcionalmente, de ringustá. Muito obrigada.»

Batukada: eu tenho espaço na internet para alojar a tua versão de Eleanor Rigby - Cássia Eller (não conheço). Posso fazer-te um upload do mp3. Salvo seja.

A causa foi inventada

Não confundir criatividade com Criacionismo.

Um refrão que não envelhece

All the lonely people, where do they all come from?
All the lonely people, where do they all belong?

Grafito pág.10

«Os blogues são o tuning da burguesia.» (Bernardo Rodrigues)

AAVV, Frases para ter na carteira, Livramento, 2006

BAA (Bairro Alto Anonymous)

Nasci em 77. Sou uma menina pós-punk.

quinta-feira

You may not touch but you can look



Lembro-me que da primeira vez que fui a Londres, devia ter uns doze anos (1989?), uma das coisas que me deixou fascinada foi conhecer a Sock Shop, hoje uma loja banalíssima, que também abriu entretanto em Portugal. Nunca tinha visto nada assim: havia meias de todas as cores e feitios, para todos os gostos, ou pelo menos foi essa a impressão que me ficou.

(I get it, T.)

quarta-feira

Soprano talk



Every day is a gift... But does it have to be a pair of socks?
(Tony, entediado, após recuperação total de um pâncreas desfeito à bala, em sessão com a psiquiatra.)

Body works

Gostava de fazer uma tatuagem, há já muito tempo, numa zona do meu corpo onde se pudesse tornar perfeitamente visível sempre que necessário. A mensagem seria clara, objectiva, inequívoca: "allergic to penicillins and quinolones".

terça-feira

Cada um na sua pele

Quando penso no "Onze de Setembro", de imediato salto para o dia 12 de Outubro de 2002 e deixo para mais tarde as implicações para o Estado do Mundo.

Nesse dia também houve um atentado terrorista, que fez explodir uma bomba numa discoteca de Bali, Indonésia, e que matou cerca de duzentas pessoas, maioritariamente turistas. Os meus pais, em viagem, encontravam-se hospedados a algumas centenas de metros do local da explosão. Depois de ouvir a notícia "de última hora", entrei em pânico. Seria altamente improvável que eles estivessem na tal discoteca, mas nunca se sabe.

Nos anos 80, quando Indira Ghandi foi assassinada por sikhs, os meus pais estavam na Índia. Lembro-me de ver a minha avó, passada, a andar de um lado para o outro e a resmungar entre dentes: "Inconscientes, não se querem vir embora dali...". O Norte da Índia tinha entrado em convulsão, com hindus a matar sikhs. Mas os meus pais estavam no Sul, claro que não lhes aconteceu nada. Depois, embora hoje em dia já se tenham deixado de aventuras todo-o-terreno, desde que capotaram o jipe no meio dum deserto qualquer, não há tantos anos assim, com o meu pai (maluco) a conduzir, acidente do qual, felizmente, acabaram por sair ilesos, já não excluo nenhuma hipótese.

12 de Outubro de 2002. Sozinha em casa, aquilo mais parecia uma redacção de jornal. Televisão, rádio, internet, tudo ligado ao mesmo tempo. Telefonemas. Nada. Horas depois, consegui finalmente sossegar. Estavam a dormir, não tinham dado por explosão nenhuma.

Na manhã do dia 11 de Setembro de 2001, os meus pais podiam estar em Manhattan, de visita às Twin Towers. Também podia ser eu ou amigos meus. Ou um primo afastado. Ou milhares de pessoas que eu não conhecia, americanos ou estrangeiros, que era de facto quem lá estava. Em teoria, vai dar ao mesmo. Na prática, não.

segunda-feira

Still



posted by sara # 9:00 PM

[http://desassossegada.blogspot.com, 11 de Setembro de 2004]

Há dentro de mim uma lembrança,
pedra branca no fundo de um poço,
já não posso, já não quero lutar:
ela é sofrimento, alegre alvoroço.

Acredito: quem olhe bem de perto
nos meus olhos a possa vislumbrar.
E cisme mais triste do que ouvindo
uma história de saudade e pesar.

Diz-se que os deuses mudavam os homens
em coisas, sem matar-lhes a consciência,
para que vivesse a maravilhosa
tristeza. E ficaste-me lembrança.


[Verão de 1916, Sliepniovo]

Anna Akhmátova, SÓ O CHEIRA A SANGUE, trad. Nina Guerra e Filipe Guerra, Assírio & Alvim, 2000

posted by sara # 9:00 AM

[http://desassossegada.blogspot.com, 11 de Setembro de 2004]

domingo

Consciousness fiction

«A seriedade é um continente misterioso do corpo que serve para esconder os defeitos da mente.»

Laurence Sterne, The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman, citado por Vila-Matas.

Shandy


Marcel Duchamp, Boîte-en-valise

(...)Mas miniaturizar é também ocultar. Duchamp, por exemplo, também se sentiu sempre atraído pelo extremamente pequeno, quer dizer, por tudo o que exigisse ser decifrado: emblemas, manuscritos, anagramas. Para ele, miniaturizar significava também tornar inútil: «O que está reduzido encontra-se de certo modo livre de significado. A sua pequenez é, ao mesmo tempo, um todo e um fragmento. O amor pelo pequeno é uma emoção infantil.»(...)

Enrique Vila-Matas, História Abreviada da Literatura Portátil (1985), trad. José Agostinho Baptista, Campo das Letras, 2006

Girl talk

- Estou na praia! Não queres vir cá ter?
- Estou no café de esquina da minha rua. O Paul Auster também. Não queres vir cá ter...?

Só conheço um dos livros de ficção que escreveu (Oracle Night, Faber & Faber, no original). Não me tornei fã. Lulu on the Bridge, o filme que realizou em 1998, tão pouco me tinha deixado entusiasmada. Mas confirma-se: o homem é bonito que se farta, mesmo quando não tira os óculos escuros. Fingi que não reparei.

sábado

Não sei porquê, confundo-as


Romy Schneider (1938-82) & Simone Signoret (1921-85)

Arquitectura de interior(es)

Um dia escrevi um post curtinho que se chamava "falta de pudor". Dizia que as paredes da minha casa eram brancas, estavam nuas e eu gostava delas assim. Por causa disto, uma amiga que estava a pensar oferecer-me um quadro, desistiu da ideia.

Eu estava a falar do template do blogue... Não da minha casa.

(para a Joana)

Proverbi

Non c’è sàbbutu senza suli, non c’è fimmina senza amuri. (Non c’è sabato senza sole, non c’è donna senza amore.)

Tradução livre, já que não sei italiano, muito menos dialecto siciliano: "Uma mulher sem amor é como um sábado sem sol."
Estará certo?

The road to Gibellina



Foi difícil de encontrar, mas também lá conseguimos chegar:

(...)The earthquake destroyed the whole village in 1968. The artist Alberto Burri buried half the ruins in concrete, retaining the line of the streets, covering the blocks of houses to about six feet.(...)

(...)We could see the road across the valley from the ruins and Burri's concrete "creto" - it would give a good view of the ruins. But we couldn't find the road. There was no one around to ask. We drove along a few field tracks following the topography, up over the crest of the hill, and there it was - a 100 yard stretch of road, coming from and leading nowhere.(...)


Fotografia e texto do photoblog colectivo Archaeography.