quinta-feira

A luz ao fundo (parêntesis)



A Sicília é uma ilha acidentada. As estradas têm muitos túneis, alguns de 300 metros, outros de mais de um quilómetro (tinha de engolir em seco porque sou um bocadinho claustrofóbica), frequentemente com pouca distância a separá-los. E durante o dia, a luz natural vai e vem.

Todos os túneis são baptizados. É claro que quando se lê numa placa que há um que se chama "Carbonara" (desconheço se a palavra significa alguma coisa para além da referência culinária), começa-se a pensar que quem planeou a rede rodoviária siciliana a certa altura terá ficado sem imaginação (ou antes pelo contrário) e decidiu nomear túneis em honra do "primi piatti" do jantar da noite anterior. Também me questionei sobre quem terá realmente subsidiado tanta perfuração de montanha... Talvez aquela organização simpática cuja designação começa por "M" e acaba em "ÁFIA" (piada com direitos de autor).

Outro nome que achei curioso, digamos assim, estava numa saída de auto-estrada, que indicava a direcção para Tusa. (À especial atenção do Tiago.) O mapa não me deixa mentir!

Mas também não era aí que queríamos chegar.

Enquanto a M. dormia no banco de trás como um anjo, e eu conduzia (reparem na suavidade do pisca-pisca a marcar o ritmo da ultrapassagem), a I. fez alguns vídeos curtos com a máquina fotográfica (uma Leica do tamanho de um maço de tabaco, objecto de culto, lindo). Com a ajuda do YouTube, deixo aqui um desses registos espontâneos de 30 segundos cujo resultado gosto muito.

(Já em Lisboa os túneis são outros. Esta madrugada pareceu-me ver uma luzinha. Deve ter sido do calor.)

segunda-feira

Silly season (rentrée)


(a monte nos escaparates turísticos)

Em Palermo fui sequestrada pela Máfia. Não se sabe porquê, mas desconfia-se que não foi pelos meus lindos olhos. Na origem do sequestro poderá ter estado o facto irritante de eu tentar falar espanhol em vez de italiano, sempre que abria a boca para comunicar com os locais.

Como resgate, foi exigido às autoridades que disponibilizassem de imediato várias toneladas de mozzarella de búfala, pasta fresca e tomate seco. Caso estas exigências não fossem satisfeitas, ameaçaram obrigar-me a visitar todas as catedrais e igrejas (barrocas ou não) existentes na Sicília, e, no pico do calor, todas as ruínas gregas e romanas com mais de três pedras alinhadas. Em alternativa, atiravam-me para dentro do vulcão Etna.

Sem ceder às chantagens, os Carabinieri conseguiram salvar-me numa complexa operação que envolveu azeitonas, figos da Índia e a motoreta da Dona Giuseppina – que, a propósito, manda os seus melhores cumprimentos à Dona Bina.

Honey, I'm home.

quarta-feira

Sicily season



Boas férias e até breve.

Ficção x Realidade

Vou perder os próximos episódios dos Sopranos, mas...

CORLEONE (PALERMO), 9 AGO - Continuano i rilievi della polizia scientifica a Corleone, dove ieri sono stati trovati resti umani tra cui due teschi. Le ossa si trovano in quello che potrebbe essere stato un cimitero di mafia, nell'anfratto di contrada Acqua di Pieta'. Uno dei due teschi ha un foro sopra l'arcata orbitale sinistra che potrebbe essere stato provocato da un proiettile di pistola. Le ossa umane sarebbero state individuate da un cacciatore che cercava origano.

(Fonte: ANSA)

terça-feira

Silly season

1. Orientação sexual: «Vertical quando estou deitado. Horizontal quando estou em pé.» Pif-paf.

Antidepressivo

As primeiras três séries das Absolutely Fabulous estão editadas em DVD e uma dessas caixas está em minha casa, para ficar. Já revi quase todos os episódios, rebolo a rir e relembro um comentário (e o post) da Triciclo Feliz em Março do ano passado: «eu deliro com isto! acho que os sopranos é, provavelmente, a melhor série de sempre; o doido por ti, a série com que mais me identifiquei; a liga de cavalheiros, porque é um requinte de malvadez; o the office porque é um assombro a apanhar a mediocridade quotidiana, mas esta série.. pah.. estas duas, porra, põem-me absolutamente bem-disposta.»

Bonjour tristesse

Não sabia, até ontem me terem dito, que Jean Seberg tinha tido um fim de vida tão triste. Pesquisei um bocadinho e encontrei (talvez) a explicação:

«(...)By 1960 Jean Seberg was a cultural icon herself in France, influencing the Parisian fashions every bit as much as Godard and Truffaut were influencing film. Her Hollywood performances, although never considered by Seberg herself to be of any consequence, were frequently stunning, and she was often compared to silent movie queen Louise Brooks for the intelligence that she brought to her roles. Her close friends included German born Fellini actress and model turned rock star Nico (they would later work together for Phillippe Garrell) and Russian intellectual Romain Gary (creator of Ghengis Cohn), who became her second husband.

In the late 1960s, Jean Seberg took more roles in Hollywood, most notably opposite Warren Beatty in Lillith. She also became increasing active in left wing political groups. Her support for the anti-racist movement the Black Panthers, along with that of Jane Fonda, was well known. But such was Seberg's influence, specially in Europe, that FBI director J. Edgar Hoover considered her a genuine liability, and, in 1970 when she was seven months pregnant, issued instructions that Seberg be "neutralised". Thus it was that a fake letter was "leaked" to the Hollywood gossip columns, suggesting that the father of the child was not Gary, but a member of the Black Panthers. The reaction so traumatised Seberg that she gave birth prematurely, and the child was stillborn. The next day Seberg called a press conference, where she presented shocked journalists with the body of her dead white child. The measure, though extreme, put an end to the rumours, but the FBI continued to hound Seberg until she eventually moved back to Paris.(...)»

O horripilante desfecho é descrito nesta biografia. Não houve consolação que lhe valesse.

sexta-feira

O Acossado



Um blogue que me prendeu a atenção, via BI.

Soprano talk (extra)

Divertiu-me a gralha - ao ponto de fazer uma nota que agora recupero - no destaque dado pelo jornal Público aos programas de televisão, no dia em que se anunciava o primeiro episódio da nova série sob a categoria "Entrevistas". Imaginei logo a SIC Generalista num acesso de demência concorrencial (e moralizante) a transmitir uma entrevista a Tony Soprano, conduzida por Maria João Avillez: Não acha que é errado matar pessoas?

P.S. Olá Luís, obrigada...

quinta-feira

The usual suspects



Em 2007 hei-de assinalar 30 anos de vida. Grande parte dos meus amigos, cúmplices de longa data, já o fez ou está a fazer este ano. Hoje é a vez do Daniel. Muitos parabéns!

(Não se deixem enganar pelas fotografias. Há mais mulheres no grupo, mas houve várias que pediram para não ser identificadas.)

terça-feira

Da série "ideias para t-shirts"

I DON'T DATE POETS

Soprano talk?



- They misquoted me.
- Of course they did. That's what they do!


Episódio 68, 6ª série: Mayham*
Carmela fica furiosa com AJ e grita com o filho quando vê no noticiário que ele falou com os jornalistas, à porta do hospital onde o pai está internado e definha, depois de ter sido alvejado pelo demente Uncle Junior, entretanto detido pelo FBI. Cá fora, a mulher de Silvio incita-o a tomar atitudes e posições de "Chefe de Família", agora que Tony Soprano está com os pés para a cova, e mostra como por trás de um grande mafioso pode estar uma grande mafiosa. Vito, disforme e homossexual não-assumido (retirado do contexto, este comentário seria considerado homofóbico), é repugnante. Espero que em breve alguém lhe limpe o sebo (literalmente). Chris e restante pandilha estão muito interessados em investir na indústria cinematográfica. Com um "filme de terror" de baixo orçamento pretendem fazer milhões, seguindo o exemplo dos "asiáticos". Para ajudá-los, ameaçam um argumentista (giraço, mas um bocado pretensioso) que é viciado no jogo e que lhes deve dinheiro. Querem que ele escreva uma história sobre um mafioso que morre e depois "regressa", não se sabe ainda se vivo ou morto, para se vingar dos que o traíram. Pouco depois desta reunião ter lugar, Tony regressa do sonho (excelente) em que personifica um vendedor bem sucedido de sistemas de aquecimento, de seu nome Kevin Finnerty, recentemente diagnosticado com Alzheimer. Na sequência da taquicardia provocada pela conversa de chacha, ou melhor, pelo monólogo de chacha, ou melhor, pelo ruído de Paulie, Tony recupera do estado de coma. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

E os créditos finais, que adoro ver correr no ecrã, ao som de um tema instrumental de Daniel Lanois, que desconhecia mas cuja sonoridade associo aos ambientes de Ry Cooder, "The Deadly Nightshead" (clicar para abrir o ficheiro e ouvir). Como sempre, uma selecção musical impecável.

*A que se refere o título deste episódio...? No meu dicionário Longman de inglês contemporâneo só encontro a palavra grafada de maneira diferente: Mayhem - an extremely confused situation in which people are very frightened or excited. Parece-me bem.

Adenda: A explicação da origem de "Mayham" chegou entretanto. No site TV.com pode ler-se, na secção trivia: «The episode title comes from a mispronounciation of Paulie's, who describes the raid of the Colombian drug house as "mayham".» Um assalto que resultou em tiroteio. Paulie safou-se, mas ainda levou um pontapé que ia ficando sem balls. Não terá sido em vão. A máquina de lavar estava recheadinha de maços de notas. Obrigada pela dica, Carlos. A falar é que a gente se entende.